Estudo da Allianz Trade aponta crescimento acelerado da demanda de energia acima dos 30°C, pressão sobre os sistemas elétricos e ampliação dos riscos econômicos associados às mudanças climáticas
As ondas de calor deixaram de representar apenas um desafio ambiental para se consolidarem como uma variável estratégica na gestão dos sistemas elétricos e na formulação de políticas econômicas. Um estudo inédito da Allianz Trade revela que o avanço da temperatura global pode provocar perdas equivalentes a até 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em economias altamente expostas até 2030, ao mesmo tempo em que amplia significativamente a pressão sobre a infraestrutura energética.
O relatório “Too Hot to Grow: The Economic Costs of Extreme Heat”, elaborado pela Allianz Research, conclui que o calor extremo já produz impactos mensuráveis sobre produtividade, investimentos, arrecadação pública e consumo de energia. Para o setor elétrico, a principal preocupação está na aceleração da demanda durante eventos climáticos severos, exigindo maior capacidade operacional das redes de transmissão e distribuição e aumentando os custos de atendimento da carga.
A análise combina dados históricos de dezenas de países entre 1991 e 2024 com projeções macroeconômicas desenvolvidas pela Oxford Economics. Os resultados mostram que os efeitos econômicos do calor não evoluem de forma linear. A partir de determinado patamar de temperatura, os impactos passam a crescer de maneira exponencial, ampliando simultaneamente os desafios para governos, empresas e operadores de infraestrutura.
A barreira dos 30°C e a transformação da curva de consumo
Um dos principais achados do estudo está relacionado ao comportamento da demanda energética em cenários de calor extremo. Os pesquisadores identificaram que a relação entre temperatura e consumo de energia segue uma curva em formato de “U”. Em faixas moderadas, o consumo tende a permanecer relativamente estável ou até diminuir em função da menor necessidade de aquecimento de ambientes. Entretanto, quando os termômetros ultrapassam os 30°C, a dinâmica muda radicalmente.
Nesse ponto, sistemas de refrigeração, climatização e ar-condicionado passam a responder por uma parcela crescente da carga elétrica. Os cálculos da Allianz Research indicam que cada grau adicional entre 30°C e 35°C eleva o consumo per capita de energia em aproximadamente 1,2%.
Para os operadores dos sistemas elétricos, esse comportamento cria um desafio crescente. Além do aumento da demanda, a concentração do consumo em horários específicos amplia a necessidade de acionamento de fontes complementares e reforça a importância de investimentos em flexibilidade operacional e capacidade de resposta das redes.
Brasil está entre os mercados mais expostos
O estudo dedica atenção especial ao Brasil e aos países sul-americanos em razão da elevada exposição climática da região. Ao comparar os episódios mais intensos de calor registrados no Brasil após 2014 com as médias históricas observadas entre 1991 e 2010, os pesquisadores identificaram um aumento entre 4% e 5% no consumo per capita de energia.
Embora o percentual possa parecer limitado à primeira vista, seu efeito sobre o sistema elétrico é significativo. Em períodos de elevada demanda, o crescimento da carga desloca a operação para faixas mais caras da curva de atendimento, exigindo maior despacho de recursos complementares e aumentando a pressão sobre os preços da energia.
O fenômeno também reforça os desafios associados ao planejamento energético de longo prazo. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes, cresce a necessidade de adequação da infraestrutura de transmissão, distribuição e geração para suportar picos de consumo cada vez mais intensos.
Produtividade em queda amplia os efeitos sobre a economia
Os impactos do calor extremo vão além da infraestrutura energética. O relatório mostra que o aumento das temperaturas reduz a produtividade do trabalho, especialmente em atividades realizadas ao ar livre ou em ambientes com refrigeração limitada. Na América do Sul, a proporção de horas de trabalho perdidas por estresse térmico deverá dobrar até 2030, passando de 0,4% para 0,8%.
