Resposta da Demanda ganha escala no Brasil e terceiro leilão do ONS contrata recorde de 344 MW

Certame registrou deságio médio de 49% e ampliou em 50% o volume contratado em relação à rodada anterior; indústria metalúrgica respondeu por 86% da potência negociada

A estratégia de utilizar consumidores como recurso operacional para reforçar a confiabilidade do sistema elétrico brasileiro avançou mais um passo em direção à consolidação regulatória. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) contratou 344 MW no terceiro leilão de Resposta da Demanda na modalidade Disponibilidade, realizado nesta quarta-feira (15), estabelecendo um novo recorde para o mecanismo e ampliando em cerca de 50% o volume negociado na rodada anterior.

Os resultados reforçam o crescimento da participação do lado da carga na gestão da confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN), em um contexto de expansão acelerada das fontes renováveis intermitentes e aumento da necessidade de recursos capazes de fornecer flexibilidade operativa ao sistema.

Ao todo, 12 propostas foram selecionadas pelo operador, em um processo marcado por elevada competição entre consumidores industriais do mercado livre de energia. O certame apresentou deságio médio de 49,23% em relação ao preço-teto estabelecido para a contratação, enquanto a maior redução ofertada alcançou 57,5%.

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O desempenho econômico reforça a percepção de que a Resposta da Demanda pode se consolidar como alternativa mais eficiente e menos onerosa do que o acionamento de usinas termelétricas destinadas ao atendimento de picos de carga e situações de escassez de potência.

Flexibilidade do consumo ganha protagonismo operacional

A Resposta da Demanda permite que grandes consumidores reduzam temporariamente seu consumo em momentos de maior estresse do sistema, recebendo uma remuneração pela disponibilidade dessa flexibilidade operacional. Na prática, o mecanismo transforma a redução voluntária da carga em um recurso equivalente à oferta adicional de geração, contribuindo para o equilíbrio entre oferta e demanda sem necessidade de expansão imediata do parque gerador convencional.

A ampliação do volume contratado pelo ONS sinaliza um amadurecimento tanto da regulamentação quanto da capacidade operacional dos agentes consumidores em participar desse tipo de programa. Além de reduzir custos sistêmicos, a ferramenta vem sendo apontada por especialistas como um dos pilares para a integração em larga escala da geração solar e eólica, especialmente diante dos desafios associados à variabilidade dessas fontes.

Sudeste lidera participação e Nordeste amplia relevância

A distribuição regional das cargas contratadas refletiu a concentração da atividade industrial brasileira e a localização dos grandes consumidores eletrointensivos.

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As regiões Sudeste e Centro-Oeste responderam por 61% da potência negociada, consolidando-se como o principal polo de oferta de flexibilidade ao sistema elétrico nacional.

O Nordeste participou com 35% do volume contratado, percentual considerado relevante diante da crescente presença de consumidores livres e da expansão da atividade industrial associada às cadeias de mineração, siderurgia e produção de hidrogênio de baixo carbono na região. Já a Região Sul concentrou os 4% restantes da capacidade negociada.

Metalurgia domina o mercado de flexibilidade

O setor metalúrgico voltou a ocupar posição central no mecanismo de Resposta da Demanda, sendo responsável por 86% da potência contratada pelo operador.

A predominância do segmento está associada à elevada capacidade de modulação de processos industriais eletrointensivos, permitindo interrupções temporárias ou redução programada do consumo sem comprometer significativamente a produção. Os demais 14% ficaram distribuídos entre empresas dos segmentos químico, papel e celulose, madeira e serviços.

A tendência é que a diversificação setorial avance nos próximos anos, especialmente com a disseminação de tecnologias de automação industrial, gestão energética e armazenamento de energia.

Mecanismo se fortalece como alternativa às térmicas

Os contratos decorrentes do leilão serão formalizados até 31 de julho e permanecerão vigentes até dezembro de 2026. Durante esse período, os agentes selecionados receberão uma receita fixa mensal pela disponibilidade de suas cargas para modulação. Em contrapartida, deverão reduzir o consumo sempre que acionados pelo operador, limitado a dois eventos mensais.

O avanço da Resposta da Demanda ocorre em um momento em que o setor elétrico discute alternativas para ampliar a segurança de suprimento sem pressionar ainda mais os custos dos consumidores com novas contratações compulsórias de geração térmica.

Nesse contexto, a participação ativa do lado da carga passa a ser vista não apenas como uma ferramenta operacional, mas como um elemento estrutural da modernização do mercado elétrico brasileiro e da construção de um sistema mais flexível, eficiente e preparado para uma matriz cada vez mais renovável.

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