Levantamento da KPMG registra 46 operações entre janeiro e junho; transmissão ganha espaço nas estratégias de investimento, enquanto negócios em geração e bioenergia perdem ritmo
O mercado de fusões e aquisições (M&A) no setor elétrico brasileiro movimentou mais de R$ 20 bilhões no primeiro semestre de 2026, mesmo com a redução no número de operações. De acordo com levantamento da KPMG, foram formalizadas 46 transações entre janeiro e junho, queda de 30,3% em relação às 66 registradas no mesmo período de 2025.
O volume financeiro também recuou na comparação anual, de R$ 26 bilhões para mais de R$ 20 bilhões. A redução, contudo, veio acompanhada de uma mudança no perfil dos negócios, com maior participação de ativos de transmissão e de empresas de tecnologia voltadas ao setor energético.
Transmissão ganha espaço nas estratégias de investimento
A transmissão foi um dos segmentos que mais avançaram no período. O número de operações envolvendo linhas de transmissão dobrou em relação ao primeiro semestre de 2025, em um movimento associado à busca por ativos vinculados à segurança e à expansão da infraestrutura elétrica.
Na avaliação do sócio da KPMG, Paulo Guilherme Coimbra, a queda na quantidade total de transações não representa apenas uma retração do mercado, mas também uma alteração na composição dos investimentos: “O recuo das transações no setor de Energia precisa ser analisado para além do número absoluto de negócios. O primeiro semestre revela uma mudança importante na composição do mercado: enquanto a geração, a bioenergia e outros segmentos tradicionais perderam ritmo, as linhas de transmissão dobraram o número de operações e Energia Tech apresentou forte crescimento. A concentração de valor em poucos deals reforça a dinâmica de consolidação e reposicionamento estratégico dos players nacionais.”
O movimento ocorre em um ambiente no qual a expansão e a modernização da infraestrutura de transmissão ganham relevância para acomodar novos projetos de geração e atender às mudanças na configuração do sistema elétrico.
Operações domésticas predominam
Das 46 transações identificadas pela KPMG, 39 foram classificadas como domésticas e sete como operações cross-border, envolvendo companhias multinacionais e movimentação de ativos entre diferentes mercados.
O levantamento também aponta a participação de investidores financeiros. Fundos de private equity e venture capital responderam por nove aquisições no primeiro semestre, reforçando o interesse por negócios relacionados à infraestrutura e à transformação tecnológica do setor.
Além da transmissão, as chamadas Energy Techs ampliaram sua presença nas operações, refletindo a busca por soluções associadas à digitalização, eficiência operacional e novas tecnologias aplicadas ao mercado de energia.
Negócios bilionários concentram capital
A retração na quantidade de operações não impediu a realização de transações de grande porte. Entre os negócios destacados pela KPMG está a aquisição de 40% da FS Bioenergia pela Amaggi, em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 4,9 bilhões.
No segmento de transmissão, a Taesa adquiriu a Energisa Transmissão Tocantins e Goiás por R$ 1,5 bilhão. Já o Grupo Energía Bogotá comprou 50% da Verene Energia, em uma transação de R$ 2,8 bilhões.
As operações mostram que, embora o mercado tenha apresentado menor quantidade de negócios, ativos de escala e posições estratégicas continuam atraindo volumes relevantes de capital.
M&A acompanha transformação do setor elétrico
O comportamento observado no primeiro semestre indica uma reorganização das prioridades dos investidores. A redução das operações em segmentos tradicionais contrasta com a maior movimentação em infraestrutura de rede e tecnologia, áreas diretamente relacionadas às transformações em curso no setor elétrico.
A transmissão ganha relevância diante da necessidade de ampliar a capacidade de escoamento de energia e integrar novos empreendimentos ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Paralelamente, o avanço das Energy Techs amplia o universo de ativos considerados estratégicos para empresas e investidores financeiros.
Para o segundo semestre, o cenário descrito pela KPMG aponta para a continuidade da consolidação de ativos e empresas associadas à infraestrutura elétrica e à transição energética, com operações de maior porte tendo peso relevante na movimentação financeira do mercado de M&A.



