Etanol de milho reduz custo em até 30% e abre nova fase de concorrência com setor sucroenergético

Produção contínua no Centro-Oeste fortalece segurança de abastecimento, reduz volatilidade de preços e acelera transformação do mercado nacional de biocombustíveis.

O mercado brasileiro de biocombustíveis vive uma mudança estrutural que vai além do crescimento da produção. Impulsionado pela expansão das usinas instaladas no Centro-Oeste, o etanol de milho deixou de ser uma alternativa complementar à cana-de-açúcar para assumir papel estratégico na segurança de abastecimento, na formação de preços e na competitividade do setor.

Nos últimos anos, a rápida evolução da indústria do milho transformou o perfil da oferta nacional de etanol. Com operação contínua ao longo de todo o ano e custos de produção significativamente mais baixos, o segmento vem reduzindo a dependência histórica da sazonalidade da cana-de-açúcar e criando um novo equilíbrio competitivo no mercado brasileiro.

Atualmente, o combustível produzido a partir do cereal já representa cerca de 30% do volume nacional de etanol, consolidando-se como uma das principais apostas para garantir estabilidade de fornecimento em um cenário marcado por oscilações climáticas, mudanças nos ciclos agrícolas e crescente demanda por combustíveis de menor intensidade de carbono.

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Centro-Oeste se consolida como polo da nova fronteira dos biocombustíveis

O avanço do etanol de milho está diretamente ligado à expansão agroindustrial observada nos estados do Mato Grosso e Goiás, regiões que concentram elevada produção de grãos, disponibilidade de biomassa para geração de energia e condições tributárias favoráveis para novos investimentos.

A combinação desses fatores permitiu a instalação de unidades industriais dedicadas exclusivamente ao milho, conhecidas como usinas full, além de modelos flex que integram o processamento de cana e milho em uma mesma planta.

Na avaliação do CEO da SCA Brasil, Martinho Seiiti Ono, a competitividade econômica é um dos principais motores dessa expansão: “O custo de produção do etanol de milho é entre 20% e 30% menor que o do etanol de cana, o que estimulou o surgimento de muitas novas usinas no Centro-Oeste.”

Além da eficiência operacional, a cadeia produtiva do milho conta com uma importante fonte complementar de receita. As usinas comercializam os chamados DDGs (Distillers Dried Grains), coprodutos ricos em proteína utilizados na alimentação animal. Essa diversificação de receitas reduz a exposição das empresas às oscilações do mercado de combustíveis e contribui para melhorar a rentabilidade dos projetos, aumentando a atratividade para investidores e financiadores.

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Produção durante todo o ano reduz volatilidade do mercado

Historicamente, o mercado brasileiro de etanol sempre foi fortemente influenciado pelo calendário da cana-de-açúcar. Durante os períodos de entressafra, a oferta diminuía e os preços apresentavam elevações significativas, impactando distribuidoras, consumidores e agentes da cadeia logística.

A chegada do etanol de milho em escala industrial está alterando essa dinâmica. Enquanto a produção sucroenergética depende de ciclos agrícolas específicos e de condições climáticas favoráveis, as usinas de milho operam de forma ininterrupta, garantindo fornecimento regular ao longo dos 12 meses do ano.

Ao analisar os impactos comerciais dessa operação contínua, o executivo da SCA Brasil evidencia o ganho de previsibilidade para o ecossistema de refino e distribuição: “As usinas de etanol de milho operam durante os 12 meses do ano. Isso reduz a sazonalidade de oferta e de preços que existia no passado.”

O efeito dessa mudança tornou-se ainda mais evidente nos últimos ciclos produtivos. Com os preços internacionais do açúcar atingindo patamares elevados, muitas usinas sucroenergéticas direcionaram uma parcela maior da moagem para a produção da commodity, reduzindo a disponibilidade de etanol de cana.

Nesse contexto, o etanol de milho assumiu papel decisivo para equilibrar a oferta nacional e evitar pressões ainda maiores sobre os preços dos combustíveis.

Competição entre cana e milho entra em nova fase

O crescimento acelerado do segmento também inaugura uma nova etapa na disputa por mercado entre os dois principais modelos produtivos de etanol do país. Se em um primeiro momento o milho ocupava espaços deixados pela cana, agora a competição ocorre de forma direta em diversas regiões consumidoras.

A maior disponibilidade do produto, combinada à redução dos custos industriais, vem pressionando margens e aumentando a eficiência de toda a cadeia. O dirigente da SCA Brasil aponta que o equilíbrio de forças entre os dois modelos energéticos atingiu um novo estágio comercial: “Neste ano, teremos um cenário de maior competitividade entre os produtores de etanol de cana e milho.”

Para especialistas do setor, esse ambiente competitivo tende a beneficiar consumidores e distribuidoras, ao ampliar as opções de suprimento e reduzir a vulnerabilidade do mercado diante de eventos climáticas ou oscilações internacionais de preços.

Potencial exportador fortalece agenda de descarbonização

Além dos impactos internos, a expansão do etanol de milho também reforça o posicionamento do Brasil no mercado global de combustíveis renováveis. As novas plantas industriais foram concebidas com elevados padrões de eficiência energética e aproveitamento de resíduos, contribuindo para reduzir a intensidade de carbono do combustível produzido.

Esse atributo ganha relevância em um cenário internacional cada vez mais orientado por metas de descarbonização, programas de combustíveis limpos e exigências de rastreabilidade ambiental.

Ao avaliar a percepção dos compradores externos em relação ao avanço do grão na matriz brasileira, Ono destaca o fortalecimento da imagem do país lá fora: “Os produtores brasileiros vêm realizando um trabalho importante de divulgação e o mercado internacional já reconhece o etanol de milho brasileiro como um combustível sustentável, com baixa pegada de carbono.”

Infraestrutura e demanda ainda são desafios para o crescimento

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta obstáculos importantes para sustentar seu ritmo de expansão nos próximos anos. Um dos principais desafios está relacionado à ampliação do consumo de etanol hidratado fora dos mercados tradicionalmente dominados pelos veículos flex, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Sul.

Questões tributárias, infraestrutura logística e diferenças de competitividade em relação à gasolina ainda limitam uma maior penetração do combustível em algumas áreas do país. Outro ponto considerado estratégico é o fortalecimento dos mercados internacionais para os DDGs, que se tornaram uma importante fonte de receita para as usinas de milho.

Mapeando os eixos operacionais necessários para consolidar a próxima etapa de crescimento da indústria, o presidente da SCA Brasil conclui: “O setor ainda precisa ampliar o mercado externo para DDG e investir fortemente na produção de biomassa, especialmente com plantações de eucalipto em larga escala.”

A superação desses gargalos será determinante para consolidar o etanol de milho como um dos principais vetores de expansão dos biocombustíveis no Brasil, reforçando a segurança energética nacional e ampliando a participação das fontes renováveis na matriz de transportes. 

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