Recursos obtidos junto ao ICO serão direcionados a projetos de energia renovável, infraestrutura sustentável e descarbonização, ampliando a oferta de crédito de longo prazo para a economia verde
A corrida global por recursos destinados à transição energética e à descarbonização da economia abriu uma nova frente de captação internacional para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A instituição anunciou a contratação de R$ 1 bilhão, equivalente a US$ 200 milhões, junto ao Instituto de Crédito Oficial (ICO), banco nacional de promoção da Espanha, em uma operação voltada ao financiamento de projetos alinhados à agenda de sustentabilidade.
O acordo, formalizado em Madri nesta segunda-feira (1º), amplia a capacidade de funding do banco brasileiro em um momento de crescente demanda por crédito de longo prazo para projetos de energia renovável, infraestrutura sustentável, eficiência energética e modernização industrial.
Mais do que uma operação financeira, a iniciativa reforça o movimento de internacionalização das fontes de recursos utilizadas pelo BNDES para apoiar investimentos estratégicos no país. Em um ambiente global marcado pelo avanço das metas climáticas, a busca por linhas internacionais com foco em sustentabilidade tornou-se uma das principais ferramentas para ampliar a competitividade dos financiamentos oferecidos pelo banco.
Os recursos captados serão incorporados à estrutura de financiamento da instituição e poderão atender projetos enquadrados nas linhas de crédito já existentes, desde que cumpram critérios rigorosos relacionados à sustentabilidade ambiental e ao desenvolvimento socioeconômico.
Capital internacional ganha relevância na agenda da transição energética
O fortalecimento da infraestrutura energética brasileira exigirá, nos próximos anos, volumes crescentes de investimento para viabilizar a expansão das fontes renováveis, a modernização da rede elétrica, a eletrificação de processos produtivos e a implantação de novas soluções de baixo carbono.
Nesse contexto, instituições multilaterais, bancos de desenvolvimento e agências de crédito à exportação têm ampliado sua participação no financiamento de projetos associados à transição energética em economias emergentes. A nova operação com o ICO se insere justamente nesse movimento de atração de capital internacional para apoiar a transformação da matriz produtiva brasileira.
Ao destacar o alcance estratégico da captação, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que a operação fortalece a capacidade do banco de ampliar investimentos sustentáveis e acelerar projetos prioritários para o país: “A nova operação com o ICO reforça a estratégia do BNDES de diversificar suas fontes de captação com parceiros internacionais e ampliar o apoio a investimentos voltados ao desenvolvimento sustentável no Brasil. Esses recursos nos permitem acelerar projetos de infraestrutura sustentável e energia renovável, alinhados à política de transição energética do presidente Lula às agendas globais de clima e desenvolvimento, ao mesmo tempo em que fortalecem o comércio bilateral com a Espanha e contribuem para o crescimento com geração de emprego e aumento da produtividade.”
A estratégia de diversificação das fontes de funding ganhou protagonismo nos últimos anos, especialmente diante da necessidade de ampliar a disponibilidade de crédito para projetos de longo ciclo de maturação, característica comum aos empreendimentos dos setores de energia, logística e infraestrutura.
Critérios ESG serão determinantes para acesso aos recursos
Diferentemente das linhas tradicionais de financiamento, os recursos provenientes da parceria com o banco espanhol estarão vinculados a parâmetros específicos relacionados à agenda ESG e às metas internacionais de desenvolvimento sustentável.
Os projetos financiados deverão demonstrar aderência às Políticas Operacionais do BNDES, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas, à Estratégia Europeia 2030 e às diretrizes climáticas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Na prática, isso significa que empreendimentos voltados à geração renovável, eficiência energética, redução de emissões, infraestrutura resiliente e tecnologias limpas tendem a concentrar as maiores oportunidades de acesso aos recursos. A exigência acompanha uma tendência observada em todo o mercado internacional de crédito, onde investidores e instituições financeiras vêm ampliando a cobrança por indicadores ambientais, sociais e de governança como condição para a concessão de financiamento.
Programa espanhol amplia liquidez para projetos de longo prazo
A operação foi estruturada por meio do programa ICO Canal Internacional, instrumento criado pelo governo espanhol para apoiar iniciativas empresariais e projetos estratégicos em mercados externos por intermédio de instituições financeiras parceiras. O mecanismo funciona como uma plataforma de compartilhamento de riscos e expansão da liquidez para operações de longo prazo, característica considerada essencial para setores intensivos em capital, como infraestrutura, energia e saneamento.
Ao comentar o novo acordo, o presidente do ICO, Manuel Illueca, ressaltou que a parceria fortalece a cooperação econômica entre os dois países e amplia a participação das empresas espanholas em projetos sustentáveis desenvolvidos no Brasil: “Esta nova operação com o BNDES representa mais um passo na colaboração entre ambas as instituições e fortalece a cooperação financeira entre Espanha e Brasil. Com este acordo, o ICO reforça o seu papel como parceiro de referência para acompanhar as empresas espanholas na sua internacionalização, ao mesmo tempo que contribui para impulsionar projetos sustentáveis no Brasil, com impacto ambiental positivo e participação de empresas espanholas. Esta atuação reflete a capacidade do ICO de combinar duas das suas grandes prioridades estratégicas: o impulso à sustentabilidade e o apoio à presença internacional do nosso tecido empresarial”.
Além de ampliar o volume de recursos disponíveis, o acordo abre espaço para maior integração tecnológica entre empresas brasileiras e espanholas, especialmente em segmentos ligados à energia renovável, digitalização, equipamentos elétricos, eficiência energética e infraestrutura sustentável.
Crédito verde deve ganhar protagonismo nos próximos anos
O avanço da transição energética brasileira dependerá cada vez mais da disponibilidade de instrumentos financeiros capazes de reduzir custos de capital e ampliar a previsibilidade dos investimentos.
A expansão da geração renovável, a modernização da infraestrutura elétrica, a produção de combustíveis sustentáveis, o hidrogênio de baixo carbono e os projetos industriais voltados à descarbonização exigirão volumes expressivos de financiamento ao longo da próxima década. Nesse cenário, operações internacionais como a firmada entre BNDES e ICO reforçam a posição do banco brasileiro como um dos principais catalisadores de recursos para a economia verde.
A expectativa é que os novos recursos fortaleçam a capacidade do mercado de acessar crédito competitivo em um momento de expansão dos investimentos em infraestrutura sustentável e de crescente demanda global por projetos alinhados às metas climáticas.


