Tropical Forests Forever Facility busca financiar preservação ambiental com apoio de 53 países, enquanto Reino Unido e França ficam de fora e especialistas alertam para riscos de transparência e execução
Durante a abertura da COP30, em Belém (PA), o Brasil anunciou a criação do Tropical Forests Forever Facility (TFFF), um novo fundo global destinado a remunerar países que mantêm suas florestas preservadas. A iniciativa, apoiada por 53 países e com promessas iniciais de US$ 5,5 bilhões, busca transformar a conservação ambiental em uma política econômica estável, um passo considerado histórico para a agenda climática internacional.
Mas o entusiasmo com o anúncio foi acompanhado de questionamentos sobre a adesão limitada das grandes economias. Reino Unido e França, por exemplo, não confirmaram participação no TFFF. Essa ausência lança dúvidas sobre o peso político e a sustentabilidade financeira do mecanismo, que depende de rendimentos de longo prazo aplicados no mercado financeiro.
Um novo modelo de financiamento verde
Pelo desenho inicial, o TFFF funcionará com pagamentos anuais por desempenho ambiental, medidos por monitoramento via satélite. O valor de referência é de US$ 4 por hectare/ano, sujeito a reduções proporcionais em casos de desmatamento ou degradação por fogo.
Os recursos virão dos rendimentos de um fundo patrimonial administrado pelo Banco Mundial, e ao menos 20% dos repasses serão destinados diretamente a comunidades locais e povos indígenas.
Segundo o governo brasileiro, o mecanismo busca premiar países que mantêm florestas em pé, reduzindo o desequilíbrio entre nações desenvolvidas, historicamente responsáveis pela maior parte das emissões, e países em desenvolvimento que preservam seus biomas.
“O TFFF pode ser o início de uma nova economia florestal”
Ao analisar o lançamento do TFFF, o especialista internacional em energia e clima, Eric Daza, reconhece o marco simbólico e econômico que o fundo representa para o Brasil, mas alerta que seu sucesso no longo prazo será determinado pela governança e transparência.
“O TFFF marca um avanço histórico na tentativa de transformar a conservação em uma política econômica previsível, mas precisa provar que é mais que uma vitrine diplomática. O TFFF pode ser o início de uma nova economia florestal, que paga pela floresta viva e penaliza o desmatamento. Mas sem transparência, regras públicas e acesso direto às comunidades locais, o mecanismo pode perder credibilidade”, afirma Daza.
Relação direta com o setor elétrico e a transição energética
A criação do fundo ocorre em um momento de forte interseção entre política ambiental e energética. O Brasil chega à COP30 com a menor taxa de desmatamento da Amazônia em uma década, mas também com debates internos sobre exploração de petróleo na Margem Equatorial e sobre a ampliação da geração renovável.
Nesse contexto, o TFFF é visto como uma ponte entre a política florestal e o financiamento da transição energética, criando oportunidades para o setor elétrico em áreas como compensação de emissões, créditos de carbono e investimentos sustentáveis.
Para Daza, a conexão entre a floresta e a energia será decisiva. “É essencial saber quem recebe, quanto e por qual desempenho. Isso define se o TFFF será de fato um instrumento de desenvolvimento local ou apenas mais um experimento de mercado verde”.
Grandes ausências e implicações geopolíticas
A não adesão de países como Reino Unido e França evidencia a dificuldade de alinhamento entre discurso e compromisso financeiro na agenda climática. Embora tenham histórico de apoio a fundos de preservação, ambas as nações preferiram manter aportes diretos ao Fundo Amazônia e ao Green Climate Fund, sem aderir ao novo modelo.
Essa fragmentação preocupa analistas do setor energético, que veem no TFFF um teste de credibilidade para o Brasil como articulador global. “O sucesso do fundo depende da capacidade do país de liderar com governança, mensuração técnica e transparência”, resume Daza.
Riscos de volatilidade e sustentabilidade financeira
Outro ponto crítico é o modelo de capitalização. Como o TFFF depende de rendimentos de investimentos financeiros, períodos de baixa rentabilidade global podem reduzir os pagamentos anuais, comprometendo a previsibilidade dos repasses. Isso coloca o fundo em uma posição semelhante à de fundos soberanos de energia e infraestrutura, sujeitos à volatilidade de mercado.
Mesmo com os riscos, o Brasil aposta que o TFFF poderá atrair investimentos privados e fortalecer a diplomacia ambiental, impulsionando a imagem do país como protagonista da economia verde.
“Se a floresta virar uma linha orçamentária e o dinheiro chegar às comunidades, a aposta terá valido. Caso contrário, será apenas mais um discurso bem-intencionado”, conclui Daza.
Perspectiva para o setor elétrico
Para o setor elétrico, o avanço do TFFF pode ampliar a integração entre políticas florestais, energéticas e climáticas, estimulando modelos híbridos de financiamento verde. Companhias de geração e transmissão poderão se beneficiar de créditos de carbono vinculados à preservação florestal, enquanto governos locais poderão direcionar parte dos repasses a infraestruturas limpas e projetos de eficiência energética.
No cenário global, a consolidação do TFFF colocará o Brasil em posição estratégica: atrair capital climático, financiar a transição energética e reafirmar seu protagonismo na governança ambiental internacional.



