Escalada entre 2024 e 2026 pressiona consumidores livres, expõe falhas na formação de preços e levanta riscos para a expansão do mercado a partir de 2027
A trajetória recente dos preços no mercado livre de energia no Brasil impõe um novo desafio à agenda de modernização do setor elétrico. Em um ambiente que já responde por 42% do consumo nacional, a elevação expressiva dos contratos bilaterais e do preço de curto prazo reacende o debate sobre segurança regulatória, expansão da oferta e sustentabilidade da abertura do mercado para consumidores de menor porte.
Levantamento da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia aponta que, entre janeiro de 2024 e março de 2026, os preços de energia no Ambiente de Contratação Livre (ACL) registraram aumentos relevantes tanto no longo quanto no curto prazo, descolando-se inclusive da inflação oficial do período.
Alta generalizada pressiona contratos e reduz previsibilidade
Os contratos de energia convencional de longo prazo, com entrega para os quatro anos subsequentes, acumularam alta de 59% no período, saindo de R$ 147/MWh em 2024 para R$ 233/MWh em 2026. O movimento indica deterioração das condições de contratação estruturada, tradicionalmente utilizadas como instrumento de previsibilidade para consumidores industriais e comerciais.
No curto prazo, a escalada é ainda mais intensa. Os contratos trimestrais, referência para negociações com horizonte de três meses, avançaram 121%, passando de R$ 143/MWh para R$ 317/MWh no mesmo intervalo.
Para efeito comparativo, o IPCA registrou variação de apenas 5% no período, evidenciando o descolamento entre os custos de energia e a inflação geral da economia.
PLD e operação do sistema explicam dinâmica de preços
Diferentemente do ambiente regulado, onde as tarifas são definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica, os preços no mercado livre são resultado direto das condições de mercado, com forte influência dos modelos computacionais que simulam a operação do sistema elétrico.
Nesse contexto, o Preço de Liquidação das Diferenças, referência do mercado de curto prazo, também apresentou elevação significativa, com alta de 84% no período, passando de R$ 129/MWh para R$ 236/MWh.
A formação do PLD reflete não apenas fundamentos hidrológicos e oferta de geração, mas também decisões operativas do Operador Nacional do Sistema Elétrico e diretrizes estratégicas do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, o que adiciona complexidade e volatilidade ao ambiente de preços.
Abertura total do mercado entra no radar de risco
A escalada ocorre em um momento sensível para o setor: a preparação para a abertura total do mercado livre, prevista pela Lei 15.269/2025, que permitirá a migração de consumidores residenciais e de pequeno porte a partir de 2027 e 2028.
O presidente da Abraceel, Rodrigo Ferreira, destaca a necessidade de atenção ao comportamento dos preços diante da ampliação do mercado: “Com o mercado livre atendendo a 42% da demanda de energia no Brasil e com previsão de atender a todos os consumidores, incluindo residenciais, a partir da lei 15.269 aprovada no final de 2025, é preciso o governo e a sociedade terem um olhar atento para o preço da energia sob pena de inviabilizar o setor produtivo do Brasil e a política pública que se pretende alcançar com a abertura de mercado para todos os consumidores, com impactos diretos na inflação”.
A preocupação central é que a volatilidade e os preços elevados comprometam a atratividade do ACL justamente no momento em que ele se torna política pública de larga escala.
Escassez de oferta e distorções ampliam volatilidade
Além da dinâmica do PLD, o setor identifica um conjunto de fatores estruturais que têm pressionado os preços. Entre eles, a redução da oferta de energia nova no mercado livre, associada a incertezas regulatórias e inconsistências nos modelos de formação de preços.
O cenário é agravado por efeitos como o GSF e o curtailment (corte de geração, especialmente em fontes renováveis), além de estratégias comerciais de geradores que optam por liquidar energia no mercado de curto prazo em vez de firmar contratos de longo prazo.
Esse desequilíbrio regulatório cria uma assimetria relevante: enquanto consumidores são obrigados a contratar 100% de sua demanda, geradores não possuem obrigação equivalente de comercialização, o que pode restringir a liquidez e elevar preços.
Risco de preços “impagáveis” e pressão regulatória
A exposição dos consumidores livres ao atual patamar de preços é um dos principais pontos de atenção. Uma parcela relevante dos contratos em vigor possui vencimento entre dois e seis anos, o que exigirá renovação em um ambiente mais caro e volátil.
Ao analisar esse cenário, o Ferreira faz um alerta direto sobre os riscos de desequilíbrios no mercado: “Cerca de um terço dos contratos de consumidores têm prazo de seis a dois anos e com esse patamar de preço, associado à crise de oferta e escassez de energia nova, esses consumidores livres ficarão expostos a preços impagáveis. É preciso um olhar atento, inclusive da Agência Nacional de Energia Elétrica, para evitarmos artificialidades na formação do preço da energia, como poder de mercado e sobrecustos com a operação do sistema”.
A sinalização reforça a expectativa de maior protagonismo da Agência Nacional de Energia Elétrica na supervisão do mercado, especialmente em temas como poder de mercado, transparência e governança dos modelos de precificação.
Desafio estrutural para o setor elétrico
O avanço dos preços no mercado livre sintetiza um desafio estrutural do setor elétrico brasileiro: conciliar abertura de mercado, segurança de suprimento e modicidade tarifária em um ambiente de crescente complexidade operacional.
Sem ajustes nos sinais econômicos e regulatórios, o risco é de que o ACL perca competitividade justamente no momento em que se torna o principal vetor de modernização do setor.
Para agentes do mercado, a agenda prioritária passa por aperfeiçoamentos na formação de preços, estímulos à expansão da oferta e redução de assimetrias contratuais, elementos fundamentais para sustentar o crescimento do mercado livre nos próximos anos.



