Documento técnico revela que governo espanhol foi alertado sobre risco de apagão causado por fontes renováveis

Relatório da Red Eléctrica advertia desde janeiro sobre falhas nos sistemas de proteção da rede elétrica provocadas pela alta penetração de energia solar e eólica

O recente apagão ocorrido na Espanha expôs uma fragilidade já conhecida, mas negligenciada pelas autoridades energéticas do país. Um documento técnico da Red Eléctrica, operadora do sistema elétrico nacional, enviado ainda em janeiro à Comissão de Transição Ecológica, já alertava sobre riscos significativos decorrentes da crescente penetração de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, no sistema elétrico espanhol.

O relatório, intitulado Critérios Gerais para a Proteção do Sistema Elétrico Espanhol, destaca que os mecanismos de proteção da rede poderiam se comportar de forma “inesperada” diante de desequilíbrios causados pela variabilidade das fontes renováveis. A advertência não apenas antecipa o risco de instabilidade como também destaca a necessidade urgente de atualização dos critérios técnicos utilizados desde 1996.

A informação, revelada pelo jornal El Confidencial, mostra que o documento foi oficialmente registrado na Direção-Geral de Política Energética e Minas, chefiada por Manuel García Hernández. No entanto, mesmo após a entrega do relatório, nenhuma medida emergencial foi tomada pelo Ministério da Transição Ecológica, liderado por Sara Aagesen.

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Penetração renovável e risco de colapso

A falha sistêmica que resultou no apagão aconteceu em um cenário de elevada geração solar, que naquele dia respondeu por 70% da produção elétrica do país. Apenas quatro reatores nucleares estavam ativos, e a geração por gás natural e hidrelétricas era mínima. Esse cenário foi classificado pela Red Eléctrica como um fator agravante para os riscos já apontados em janeiro.

De acordo com o documento, “podem surgir situações em que os sistemas de proteção não conseguem detectar corretamente determinadas falhas”. Nesses casos, as proteções simplesmente não são acionadas, permitindo que as falhas se perpetuem e culminem em episódios de “energia zero” — exatamente como ocorreu no incidente recente.

O relatório também chama atenção para o fato de que áreas da infraestrutura elétrica anteriormente consideradas seguras podem se tornar críticas à medida que a geração renovável passa a dominar a matriz. Essa mudança, segundo o estudo, exige uma revisão técnica ampla e atualizada dos mecanismos de controle e proteção da rede.

Governo minimiza urgência; setor elétrico reage

Apesar da clareza das advertências, o governo espanhol considerou que o relatório apontava medidas para um horizonte de cinco anos, e não reconheceu a necessidade de ações imediatas. A decisão causou desconforto entre as empresas do setor elétrico, que exigem maior transparência no comitê de investigação do apagão.

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Companhias como Iberdrola, Endesa e EDP, representadas pela associação Aelec, criticaram a exclusão do setor privado do processo de apuração. Em reunião recente com Marina Serrano, presidente da entidade, a ministra Sara Aagesen rejeitou o pedido de participação das empresas, alegando que o comitê não é aberto a entidades externas — nem mesmo à Red Eléctrica, que elaborou o relatório técnico.

O Ministério afirmou que continuará a colher informações diretamente com os operadores e que está realizando visitas técnicas às instalações para avaliar os dados. No entanto, representantes do setor afirmam que a exclusão do debate compromete a efetividade das ações futuras.

O desafio da modernização da rede

O caso espanhol levanta um alerta para outros países que avançam na descarbonização de suas matrizes energéticas. A alta dependência de fontes intermitentes, sem o devido fortalecimento dos sistemas de proteção e estabilidade, pode colocar em risco a confiabilidade de todo o sistema elétrico.

Para especialistas, o episódio reforça a importância da chamada “transição energética responsável”, que precisa estar acompanhada por investimentos robustos em infraestrutura, digitalização da rede e aprimoramento dos sistemas de controle. Sem isso, os apagões poderão deixar de ser eventos isolados para se tornar um novo normal em países com alta penetração de renováveis.

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