Por Eduardo Andrzejewski, Gerente de Infraestruturas Críticas da Tractebel Brasil, Chile e Canadá
A corrida brasileira por construir data centers bateu em um obstáculo que poucos anteciparam: a tomada. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Data Centers e do Caderno de Transmissão do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os pedidos de conexão de data centers à rede de transmissão somavam, em novembro de 2025, 26,2 gigawatts, volume que equivale a mais de um quarto de toda a demanda elétrica do país.
Para efeito de comparação, em 2025 a carga de data centers no Brasil era de 800 megawatts, segundo o estudo Novas perspectivas sobre os caminhos do Brasil para o crescimento industrial e descarbonização: Cenários, políticas e estratégias conjuntas impulsionadas pelo estimula à demanda, da Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O descompasso importa porque define se o Brasil vai capturar a onda global de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, projetada em torno de US$ 3 trilhões até o fim da década, ou se ficará restrito ao papel de plataforma secundária. O país também precisa de celeridade na aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), segundo o próprio Manifesto pela aprovação do Redata e pelo futuro digital do Brasil, assinado por 10 Frentes Parlamentares Mistas e mais de 30 entidades que representam o setor produtivo, o Brasil pode se estabelecer como um hub global de infraestrutura digital e receber até R$ 100 bilhões de investimentos nos próximos quatro anos.
Durante duas décadas, as decisões de localização de data centers no Brasil foram guiadas por disponibilidade de fibra óptica, custo de aluguel e proximidade de centros financeiros. Hoje, o fator determinante é outro: existe, no ponto pretendido, energia firme contratável e viabilidade técnica de conexão dentro do cronograma do investidor?
E essa mudança de paradigma tem acontecido porque a maioria dos novos projetos de data centers são impulsionados pela necessidade de infraestrutura para os sistemas de inteligência artificial. Treinar e operar modelos generativos exige densidades de potência que tornaram obsoleto o padrão elétrico e de climatização sobre o qual a indústria de data centers se construiu.
Demanda sem precedentes
Para se ter uma ideia do salto de potência exigido pela IA, um rack convencional operava entre 5 e 10 quilowatts há poucos anos; configurações baseadas em unidades como o NVIDIA GB200 NVL72, lançado em 2024, ultrapassam 120 quilowatts por rack e exigem resfriamento líquido como condição de projeto. O impacto agregado é proporcional: o consumo global de eletricidade por data centers cresceu 17% no ano passado, e deve alcançar 945 terawatts-hora até 2030, segundo o relatório Energy and AI. O investimento global no segmento chegou a US$ 580 bilhões em 2025, valor superior ao destinado à oferta global de petróleo no mesmo período.
E o Brasil, justamente, reúne vantagens estruturais raras para abrigar essa expansão. A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88,2% de participação renovável, de acordo com o Balanço Energético Nacional 2025, publicado pelo Ministério de Minas e Energia e pela EPE em junho passado.
Essa característica atende a uma exigência central dos contratantes de hiperescala, que precisam cumprir metas de descarbonização e, no Brasil, as contrapartidas do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center. Instituído pela Medida Provisória nº 1.318, de setembro de 2025, e reapresentado como Projeto de Lei 278/2026, o Redata exige uso de 100% de energia de fontes limpas ou renováveis e indicador de eficiência hídrica WUE máximo de 0,05 litro por quilowatt-hora, com verificação anual.
A dificuldade é que ter energia limpa no balanço anual não significa ter energia firme disponível no instante em que os servidores a demandam. Essa distinção, entre atendimento contratual e disponibilidade instantânea no ponto de conexão, define o novo perímetro de engenharia do setor.
O gargalo da conexão
Em dezembro de 2025, o Operador Nacional do Sistema Elétrico validou 43 pedidos de acesso à Rede Básica que somam 7,3 gigawatts. Ao menos 38 são de data centers e totalizam 7,04 gigawatts. O estado de São Paulo concentra 20 desses pedidos, com 3,9 gigawatts acumulados. Os corredores elétricos que servem às regiões de Tamboré, Vinhedo, Hortolândia e Campinas, que concentram as operações de data center no estado, operam próximos da saturação.
