LRCAP contrata 19 GW de potência e explicita custo elevado da segurança energética no Brasil

Leilão movimenta R$ 64,5 bilhões em investimentos e projeta R$ 38,9 bilhões anuais em receita fixa; preços próximos ao teto indicam pressão estrutural sobre encargos

O 2º Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) contratou 18.977 MW de potência, consolidando-se como um dos maiores certames já realizados no país para garantir a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e operacionalizado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o leilão resultou em R$ 64,5 bilhões em investimentos e uma receita fixa anual de R$ 38,9 bilhões para os empreendimentos contratados.

Ao longo dos contratos, a receita total alcança R$ 515,7 bilhões, com deságio médio de 5,52%, gerando economia estimada de R$ 33,6 bilhões frente aos valores de referência.

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O certame reforça o papel dos leilões de potência como instrumento central para garantir segurança energética, especialmente em um contexto de maior participação de fontes renováveis intermitentes.

Dinâmica do leilão confirma mercado ajustado e preços elevados

A dinâmica das rodadas evidenciou um mercado com competição limitada e preços próximos ao teto regulatório, sobretudo nos produtos de curto prazo.

No Produto Potência Termelétrica 2026, foram contratados 1.955 MW, com deságio médio de 2,24% e preços ao redor de R$ 2,18 milhões a R$ 2,205 milhões/MW.ano.

O comportamento se repetiu no Produto 2027, que contratou 1.704 MW com deságio praticamente nulo (0,01%), mantendo os preços na faixa de R$ 2,249 milhões/MW.ano, sinalizando que os agentes operam no limite econômico de viabilidade.

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Esse padrão confirma um cenário de oferta restrita de projetos competitivos e forte dependência das condições regulatórias definidas pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

Expansão térmica eleva custos nos produtos de longo prazo

A entrada de novos empreendimentos (greenfield) nos produtos de 2028 e 2029 elevou significativamente o patamar de preços, refletindo o custo de expansão da capacidade firme.

No Produto 2028, foram contratados 7.394 MW em termelétricas, com investimentos de cerca de R$ 26,7 bilhões e deságio médio de 6,17%. Os preços variaram entre R$ 2,3 milhões e R$ 2,7 milhões/MW.ano. Já no Produto 2029, com 2.803 MW contratados, os preços se aproximaram do teto regulatório, com investimentos estimados em R$ 14,1 bilhões.

O movimento evidencia que a expansão do sistema, especialmente via geração térmica, exige elevado Capex e contratos robustos, com impacto direto no custo sistêmico.

Gás natural domina matriz contratada

O resultado do leilão foi amplamente dominado por usinas termelétricas a gás natural, que responderam pela maior parte da potência contratada, cerca de 16,7 GW.

Outras fontes também tiveram participação, ainda que mais limitada:

  • Hidrelétricas (ampliação): cerca de 2,3 GW
  • Carvão mineral: 635 MW
  • Biometano: 9,2 MW

O protagonismo do gás reforça seu papel como principal fonte de backup para a geração renovável, funcionando como garantia de potência firme em momentos de baixa geração hídrica, solar ou eólica.

Hidrelétricas voltam ao radar com custos mais competitivos

No segmento hidrelétrico, o leilão contratou 2.311 MW em ampliações, com investimentos de aproximadamente R$ 9,9 bilhões, incluindo projetos de empresas como Engie, Copel e SPIC.

Os preços ficaram significativamente abaixo das térmicas, com valores próximos de R$ 1,395 milhão/MW.ano e deságio médio de 0,55%. A diferença de custo evidencia a competitividade da fonte hidráulica, embora limitada pela disponibilidade de projetos e desafios de licenciamento ambiental.

Receita bilionária reforça impacto sobre encargos

Os empreendimentos vencedores terão direito a uma receita fixa anual de R$ 38,9 bilhões, valor que será remunerado por meio dos encargos setoriais, em especial o Encargo de Reserva de Capacidade (ERCAP).

Embora o LRCAP não impacte diretamente o preço spot da energia, ele influencia o custo total do sistema elétrico, com reflexos nas tarifas ao consumidor.

O desenho do leilão, baseado na remuneração pela disponibilidade da potência (R$/MW.ano), reforça a lógica de contratação de capacidade como um “seguro” para o sistema.

Governo destaca papel do leilão para segurança energética

Durante coletiva realizada ao longo do leilão, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ressaltou a dimensão estratégica do certame para o sistema elétrico brasileiro. “Estamos concluindo o maior leilão de térmicas da história do país”

A declaração reforça a leitura de que o LRCAP representa um marco na política energética recente, ao estruturar a expansão da capacidade firme necessária para sustentar o crescimento da matriz renovável.

Sinalização ao mercado: confiabilidade terá custo elevado

Os resultados do 2º LRCAP consolidam uma mensagem clara ao mercado: a segurança energética no Brasil terá custo elevado no médio e longo prazo.

Com preços próximos ao teto regulatório, baixa competição e forte dependência de geração térmica, o leilão funciona como um termômetro da complexidade de equilibrar expansão renovável com confiabilidade operativa.

Para investidores, consumidores e formuladores de políticas públicas, o desafio passa a ser estruturar mecanismos que conciliem segurança, custo e sustentabilidade em uma matriz elétrica cada vez mais diversificada.

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