Agência eleva perspectivas globais pelo sexto ano consecutivo; pequenos reatores modulares podem responder por até 40% dos novos projetos na América Latina e 60% na América do Norte.
A capacidade global de geração nuclear pode atingir 1.284 GW até 2060, marca superior ao triplo dos 377,1 GW em operação ao final de 2025. A estimativa consta da 46ª edição do relatório Estimativas de Energia, Eletricidade e Energia Nuclear para o Período até 2060, apresentado durante a 70ª Conferência Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena.
Trata-se do sexto ano consecutivo em que a AIEA revisa para cima a perspectiva de expansão da energia nuclear. Pela primeira vez, a publicação estendeu o horizonte analítico, antes projetado até 2050, para o ano de 2060, estruturando dois cenários de crescimento.
No cenário de alta expansão, a capacidade instalada mundial alcança 1.045 GW em 2050 (superando os 992 GW do relatório anterior) e avança para 1.284 GW em 2060. No cenário de baixo crescimento, a frota global chega a 696 GW em 2060, praticamente dobrando o parque atual.
Demanda por eletricidade e descarbonização pressionam a fonte
A revisão reflete a aceleração da demanda mundial por eletricidade, o foco em segurança energética e a necessidade de descarbonizar matrizes industriais. Contudo, o relatório adverte para a pressão de mercado no curto prazo. Embora a geração nuclear tenha crescido 1,1% em 2025, somando 2.689,1 TWh, a produção global de energia elétrica avançou a um ritmo superior (2,7%), reduzindo a participação relativa da fonte nuclear de 8,7% em 2024 para 8,4% em 2025.
Ao avaliar as precondições para que o setor atinja as metas projetadas, o diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, reforça a urgência de aportes financeiros em novos ativos e na extensão do parque existente: “As projeções da AIEA mostram o papel crescente da energia nuclear no atendimento às necessidades cada vez maiores de eletricidade no mundo. Para concretizar esse potencial, o investimento em nova capacidade nuclear e na extensão da vida útil dos reatores será essencial.”
Ásia lidera expansão e SMRs ganham espaço estratégico
A maior fatia do crescimento global estará concentrada na Ásia Central e Oriental. No cenário mais otimista, a capacidade instalada da região saltará de 114 GW em 2025 para 407 GW em 2060, quadruplicando a geração de eletricidade de origem nuclear.
Paralelamente, os Pequenos Reatores Modulares (Small Modular Reactors – SMRs) ganharam relevância nas projeções. No cenário de alta, os SMRs responderão por 28% de toda a nova capacidade nuclear adicionada até 2060 (ante 24% na edição anterior). No cenário de baixa, a fatia salta de 5% para 23%.
A penetração dos SMRs variará conforme a região geográfica. Na América do Norte, até 60% da nova capacidade projetada pode ser composta por reatores modulares. Na América Latina e Caribe e no Sudeste Asiático, a participação estimada chega a 40% em ambos os cenários.
Envelhecimento da frota atual exige reposição e extensão de licenças
O avanço projetado pela AIEA enfrenta o gargalo do envelhecimento da frota atual. Dados do relatório apontam que dois em cada três reatores em operação no mundo possuem mais de 30 anos de atividade, e 45% já ultrapassaram quatro décadas.
No cenário de alta, um terço da capacidade existente em 2025 será desativado até 2060 por fim de vida útil. No cenário de baixa, as desativações podem alcançar dois terços do parque atual. O balanço recente reflete essa dinâmica: em 2025, sete reatores foram desligados (2,8 GW), três novas unidades entraram em operação (3,0 GW) e 12 reatores iniciaram construção, somando 14,3 GW em obras.
Para mitigar perdas de capacidade, governos e operadoras vêm ampliando programas de extensão de vida útil (LTO) e modernização tecnológica, ao mesmo tempo em que buscam aprimorar a competitividade dos reatores em mercados desregulamentados. A AIEA enfatiza que o atendimento à demanda futura dependerá da combinação entre usinas convencionais de grande porte, reatores modulares e a preservação dos ativos existentes.


