Carros elétricos avançam sobre mercado global e devem atingir 30% das vendas em 2026, projeta IEA

Relatório da Agência Internacional de Energia aponta comercialização recorde de 23 milhões de veículos elétricos, impulsionada por volatilidade do petróleo, queda no custo das baterias e expansão da infraestrutura de eletrificação

A eletrificação da mobilidade global entrou definitivamente em uma nova fase de escala industrial. O avanço dos veículos elétricos deixou de representar apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar posição estratégica na segurança energética, na política industrial e na reorganização das cadeias globais de suprimento. Dados do novo relatório Global EV Outlook, divulgado pela Agência Internacional de Energia, mostram que as vendas globais de carros elétricos devem alcançar 23 milhões de unidades em 2026, o equivalente a aproximadamente 30% de todo o mercado automotivo mundial.

A projeção consolida uma trajetória de crescimento contínuo da eletromobilidade, sustentada pela combinação entre ganho de competitividade tecnológica, redução estrutural dos custos das baterias e pressão geopolítica sobre o mercado internacional de petróleo. Em 2025, as vendas globais já haviam ultrapassado a marca de 20 milhões de unidades, representando cerca de 25% de todos os veículos leves comercializados no planeta.

O movimento reforça uma mudança estrutural no perfil de investimentos da indústria automotiva e amplia os impactos diretos sobre o setor elétrico, especialmente em infraestrutura de recarga, expansão da demanda energética e desenvolvimento de sistemas de armazenamento.

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Crise do petróleo acelera migração para veículos elétricos

O relatório da IEA associa o crescimento da mobilidade elétrica ao atual cenário de volatilidade geopolítica no mercado de combustíveis fósseis. As tensões no Oriente Médio, somadas às restrições globais de oferta de petróleo, aumentaram a pressão sobre os preços internacionais do barril e reacenderam discussões sobre independência energética em diversas economias.

Nesse ambiente, a previsibilidade de custos proporcionada pela eletrificação passou a ser tratada como um diferencial econômico relevante para consumidores, governos e empresas de logística.

Ao avaliar os efeitos da crise energética sobre o mercado automotivo global, o diretor-executivo da IEA, Fatih Birol, destacou que os veículos elétricos já exercem influência direta sobre a dinâmica energética internacional: “As vendas de carros elétricos bateram recordes em quase 100 países no ano passado. A crescente popularidade dos veículos elétricos representou uma grande mudança para os mercados automobilísticos e para o sistema energético como um todo – e está proporcionando algum alívio agora, em meio ao maior choque de oferta de petróleo da história. Olhando para o futuro, as quedas que vimos nos preços das baterias e as potenciais respostas políticas à atual crise energética global devem impulsionar ainda mais os mercados de veículos elétricos.”

A avaliação da agência indica que a expansão da frota elétrica tende a reduzir gradualmente a sensibilidade das economias à volatilidade do petróleo, especialmente em segmentos urbanos e de transporte leve.

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Queda no custo das baterias redefine competitividade

Outro vetor central para o avanço do setor está na rápida redução dos custos de produção das baterias de íons de lítio. A ampliação da escala fabril, especialmente na Ásia, vem diminuindo significativamente o preço médio dos veículos elétricos em diferentes mercados.

A IEA avalia que o ganho de competitividade já permite que diversos modelos atinjam paridade econômica com veículos a combustão em determinados segmentos, sobretudo quando considerados custos operacionais e manutenção no ciclo de vida do ativo.

As projeções de longo prazo do relatório mostram que a frota global de veículos elétricos pode atingir 510 milhões de unidades até 2035, frente aos cerca de 80 milhões atualmente em circulação. O cenário considera inclusive hipóteses conservadoras, sem expansão significativa de novos subsídios governamentais.

América Latina acelera crescimento e ganha relevância estratégica

Embora China e Estados Unidos continuem liderando o mercado global, a expansão recente vem ganhando tração relevante em regiões emergentes. A América Latina aparece entre os destaques do relatório, com crescimento anual de aproximadamente 75% nas vendas de veículos elétricos.

O avanço regional ocorre em paralelo à ampliação de políticas fiscais de incentivo, abertura de mercado para fabricantes asiáticos e expansão da infraestrutura de carregamento. Na Europa, as vendas cresceram cerca de 30% no comparativo anual, enquanto a região Ásia-Pacífico, excluindo a China, avançou cerca de 80%. Ao todo, aproximadamente 90 países registraram crescimento nas vendas de elétricos no primeiro trimestre do ano.

A dinâmica internacional também evidencia uma mudança importante no perfil competitivo do setor automotivo global. Países que antes atuavam apenas como importadores começam a estruturar cadeias locais de montagem, componentes e infraestrutura associada à mobilidade elétrica.

China amplia hegemonia sobre cadeia global de baterias

O relatório da IEA reforça ainda o protagonismo da China no domínio tecnológico e industrial da eletromobilidade. O país respondeu por quase 75% de toda a produção global de veículos elétricos em 2025 e consolidou posição dominante nas exportações internacionais do segmento.

As exportações chinesas de veículos elétricos alcançaram 2,5 milhões de unidades no último ano, dobrando em relação ao período anterior. Em mercados fora dos eixos europeu e norte-americano, mais da metade dos modelos vendidos já são importados diretamente da indústria chinesa.

Além da fabricação dos veículos, a China mantém controle estratégico sobre etapas críticas da cadeia produtiva, incluindo refino de minerais críticos e produção de células de bateria. O país concentra mais de 80% da produção mundial de células utilizadas na indústria automotiva elétrica. Essa concentração industrial amplia debates globais sobre segurança de suprimento, diversificação geográfica da manufatura e dependência tecnológica.

Caminhões elétricos ampliam desafios para o setor elétrico

O avanço da eletrificação não está restrito aos veículos leves. O segmento de transporte pesado também começou a acelerar em ritmo significativo, impulsionado principalmente pela busca de redução de emissões no transporte de cargas. As vendas globais de caminhões elétricos dobraram de volume e já representam aproximadamente 10% do mercado mundial de pesados, segundo a IEA.

Esse movimento cria novos desafios para operadores de rede, distribuidoras de energia e planejadores do setor elétrico. A expansão da demanda por recarga de alta potência exigirá reforços estruturais em redes urbanas, corredores logísticos e sistemas de armazenamento energético.

Ao mesmo tempo, o crescimento da mobilidade elétrica tende a ampliar oportunidades para integração entre geração renovável, baterias estacionárias e sistemas inteligentes de gerenciamento de carga, consolidando a eletrificação dos transportes como um dos principais vetores da transição energética global.

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