Terceiro mecanismo competitivo do operador registra alta de 50% sobre 2025, deságio médio de 49,23% e forte participação da indústria metalúrgica
O terceiro Mecanismo Competitivo de Resposta da Demanda por Disponibilidade, promovido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), contratou 344 MW de capacidade de redução de consumo, maior volume registrado desde a criação da iniciativa no setor elétrico brasileiro. O resultado representa crescimento de aproximadamente 50% em relação aos 229 MW contratados na edição de 2025.
O certame também evidenciou a disposição dos consumidores em oferecer flexibilidade operacional ao sistema. O deságio médio alcançou 49,23% em relação ao preço-teto estabelecido pelo ONS, enquanto a maior redução apresentada chegou a 57,5%. A região Sudeste/Centro-Oeste concentrou 61% da capacidade contratada, seguida pelo Nordeste, com 35%, e pelo Sul, com 4%.
Metalurgia responde por 86% da capacidade
A indústria eletrointensiva foi o principal vetor do resultado. O segmento de metalurgia e produtos de metal respondeu por 86% do volume contratado, enquanto serviços representaram 6%. As indústrias de madeira, papel e celulose e de produtos químicos ficaram com 4% cada.
Os contratos têm vigência de setembro a dezembro de 2026. Os participantes recebem remuneração fixa pela disponibilidade de reduzir a carga e podem ser acionados pelo ONS em até duas ocasiões por mês durante o período contratual. As propostas vencedoras ficaram entre R$ 23.375 e R$ 39 mil por MW, considerando 83 dias úteis de disponibilidade.
Flexibilidade passa a ser ativo comercial
A Resposta da Demanda cria uma alternativa para que consumidores habilitados transformem parte da capacidade de modulação de suas cargas em uma fonte adicional de receita. A lógica desloca a gestão do consumo para além da busca por menores custos de energia, incorporando a flexibilidade operacional como um recurso com valor para o sistema.
O mecanismo foi regulamentado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em 2022 e é destinado a consumidores livres e parcialmente livres, além de agregadores de carga habilitados junto à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e ao ONS. A participação exige estrutura para monitoramento e acompanhamento dos dados de consumo.
Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, a mudança está justamente na possibilidade de atribuir valor econômico à capacidade de alterar o perfil de consumo sem comprometer a atividade produtiva: “Tradicionalmente, o consumidor procura negociar o menor preço possível pelo MWh. A Resposta da Demanda acrescenta uma nova dimensão: entender se parte daquele consumo pode ser deslocada ou interrompida sem comprometer a operação. Se existe essa flexibilidade, ela passa a ter valor para o sistema e pode ser monetizada.”
Adesão exige avaliação da carga
A participação, porém, depende da identificação precisa das cargas que podem ser reduzidas ou deslocadas. Processos industriais contínuos, instalações com requisitos rígidos de temperatura, data centers e outros equipamentos críticos podem apresentar restrições à interrupção ou modulação do consumo.
Antes da adesão, portanto, é necessário avaliar quais cargas são essenciais, qual volume pode ser flexibilizado e por quanto tempo a redução pode ocorrer sem afetar a operação.
Sozzi destaca que a análise deve considerar não apenas a quantidade de energia que pode ser retirada da rede, mas também os efeitos operacionais de cada acionamento: “É necessário separar o que é consumo essencial do que é consumo flexível. Depois, entender a duração, frequência e impacto de uma eventual redução. Só então é possível saber se existe uma capacidade que pode ser oferecida ao sistema de forma segura.”
Flexibilidade ganha relevância com renováveis
A expansão da Resposta da Demanda ocorre em paralelo ao aumento da participação de fontes variáveis, especialmente solar e eólica, na matriz elétrica. A característica intermitente dessas fontes amplia a necessidade de recursos capazes de ajustar rapidamente a relação entre geração e consumo.
Nesse contexto, a modulação voluntária da carga pode complementar outros instrumentos de flexibilidade do sistema, como hidrelétricas, termelétricas despacháveis e sistemas de armazenamento.
Embora os 344 MW ainda representem uma parcela pequena da demanda do Sistema Interligado Nacional (SIN), a evolução do mecanismo mostra a ampliação do espaço para a participação ativa dos consumidores na operação elétrica. Para grandes consumidores, a capacidade de ajustar o consumo deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a integrar também a estratégia de gestão energética e comercial.