Esse efeito cria um ciclo econômico adverso. Ao mesmo tempo em que aumenta a demanda por energia, o calor reduz a capacidade produtiva das economias, afetando a geração de riqueza e comprimindo margens empresariais. Para setores intensivos em mão de obra, logística, construção civil e infraestrutura, o desafio passa a envolver não apenas a gestão operacional, mas também a necessidade de adaptação dos modelos de trabalho às novas condições climáticas.
Investimentos podem desacelerar diante da nova realidade climática
Outro ponto de atenção destacado pela Allianz Trade é o impacto do calor extremo sobre a formação de capital. O estudo projeta que os investimentos produtivos poderão sofrer retração média de até 8% nos países mais afetados. A explicação está na deterioração das expectativas de retorno de projetos industriais e de infraestrutura diante de custos operacionais crescentes e maior exposição a riscos climáticos.
Para o setor elétrico, essa conclusão assume relevância especial. A transição energética exige aportes bilionários em geração renovável, redes inteligentes, armazenamento e modernização da infraestrutura. Qualquer aumento da percepção de risco tende a elevar o custo do capital e dificultar a viabilização de novos empreendimentos.
O cenário também afeta investidores institucionais, que passam a incorporar variáveis climáticas de forma mais rigorosa em suas avaliações de risco e retorno.
Calor pode criar ambiente de estagflação
Além dos impactos sobre a atividade econômica, o estudo alerta para a possibilidade de intensificação de processos estagflacionários em países altamente expostos às mudanças climáticas. Nesse contexto, a combinação entre crescimento econômico mais fraco e inflação persistente ganha força a partir do aumento dos custos energéticos, logísticos e produtivos.
A situação é considerada particularmente sensível porque limita a eficácia dos instrumentos tradicionais de política monetária. Bancos centrais enfrentam dificuldades para combater pressões inflacionárias originadas em choques de oferta sem aprofundar a desaceleração econômica.
Embora os exemplos mais críticos estejam concentrados na Europa, os pesquisadores destacam que mercados emergentes também podem enfrentar desafios semelhantes à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes.
Pressão crescente sobre contas públicas
Os efeitos econômicos do calor extremo também alcançam as finanças governamentais. A Allianz Research projeta redução da arrecadação tributária e aumento simultâneo dos gastos públicos relacionados à saúde, adaptação climática, reconstrução de infraestrutura e programas de mitigação dos impactos sociais.
Na Europa, os investimentos voltados à resiliência contra ondas de calor já consomem aproximadamente metade dos recursos públicos destinados às políticas climáticas. Como resultado, os déficits fiscais tendem a se ampliar, aumentando a pressão sobre governos que já operam com margens reduzidas de equilíbrio orçamentário.
Para economias emergentes, esse desafio se torna ainda mais complexo diante da necessidade simultânea de expandir infraestrutura energética, financiar a transição para uma economia de baixo carbono e fortalecer mecanismos de adaptação climática.
Setor elétrico precisará rever planejamento para a próxima década
As conclusões do relatório reforçam uma mudança de paradigma para o planejamento energético global. O calor extremo passa a ser tratado não apenas como uma variável meteorológica, mas como um fator estrutural capaz de alterar projeções de carga, padrões de consumo, estratégias de investimento e modelos regulatórios.
Entre as recomendações apresentadas pelos pesquisadores estão a modernização dos códigos de construção para ampliar a eficiência térmica das edificações, a revisão dos critérios de planejamento da demanda em períodos de verão e o desenvolvimento de instrumentos financeiros voltados à mitigação dos riscos climáticos.
Para o Brasil, onde eventos de calor intenso têm se tornado cada vez mais frequentes, o estudo sugere que a adaptação climática deverá ocupar espaço crescente nas decisões relacionadas à expansão do sistema elétrico, à segurança energética e à competitividade econômica. Mais do que uma questão ambiental, o calor extremo surge como um novo vetor de risco para o crescimento econômico e para a sustentabilidade da infraestrutura energética nas próximas décadas.



