Defasagem do diesel dispara e acende alerta para risco de desabastecimento no Brasil

Abicom aponta distorção de até R$ 2,68 por litro frente ao mercado internacional e queda de 60% nas importações pressiona regiões mais dependentes

O mercado brasileiro de combustíveis entra em zona crítica em 2026 diante da crescente defasagem nos preços do diesel praticados pela Petrobras. De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a diferença entre os valores internos e a paridade internacional atingiu R$ 2,68 por litro, o equivalente a um desconto de 74% em relação ao mercado externo.

A distorção de preços compromete diretamente o equilíbrio da oferta, ao inviabilizar economicamente a atuação de importadores privados, responsáveis por cerca de 30% do diesel consumido no país. O cenário coloca em xeque a segurança do abastecimento, especialmente em um momento de elevada demanda logística e agrícola.

Preço artificial fecha janelas de importação

A política de preços da Petrobras tem impacto direto na dinâmica de suprimento. Com o diesel sendo vendido abaixo da paridade internacional, as chamadas “janelas de importação” permanecem fechadas, reduzindo a entrada de produto no país.

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O presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, Sérgio Araújo, em entrevista ao CNN Money, detalhou os efeitos dessa distorção sobre o mercado: “Essa defasagem muito elevada, que é fruto de uma prática de preço artificial pelas refinarias da Petrobras, causa diversos transtornos.”

Na prática, a ausência de competitividade para importadores gera uma dependência ainda maior do refino nacional, reduzindo a flexibilidade do sistema e aumentando o risco de gargalos no abastecimento.

Queda nas importações amplia vulnerabilidade regional

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis já evidenciam os efeitos dessa política. As importações de diesel registraram queda de quase 60% em relação ao mesmo período do ano anterior, refletindo o desalinhamento entre preços internos e internacionais.

O impacto, no entanto, não é homogêneo. Regiões com menor presença de refinarias da Petrobras tendem a ser mais afetadas, especialmente aquelas dependentes de importações ou de refinarias privadas.

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Ao analisar o mapa de risco, Sérgio Araújo aponta as áreas mais sensíveis: “Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que dependem mais de produtos do diesel importado e de diesel produzido pelas refinarias privadas, ficam mais sujeitas a preços elevados e também a um maior risco de desabastecimento.”

Esse desequilíbrio regional reforça a necessidade de uma política de preços que preserve a atratividade do mercado para diferentes agentes, garantindo diversificação das fontes de suprimento.

Abril entra no radar como ponto crítico

Apesar de o abastecimento de março estar assegurado por contratos firmados antes da intensificação das tensões geopolíticas, com destaque para os impactos do conflito envolvendo a Ucrânia, o cenário para abril é considerado incerto.

A inviabilidade econômica de novas importações pode comprometer o atendimento à demanda em um período estratégico, marcado pelo escoamento da safra agrícola e aumento da movimentação de cargas no país.

A combinação de alta demanda sazonal e restrição de oferta eleva o risco de desabastecimento localizado, especialmente em regiões mais afastadas dos principais polos de refino.

Subvenções são vistas como insuficientes

As medidas adotadas pelo governo federal para mitigar o impacto da alta internacional, incluindo subvenções estimadas em R$ 1,52 por litro, são consideradas insuficientes pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis. Com a defasagem próxima de R$ 3,00 por litro, o subsídio atual cobre apenas parte do diferencial, mantendo o desincentivo às importações e prolongando a distorção de mercado.

Na avaliação de Sérgio Araújo, a solução passa por uma redefinição do modelo de formação de preços e da origem dos recursos utilizados para mitigar impactos ao consumidor: “Ao não fazer isso [alinhar preços], ela está deixando muito dinheiro sobre a mesa e, sem dúvida, prejudicando o resultado dos seus acionistas. Esse tipo de programa de subvenção para aliviar os consumidores deve ser feito pelo governo e não por empresas privadas.”

Fundo com royalties surge como alternativa

Como alternativa, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis propõe a criação de um fundo de estabilização financiado por royalties e participações especiais do petróleo, receitas que tendem a crescer em cenários de alta do barril.

A proposta permitiria alinhar os preços domésticos à paridade internacional, reabrindo as janelas de importação e restabelecendo o equilíbrio competitivo no mercado, sem pressionar diretamente o caixa da Petrobras.

Equilíbrio de mercado e segurança energética em xeque

O episódio expõe um dilema estrutural da política energética brasileira: equilibrar modicidade tarifária no curto prazo com segurança de suprimento e sustentabilidade econômica no longo prazo. A persistência de preços desalinhados pode gerar distorções relevantes, reduzindo investimentos, limitando a atuação de agentes privados e aumentando a vulnerabilidade do sistema de abastecimento.

Para o setor elétrico, altamente dependente de combustíveis fósseis em momentos de despacho térmico, eventuais falhas no suprimento de diesel também representam um risco indireto à segurança energética, especialmente em cenários de hidrologia adversa.

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