Abinee classifica sobretaxa de 25% como injustificável e pede inclusão de equipamentos do setor elétrico na lista de exceções da investigação comercial norte-americana
A decisão dos Estados Unidos de impor novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, após a conclusão da investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, elevou a preocupação da indústria eletroeletrônica nacional e abriu um novo capítulo de incertezas para as exportações brasileiras de equipamentos elétricos e de infraestrutura energética.
A avaliação é da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que considera a medida incompatível com a dinâmica comercial historicamente construída entre os dois países e alerta para os potenciais impactos sobre segmentos estratégicos da cadeia de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.
O mercado norte-americano figura entre os principais destinos das exportações brasileiras do setor eletroeletrônico e possui relevância especial para fabricantes de transformadores, motores, geradores e equipamentos industriais, produtos que podem perder competitividade diante da nova barreira tarifária.
Setor elétrico aparece entre os mais expostos às novas tarifas
Embora as medidas atinjam diferentes segmentos industriais, a Abinee identifica o setor elétrico como um dos mais vulneráveis ao aumento dos custos de acesso ao mercado americano.
Equipamentos utilizados em projetos de geração, transmissão e distribuição de energia estão entre os principais itens exportados pelo Brasil aos Estados Unidos. O encarecimento desses produtos tende a reduzir margens das empresas exportadoras, afetar contratos em andamento e comprometer a competitividade da indústria nacional frente a concorrentes internacionais.
O presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato, destacou a preocupação da entidade com os desdobramentos da decisão norte-americana sobre um dos principais mercados consumidores do setor brasileiro: “O momento é de muita preocupação, pois o mercado norte-americano é importantíssimo para o nosso setor.”
A entidade argumenta que não existem elementos que justifiquem a adoção das tarifas adicionais, especialmente porque o Brasil não pratica políticas discriminatórias ou restritivas em relação aos produtos norte-americanos.
Investigação da Seção 301 motivou reação da indústria brasileira
A investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos teve início em junho de 2025 e foi baseada na Seção 301 do Trade Act, instrumento utilizado pelo governo norte-americano para apurar práticas consideradas desleais ou prejudiciais ao comércio exterior dos EUA.
Desde a abertura do processo, a Abinee participou das discussões institucionais e encaminhou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) uma manifestação em apoio ao posicionamento apresentado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), contestando os fundamentos utilizados na investigação.
Para a associação, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é marcada por elevada integração industrial e pelo cumprimento das regras multilaterais de comércio, não havendo evidências de práticas incompatíveis com os compromissos internacionais assumidos pelo país.
Outro argumento apresentado pela entidade é a forte presença de empresas de capital norte-americano instaladas no Brasil e atuando de forma competitiva em diversos segmentos da economia, incluindo infraestrutura energética, automação industrial e equipamentos elétricos.
Balança comercial favorece os Estados Unidos no setor eletroeletrônico
A Abinee também chama atenção para a própria estrutura do comércio bilateral no segmento eletroeletrônico, que historicamente apresenta superávit em favor dos Estados Unidos.
Em 2025, o intercâmbio comercial entre os dois países no setor registrou déficit de US$ 2,7 bilhões para o Brasil. As exportações brasileiras somaram US$ 2,1 bilhões, enquanto as importações provenientes do mercado norte-americano alcançaram US$ 4,8 bilhões.
Na avaliação da entidade, esses números reforçam a ausência de fundamentos econômicos para a adoção de medidas restritivas adicionais contra produtos brasileiros, sobretudo em setores onde o fluxo comercial já beneficia a indústria dos Estados Unidos.
Abinee pede exclusão de equipamentos elétricos das tarifas
Diante do potencial impacto para fabricantes nacionais, a associação intensificou a interlocução junto ao governo brasileiro para tentar preservar a competitividade das exportações do segmento elétrico.
Recentemente, a entidade encaminhou ofícios ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) solicitando apoio para a inclusão dos produtos ligados à geração, transmissão e distribuição de energia na lista de exceções às tarifas decorrentes da Seção 301.
A estratégia busca proteger especialmente fabricantes de transformadores, motores, geradores e componentes destinados a equipamentos industriais, considerados essenciais para a expansão da infraestrutura energética e para os investimentos em modernização das redes elétricas.
Diplomacia é vista como principal caminho para solução
Apesar do aumento das tensões comerciais, a Abinee defende que a saída para o impasse passa pela preservação do diálogo institucional entre os dois países.
A entidade destaca que Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação diplomática e comercial de aproximadamente dois séculos, marcada por cooperação econômica, intercâmbio tecnológico e investimentos recíprocos em setores estratégicos. Na visão da associação, a previsibilidade regulatória e a estabilidade das relações comerciais são elementos fundamentais para garantir segurança aos investimentos e preservar a competitividade das cadeias industriais que dependem do fluxo bilateral de bens e tecnologias.
Em um momento de forte expansão dos investimentos em infraestrutura elétrica, redes inteligentes, eletrificação industrial e transição energética, a manutenção do acesso ao mercado norte-americano surge como um componente relevante para a estratégia de internacionalização da indústria brasileira de equipamentos elétricos.


