O impasse da transição energética: 78% dos brasileiros rejeitam pagar mais por energia limpa

Pesquisa Ipsos-Ipec revela que o apoio massivo de 93% às renováveis esbarra na insatisfação com as tarifas atuais e na baixa qualidade do fornecimento de energia.

A transição energética no Brasil vive um paradoxo de percepção. Embora a sociedade reconheça quase de forma unânime a importância de uma matriz mais limpa, o consumidor final não está disposto a ver esse avanço refletido em sua fatura mensal. Um levantamento inédito da Ipsos-Ipec, realizado com 2.000 entrevistados em 129 municípios, aponta que 78% dos brasileiros estão pouco ou nada dispostos a pagar mais caro na conta de luz para garantir a transição; apenas 19% aceitariam arcar com custos adicionais.

O cenário revela um desalinhamento crítico entre a agenda climática e a realidade econômica. O apoio à geração renovável é consolidado, 93% consideram o tema importante ou muito importante, mas o entusiasmo arrefece diante da percepção de que a tarifa atual já é elevada para o serviço entregue.

Recortes sociais e desigualdade na percepção

A relevância atribuída à energia limpa apresenta variações significativas conforme o perfil socioeconômico. Entre os brasileiros com renda familiar superior a cinco salários mínimos, 71% classificam a transição como “muito importante”. Contudo, esse índice sofre uma queda de 26 pontos percentuais entre aqueles com renda de até um salário mínimo, fixando-se em 45%.

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A escolaridade também atua como um divisor de águas: 68% dos entrevistados com ensino superior dão alta relevância ao tema, contra 44% entre os que possuem ensino fundamental. No recorte regional, o Sudeste lidera o engajamento com 65%, enquanto no Sul e no Nordeste os percentuais de “muito importante” recuam para 51% e 48%, respectivamente.

Instabilidade do sistema alimenta resistência tarifária

A indisposição para custear a modernização da matriz está diretamente ligada à experiência negativa com o fornecimento. Segundo a pesquisa, 71% dos brasileiros consideram o valor da conta de luz alto ou muito alto frente à qualidade do serviço. Nas regiões metropolitanas e periferias, esse descontentamento atinge 77%.

A crise de confiança é acentuada pela frequência de interrupções. Nos últimos três meses, 73% dos lares brasileiros registraram quedas de energia. O impacto dessa instabilidade na percepção de preço é direto: entre os que enfrentaram mais de quatro quedas no período, o percentual daqueles que acham a conta “muito alta” dispara para 46%, 16 pontos percentuais acima de quem não sofreu interrupções.

O gargalo do restabelecimento e o dilema político

Além da frequência, o tempo de espera para o retorno da luz é um ponto de atrito. Para 53% dos afetados, o serviço demora mais de uma hora para ser restabelecido, com 10% dos consumidores enfrentando esperas superiores a cinco horas. No Sudeste, o índice de restabelecimento que ultrapassa uma hora chega a 58%.

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“A pesquisa revela um dilema central para o futuro energético do Brasil: há um consenso sobre a importância e necessidade de uma matriz mais limpa, mas essa convicção esbarra na realidade econômica da população. O consumidor, que já sente o peso da conta de luz no orçamento e sofre com a instabilidade do serviço, não se mostra disposto a arcar com custos adicionais, mesmo que seja por uma causa nobre. Isso sinaliza que qualquer política de transição energética precisa vir acompanhada de garantias de que não haverá um repasse de custos direto e pesado para o cidadão comum”, destaca Marcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec.

O levantamento reforça que, para o setor elétrico, o desafio da década não será apenas tecnológico, mas regulatório e social. Qualquer avanço na expansão de fontes limpas precisará ser acompanhado de ganhos de eficiência e melhoria nos indicadores de continuidade (DEC/FEC) para que o consumidor perceba valor na tarifa paga.

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