Descompasso geográfico entre oferta e demanda desafia logística do hidrogênio verde no Brasil

Estudo da USP indica que potencial de produção se concentra no Nordeste, enquanto consumo industrial está no Sudeste.

O desenvolvimento do mercado de hidrogênio verde (H2V) no Brasil enfrenta um desafio estrutural de caráter geográfico. Um mapeamento publicado no periódico internacional Journal of Hydrogen Energy revela que, embora a capacidade teórica de produção do vetor energético esteja fortemente concentrada na Região Nordeste, impulsionada pela expansão dos parques eólicos e solares, o principal polo potencial de consumo final está localizado no Sudeste do país.

A pesquisa foi conduzida pelos pesquisadores Celso da Silveira Cachola e Drielli Peyerl, vinculados ao Research Center for Greenhouse Gas Innovation da Universidade de São Paulo (RCGI-USP). O diagnóstico aponta que as assimetrias regionais entre a geração do insumo e o mercado consumidor exigirão investimentos robustos em infraestrutura de transporte e arranjos logísticos para viabilizar a descarbonização da indústria de alta emissão.

Logística e vetores intermediários abrem frentes de investimento

A desconexão espacial entre a oferta e a demanda decorre do perfil do parque fabril brasileiro. O uso mais eficiente e economicamente viável do hidrogênio verde ocorre em setores de difícil abatimento de emissões (hard-to-abate), que carecem de alternativas comerciais imediatas de eletrificação direta, tais como as indústrias siderúrgica (aço), de refino de petróleo e complexos químicos de grande porte. No arranjo geoeconômico nacional, essas estruturas industriais estão historicamente concentradas na Região Sudeste.

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A superação desse gargalo logístico, contudo, sinaliza uma janela de oportunidades para o mercado de capitais e de infraestrutura. Agentes do setor avaliam o desenvolvimento de malhas dedicadas de dutos de transporte de alta pressão ou, alternativamente, o emprego de soluções químicas intermediárias. A principal rota considerada envolve a síntese do hidrogênio em amônia verde (NH₃), composto que apresenta maior densidade energética, facilidade de liquefação e estabilidade para o transporte por cabotagem ou ferrovias até as plantas industriais do Sudeste.

Para que o hidrogênio atinja a classificação regulatória de “verde”, o processo de quebra da molécula por eletrólise deve ser alimentado exclusivamente por fontes limpas e com certificados de origem rastreáveis. O aproveitamento desse potencial e a integração das cadeias de valor serão os eixos centrais do Hyvolution Brasil 2026, plataforma global do setor que ocorre em junho, em São Paulo, sob a organização da GL events Exhibitions.

Consolidação de hubs industriais acelera transição de contratos

O debate em torno da infraestrutura ganha tração em um momento de amadurecimento regulatório, após a sanção do marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono no país. O avanço de memorandos de entendimento para fases de engenharia detalhada e projetos conceituais em complexos industriais e portuários consolidados, como Pecém (CE), Suape (PE) e Porto do Açu (RJ), além de novos polos em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte, sinaliza que o mercado nacional ingressou em uma etapa de viabilidade comercial.

A relevância do atual estágio de maturação dos projetos estruturados no território nacional é enfatizada pela presidente da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), Fernanda Delgado: “O setor de hidrogênio no Brasil evoluiu rapidamente nos últimos anos. Saímos de uma fase de expectativas para um cenário com projetos estruturados, investimentos aprovados e iniciativas em desenvolvimento em diversas regiões do país. Hoje, vemos as intenções se transformando em realidade de negócios.”

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Plataforma internacional projeta atração de capital global para o país

A escolha de São Paulo para sediar a edição latino-americana do evento reflete a importância estratégica do país no fluxo internacional de commodities ambientais. O encontro prevê reunir mais de 6 mil profissionais do setor, 110 marcas expositoras e comitês de 20 países para discutir rotas tecnológicas, financiamento de projetos (project finance) e mercados de exportação para combustíveis sintéticos derivados (Power-to-X).

O alinhamento do Brasil com as diretrizes globais de descarbonização e o ambiente para atração de investidores estrangeiros são analisados pelo diretor do eixo de sustentabilidade da GL events Exhibitions da França, Pierre Buchou: “O Brasil reúne hoje uma combinação única de fatores que o posicionam no centro da nova economia do hidrogênio: abundância de energias renováveis, ambiente regulatório em evolução e um pipeline robusto de projetos. Trazer o Hyvolution para o Brasil é uma resposta direta a esse movimento global e à crescente demanda por conexões estratégicas entre investidores, indústria e governos.”

As discussões técnicas de alto nível estarão concentradas na arena HySummit, espaço dedicado a avaliar as barreiras tarifárias, o custo nivelado do hidrogênio (LCOH) no mercado interno e os modelos de regulação necessários para conferir previsibilidade e segurança jurídica aos contratos de longo prazo.

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