NOAA aponta probabilidade superior a 80% para a instalação do fenômeno; analistas alertam para o risco de desligamentos forçados e derating térmico de linhas de transmissão sob forte calor e estiagem.
O planejamento operacional e a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) entram em estágio de atenção com a iminência de uma nova guinada climática. Dados consolidados pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), dos Estados Unidos, apontam que a probabilidade de instalação do fenômeno El Niño entre os meses de maio e julho supera a marca de 80%. Embora o evento ainda aguarde confirmação definitiva, os principais modelos de projeção indicam um potencial de evolução severa ao longo da primavera, ameaçando a estabilidade da infraestrutura de transmissão e distribuição do país.
O principal vetor de risco para as concessionárias e transmissoras reside no agravamento do período seco. O alerta emitido pela Climatempo, maior consultoria meteorológica da América Latina, indica que a consolidação do fenômeno deve intensificar os focos de incêndio florestal no Brasil central, impondo desafios rigorosos à coordenação de carga conduzida pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O gatilho térmico e a vulnerabilidade da malha de transmissão
A correlação entre anomalias de temperatura na superfície do Oceano Pacífico e a resiliência da infraestrutura elétrica nacional é direta. As alterações na circulação atmosférica global provocadas pelo El Niño modificam o regime de chuvas e aceleram a perda de umidade do solo nas principais fronteiras energéticas do país.
Ao projetar o comportamento meteorológico para o segundo semestre, o corpo técnico de meteorologistas da Climatempo detalha o mapa de calor e as assimetrias regionais previstas: “O El Niño está com previsão de formação para as próximas semanas e pode potencializar condições mais secas e quentes no Brasil central, interior do Nordeste e parte da Região Norte. Além disso, o fenômeno pode favorecer extremos de chuva na Região Sul.”
Para os ativos de transmissão, a combinação de estiagem prolongada, baixa umidade relativa do ar e altas temperaturas desenha um cenário crítico. A aproximação de frentes de fogo em relação às faixas de servidão das linhas de alta tensão é uma das principais causas de desligamentos forçados no SIN. O calor extremo e o material particulado gerado pelas queimadas rompem o isolamento dielétrico do ar ao redor dos condutores, provocando descargas elétricas (curtos-circuitos) e a consequente atuação automática dos sistemas de proteção para isolar o trecho afetado.
Memória operacional: o impacto do ciclo 2023/2024
A preocupação dos agentes de geração e transmissão não é teórica, mas amparada no histórico recente de operação sob estresse hidroenergético e térmico.
O Head de Negócios da Climatempo, Vitor Hassan, recorda que as restrições vividas pelo mercado recentemente servem como um balizador importante para as estratégias de mitigação vigentes: “Durante o ciclo do El Niño de 2023/2024, o setor de energia enfrentou forte pressão operacional, com aumento da demanda de consumo, maior necessidade de acionamento de usinas termelétricas e crescimento relevante de ocorrências associadas a incêndios e queimadas.”
Naquele período, o acionamento de usinas térmicas de maior custo marginal de operação (CVU) foi mandatório para garantir o atendimento às pontas de carga provocadas por sucessivas ondas de calor. Ao mesmo tempo, o setor registrou uma escalada nas taxas de falha e indisponibilidade de linhas provocadas pelo avanço do fogo, o que reduziu a flexibilidade operativa do sistema em momentos de consumo recorde.
Inteligência analítica e o gerenciamento do risco de incêndios
Para mitigar o risco de sinistros estruturais e penalidades regulatórias por Parcela Variável (PV) decorrente de indisponibilidades, as empresas de energia vêm reformulando suas rotinas de manutenção preditiva e monitoramento preventivo de ativos. A estratégia tradicional de combate reativo ao fogo tem dado lugar ao uso de algoritmos de fusão de dados de satélite e modelos probabilísticos de ignição da vegetação.
Como resposta a essa necessidade de visibilidade analítica, o mercado passou a adotar plataformas como o CT Merge Fire, sistema desenvolvido pela Climatempo para rastrear focos de calor combinando múltiplos sensores espaciais. A tecnologia elimina pontos cegos clássicos gerados por coberturas de nuvens e atrasos de órbita de satélites individuais.
O Head de Negócios da consultoria, Vitor Hassan, ressalta que a digitalização das salas de controle é o divisor de águas para a segurança das redes: “Empresas mais preparadas deixaram de apenas acompanhar previsões tradicionais e passaram a incorporar inteligência climática diretamente às suas operações.”
Com a iminência do El Niño, as distribuidoras e transmissoras que operam no Sudeste, Centro-Oeste e Norte intensificam as ações de roçada, limpeza de faixas de servidão e calibração de sistemas de proteção. O objetivo é evitar que o estresse climático se converta em racionamento local de potência ou em volatilidade acentuada nos preços de liquidação de diferenças (PLD) no mercado livre de comercialização de energia.



