Relatório da MP 1304 redefine teto da CDE e cria marco para armazenamento de energia

Texto apresentado por Eduardo Braga altera base orçamentária da Conta de Desenvolvimento Energético para 2025 e inclui isenção tributária e leilões para sistemas de armazenamento

O relator da Medida Provisória 1304, senador Eduardo Braga (MDB-AM), apresentou nesta terça-feira (28) o novo texto da proposta que redefine pontos centrais da política energética brasileira, entre eles o teto da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e a regulamentação do armazenamento de energia.

O parecer foi discutido em sessão conjunta no Congresso, mas teve sua votação adiada para esta quarta-feira (29), após pedido de vista dos parlamentares, conforme antecipou o presidente da sessão, deputado Fernando Filho (União-PE).

A medida é considerada um dos pilares da agenda de modernização do setor elétrico e busca equilibrar a sustentabilidade financeira do sistema com o avanço tecnológico da transição energética.

- Advertisement -

Teto da CDE agora usa orçamento de 2025 como referência

Um dos principais ajustes do relatório está na manutenção do teto da CDE, com uma mudança relevante: a base de cálculo passará a ser o orçamento de 2025, e não mais o de 2026, como estava previsto anteriormente.

A CDE é um dos principais instrumentos de financiamento das políticas públicas do setor elétrico, responsável por custear subsídios tarifários, universalização do acesso à energia, incentivos às fontes renováveis e compensações regionais. O seu crescimento contínuo tem sido motivo de preocupação para o governo e o mercado, por representar pressão tarifária direta sobre os consumidores.

De acordo com o novo texto, o pagamento do encargo de ultrapassagem do teto passará a ser segregado por tipo de despesa, o que permitirá maior rastreabilidade dos recursos e transparência na destinação dos encargos. A medida busca evitar o subsídio cruzado entre programas distintos e promover previsibilidade orçamentária.

A expectativa é que o novo modelo traga estabilidade regulatória e controle de custos em um momento de forte pressão fiscal e de expansão de incentivos para a transição energética.

- Advertisement -

Armazenamento ganha marco legal com incentivos fiscais e leilões

O relatório da MP 1304 também inova ao instituir um marco regulatório para o armazenamento de energia, um tema que vinha sendo debatido há anos no Congresso e no setor elétrico.

O texto prevê isenção de PIS, Cofins e IPI para a compra e importação de equipamentos de armazenamento, medida semelhante ao modelo do programa ReDTA (Regime Especial de Desenvolvimento da Atividade de Transmissão de Energia Elétrica). O custo fiscal estimado é de R$ 1 bilhão para 2026, segundo cálculos apresentados pelo relator.

Além da desoneração tributária, a proposta define mecanismos estruturais para o segmento, incluindo:

  • Regulamentação da atividade de armazenamento pela ANEEL;
  • Inclusão dos sistemas de armazenamento no planejamento da expansão da rede básica;
  • Definição de regras de remuneração específicas para a atividade;
  • Previsão de leilões dedicados à contratação de sistemas de armazenamento.

Esses dispositivos devem impulsionar o desenvolvimento de projetos de baterias estacionárias, sistemas híbridos e soluções de armazenamento distribuído, especialmente para a integração de fontes intermitentes como eólica e solar.

Para analistas, a medida representa um passo decisivo para a modernização da matriz elétrica brasileira, que hoje carece de instrumentos regulatórios que permitam capturar o valor da flexibilidade e da estabilidade de frequência trazidos por sistemas de armazenamento.

Impactos esperados: eficiência, previsibilidade e inovação

A inclusão do armazenamento no escopo da política energética e a revisão do teto da CDE têm implicações diretas para a competitividade do mercado livre de energia, a modicidade tarifária e o planejamento de longo prazo do setor.

O controle de crescimento da CDE tende a evitar repasses tarifários excessivos e trazer maior previsibilidade aos custos do sistema elétrico, um ponto sensível para distribuidoras e consumidores livres. Por outro lado, o marco do armazenamento cria condições estruturais para o avanço de novas tecnologias, favorecendo o equilíbrio da rede e a expansão de renováveis sem comprometer a confiabilidade do sistema.

Especialistas apontam que o Brasil pode, com as novas regras, abrir caminho para a implantação de grandes baterias em usinas híbridas, sistemas de backup para data centers e até armazenamento distribuído em micro e minirredes, um movimento alinhado às tendências globais de digitalização e descarbonização.

Votação adiada e próximos passos no Congresso

Com o pedido de vista apresentado por parlamentares, a votação do relatório da MP 1304 foi adiada para esta quarta-feira (29). A expectativa é que, após a análise na Comissão Mista, a matéria siga para votação no plenário da Câmara dos Deputados, antes de ser encaminhada ao Senado Federal.

A tramitação da MP é acompanhada de perto por agentes do setor elétrico, associações e investidores institucionais, que enxergam na proposta um marco regulatório fundamental para a próxima década de expansão e modernização do sistema elétrico brasileiro.

A combinação entre controle orçamentário via CDE e incentivos à inovação tecnológica cria um arcabouço que pode redefinir a trajetória da transição energética no país.

Brasil se aproxima de um novo ciclo de modernização elétrica

Ao redefinir as bases da CDE e estabelecer mecanismos para o armazenamento, a MP 1304 coloca o Brasil mais próximo de uma estrutura de governança energética moderna e integrada, combinando responsabilidade fiscal, inovação tecnológica e sustentabilidade.

O texto reforça a tendência de planejamento integrado entre geração, transmissão, armazenamento e consumo, promovendo maior eficiência na expansão do sistema elétrico e no uso dos recursos públicos.

Para o setor, trata-se de uma oportunidade histórica: criar as bases para um mercado mais aberto, digital e limpo, capaz de sustentar a crescente demanda por energia elétrica e garantir segurança no processo de descarbonização da economia.

Destaques da Semana

Artigos

Últimas Notícias