Por Josep Maria Buades, diretor do escritório exterior de Comércio e Investimentos da Catalunha em São Paulo
Em um momento em que o comércio internacional volta a ser marcado por guerras tarifárias, protecionismo e disputa entre grandes potências, o acordo entre União Europeia e Mercosul surge como um dos movimentos geopolíticos mais relevantes das últimas décadas.
Após mais de 20 anos de negociações, o tratado representa não apenas uma redução das tarifas, mas sim uma tentativa concreta de reposicionamento econômico em um mundo cada vez mais fragmentado entre Estados Unidos, China e Europa.
A lógica da globalização mudou, o que levou empresas e governos a priorizarem a segurança produtiva, a diversificação dos fornecedores e a redução de dependências estratégicas. A pandemia, a guerra na Ucrânia e a crescente tensão comercial entre Washington e Pequim aceleraram esse movimento.
Hoje, a disputa global não está focada apenas nos mercados consumidores, mas também no controle das cadeias de produção, indústria verde, transição energética e influência econômica em regiões estratégicas. Nesse contexto, o acordo UE-Mercosul não é mais apenas um acordo comercial, mas uma plataforma para reposicionamento internacional.
A dimensão do tratado ajuda a explicar sua relevância. Juntos, os dois blocos representam mais de 700 milhões de consumidores e aproximadamente 25% do PIB mundial, formando uma das maiores áreas de livre comércio do planeta. Espera-se que o acordo elimine tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre as regiões nos próximos anos.
Mas o aspecto mais estratégico pode ser outro: a Europa está tentando recuperar proeminência econômica em uma América do Sul onde a presença chinesa avançou rapidamente na última década. Atualmente, a China já é o principal parceiro comercial do Brasil e de vários países da região, expandindo sua influência em setores como infraestrutura, energia, mineração e tecnologia.
Nesse cenário, o acordo representa também uma resposta europeia à nova geografia do poder econômico global. Para o Mercosul, o tratado abre a possibilidade de ampliar exportações, atrair investimentos e aumentar a integração industrial e tecnológica com a Europa. O desafio, no entanto, será transformar essa aproximação em ganho de competitividade e inovação, e não apenas em expansão de exportações primárias.
O Brasil ocupa posição central nesse processo. Pela dimensão do seu mercado, pela força da sua indústria e pelo peso regional, o país tende a consolidar-se como a principal porta de entrada para investimentos europeus na América do Sul, ganhando relevância como plataforma estratégica de produção, energia renovável e segurança alimentar.
Regiões industriais e inovadoras como Barcelona-Catalunha já percebem esse movimento. Em 2025, a região importou cerca de 1,9 bilhão de euros do Mercosul, enquanto as exportações catalãs ao bloco ultrapassaram 1,34 bilhão de euros. Brasil e Argentina concentram, atualmente, a maior parte dessa dinâmica comercial.
Durante a pandemia, período em que diversas cadeias globais sofreram rupturas, os negócios entre Barcelona-Catalunha e os países do Mercosul cresceram quase 60%. O movimento revela como empresas europeias passaram a buscar mercados considerados politicamente mais estáveis e economicamente complementares.
Setores como automotivo, química, moda, agritech, tecnologia industrial e transição energética tendem a ganhar protagonismo nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o acordo pode acelerar investimentos relacionados à economia verde, hidrogênio renovável e descarbonização industrial, áreas que já se tornaram centrais na estratégia econômica europeia.
Naturalmente, um acordo dessa magnitude também desperta tensões. Na Europa, por exemplo, setores agrícolas e industriais pressionam por mecanismos de proteção e reciprocidade regulatória. Já existe uma preocupação crescente sobre padrões ambientais, rastreabilidade e competição assimétrica.
Na América do Sul, por outro lado, o debate gira em torno da capacidade de industrialização local, agregação de valor e preservação da competitividade diante da abertura comercial. O receio de parte do setor produtivo é que o Mercosul continue excessivamente dependente da exportação de commodities enquanto importa produtos industrializados de maior valor agregado.
Essas discussões mostram que o acordo UE-Mercosul vai muito além das tarifas, tratando-se de uma disputa por influência econômica, capacidade industrial e protagonismo internacional em um mundo cada vez mais multipolar. Mais do que um tratado comercial, a aliança pode marcar o início de uma nova etapa nas relações entre Europa e América do Sul e redefinir o papel dos dois blocos na nova geografia global dos negócios.