Foi esse cenário que levou o governo federal a publicar o Decreto nº 12.772, em 5 de dezembro de 2025, substituindo a antiga fila por ordem de chegada pelo modelo das Temporadas de Acesso. A nova Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão, criada pelo mesmo decreto, exige garantias financeiras, cronograma vinculante e, quando a demanda superar a oferta em determinada subestação, processo competitivo, com receitas revertidas à modicidade tarifária.
O primeiro ciclo da nova regra encerra-se em outubro deste ano, e deve funcionar como filtro definitivo entre projetos maduros e intenções especulativas. Do lado da oferta, o Leilão de Transmissão nº 01/2026 contratou R$ 3,3 bilhões em investimentos, 798 quilômetros de novas linhas e 2.150 MVA (megavolt-ampère) em capacidade de transformação, com deságio de 50,69% sobre a receita anual permitida.
Realizado em 27 de março na B3, o certame projeta economia de R$ 7,6 bilhões ao consumidor ao longo dos contratos, conforme nota da Agência Nacional de Energia Elétrica divulgada após o pregão. Um dos lotes arrematados prevê compensadores síncronos nas subestações Ceará Mirim II, Quixadá, Morada Nova e Açu III — exatamente o corredor de escoamento entre Nordeste e Sudeste por onde passa a energia eólica que abasteceria parte dos futuros empreendimentos digitais. No mesmo sentido atua o Plano de Ampliações e Reforços 2025, apresentado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico em 16 de dezembro passado, que estima R$ 28,1 bilhões em obras de transmissão até 2030, incluindo uma nova subestação 500/345 kV em Santana concebida para atender clientes de grande porte.
Mesmo com esse esforço, o descompasso temporal segue incontornável. Um data center moderno é construído em 18 a 24 meses. Uma linha de transmissão ou uma subestação de grande porte leva de 42 a 60 meses entre licitação e energização. A equação só fecha quando o empreendedor assume parte da infraestrutura elétrica como escopo próprio, e isso explica a multiplicação de subestações dedicadas.
Engenharia como caminho crítico
A engenharia interna dos empreendimentos também tem passado por uma redefinição estrutural. Níveis de tensão que eram exceção, como 230 kV e 500 kV, tornaram-se padrão para projetos acima de 200 megawatts, conforme exigências do Submódulo 2.3 dos Procedimentos de Rede do Operador Nacional do Sistema Elétrico.
Estudos de qualidade de energia, norteados pelo Módulo 8 dos Procedimentos de Distribuição, aprovado pela Resolução Normativa ANEEL nº 956/2021, e pela norma internacional IEEE 519-2022, ganharam relevância pela combinação atípica de cargas presentes em um data center de IA: retificadores de UPS, geradores síncronos e GPUs em treinamento, que produzem harmônicos, transientes rápidos e flicker (flutuação de tensões) em níveis raros na indústria tradicional.
A gestão térmica (climatização) é provavelmente a mudança de maior impacto na concepção de projeto. O Indicador de Eficiência Energética PUE médio global permanece em 1,54 pelo sexto ano consecutivo, conforme o Uptime Institute Global Data Center Survey 2025, publicado em julho de 2025. Alcançar PUE próximo de 1,2 em clima tropical brasileiro exige resfriamento líquido direto nos chips ou imersão, por meio de circuitos fechados de água e/ou sistemas freecooling (ventilação com ar externo com pouca utilização de sistemas de refrigeração).
O ciclo de 2026 a 2030 vai separar os investidores que trataram energia, conexão e engenharia como eixos integrados desde o anteprojeto daqueles que os abordaram em sequência linear. A pressão regulatória, a janela de cinco anos do Redata, o primeiro leilão dedicado de sistemas de armazenamento em baterias previsto pelo Ministério de Minas e Energia para 2026, e a reorganização da política de acesso à transmissão reduziram o erro aceitável no planejamento inicial.
Os novos data centers exigem uma abordagem integrada entre energia, conexão e engenharia desde as etapas iniciais de concepção. Em um cenário marcado por alta densidade computacional, restrições de infraestrutura elétrica e exigências regulatórias crescentes, a competitividade do Brasil dependerá da capacidade de estruturar projetos tecnicamente robustos, energeticamente eficientes e aderentes às novas demandas da inteligência artificial. É essa convergência que poderá posicionar o país como destino estratégico para investimentos globais em infraestrutura digital e fortalecer sua soberania tecnológica nas próximas décadas.



