Agência prevê fenômeno de intensidade muito forte e estrutura monitoramento de rios, reservatórios e barragens até março de 2027
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) apresentou um plano estratégico de preparação e resposta aos impactos hidrometeorológicos associados ao El Niño 2026/2027. A estratégia, com vigência até março do próximo ano, reúne medidas de monitoramento, operação de reservatórios e gestão de eventos críticos com foco na segurança hídrica, no abastecimento e em infraestruturas estratégicas, incluindo o setor elétrico.
As projeções utilizadas pela agência apontam 100% de probabilidade de persistência do fenômeno entre setembro e novembro de 2026. A expectativa é de manutenção das anomalias climáticas até o trimestre de março a maio de 2027, com probabilidade superior a 80%. Para o segundo semestre deste ano, a chance de o El Niño atingir intensidade classificada como “muito forte” supera 90%.
ANA amplia estrutura de monitoramento
O plano prevê a utilização de Salas de Crise em regiões atingidas por eventos hidrológicos críticos e de Salas de Acompanhamento em bacias submetidas a regras operativas específicas. A ANA também programou reuniões preventivas periódicas para avaliar, em tempo real, a evolução das condições hidrometeorológicas.
Atualmente, uma Sala de Crise está em operação na Região Sul, com foco em cheias, inundações e segurança de barragens. A estrutura permite acompanhar a evolução dos eventos e articular medidas de resposta entre os agentes envolvidos na gestão dos recursos hídricos.
A estratégia considera que os efeitos do El Niño não serão uniformes no território brasileiro. O prognóstico indica menor volume de precipitações e temperaturas mais elevadas no Norte e Nordeste, enquanto o Sul poderá registrar aumento de chuvas e vazões afluentes. Sudeste e Centro-Oeste, por sua vez, apresentam risco de ondas de calor prolongadas.
Região Sul concentra atenção sobre cheias
A combinação de maiores volumes de chuva e aumento das vazões no Sul desloca parte da preocupação para o gerenciamento de cheias e para a segurança das estruturas hidráulicas.
Nesse cenário, o monitoramento de barragens e dos níveis dos rios ganha importância para a operação dos sistemas de recursos hídricos e para a prevenção de impactos sobre áreas urbanas e infraestrutura. A Sala de Crise já instalada na região deverá concentrar o acompanhamento dos eventos considerados críticos.
Para o setor elétrico, a diferença regional do regime de chuvas também exige acompanhamento das vazões afluentes e das condições operativas dos reservatórios, especialmente diante da necessidade de conciliar geração hidrelétrica, controle de cheias e demais usos da água.
Baixas vazões preocupam na Amazônia
Na Região Norte, o foco da preparação está nos níveis dos rios da bacia amazônica. A ANA trabalha com a possibilidade de vazantes severas a partir de meados de outubro, cenário que pode afetar a navegação fluvial e o abastecimento de comunidades dependentes dos rios.
A redução dos níveis também representa um fator de atenção para a geração hidrelétrica na região. A disponibilidade de água para as usinas depende das condições hidrológicas das respectivas bacias, tornando o monitoramento das vazões relevante para o planejamento da operação.
O quadro exige, portanto, acompanhamento simultâneo de diferentes usos da água, em uma região na qual os rios desempenham papel central na logística, no abastecimento e na infraestrutura energética.
Nordeste pode exigir reforço no bombeamento
No Nordeste, o risco está associado à redução das chuvas e à menor recarga natural de reservatórios e açudes. A perspectiva aumenta a necessidade de planejamento antecipado para preservar o abastecimento humano e o atendimento às atividades produtivas.
Entre as medidas previstas está o planejamento do acionamento e da ampliação do bombeamento de água pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). A operação busca reforçar a segurança hídrica em áreas sujeitas a maior pressão sobre os mananciais.
A atuação preventiva da ANA será mantida ao longo do período de vigência do plano, permitindo ajustar as medidas conforme a evolução das condições climáticas e hidrológicas.
Impactos exigem gestão integrada da água
O cenário projetado para o El Niño 2026/2027 coloca diferentes regiões do país diante de riscos opostos: enquanto o Sul pode enfrentar excesso de água, Norte e Nordeste tendem a lidar com redução de precipitações e vazões, e o Centro-Oeste e o Sudeste permanecem sob atenção devido às temperaturas elevadas.
Para o setor elétrico, essa assimetria reforça a importância do acompanhamento hidrológico sobre reservatórios e vazões afluentes, especialmente em um sistema no qual a disponibilidade de água influencia a geração hidrelétrica. No saneamento, o comportamento dos mananciais determina condições de abastecimento e a necessidade de adoção de medidas emergenciais ou de reforço da oferta.
Com o plano, a ANA busca antecipar respostas aos eventos extremos e coordenar a gestão dos recursos hídricos durante a evolução do fenômeno até março de 2027.



