Minirrede solar de 50 kWp viabiliza produção de açaí em comunidade remota da Amazônia

Projeto com baterias leva energia confiável a comunidade no Amazonas e testa modelo que pode incorporar usos produtivos ao programa de universalização

Uma minirrede solar com armazenamento em baterias começa a transformar o acesso à energia elétrica em atividade econômica na comunidade Bela Conquista, na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, em Tefé (AM). Com 50 kWp de potência fotovoltaica e 165 kWh de armazenamento, o sistema permitirá colocar em operação uma unidade comunitária de beneficiamento de açaí que vinha sendo limitada pela falta de fornecimento elétrico confiável.

O projeto é desenvolvido pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), pela Global Energy Alliance for People and Planet (GEA) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e integra o programa Luz na Floresta. A iniciativa é apresentada como uma demonstração prática de um modelo que poderá ser replicado em comunidades remotas da Amazônia.

Além de atender a infraestrutura produtiva, a minirrede fornecerá eletricidade para a escola, o centro comunitário, a cozinha comunitária e o poço de abastecimento de água.

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Energia solar destrava beneficiamento do açaí

A unidade de processamento de Bela Conquista começou a ser planejada em 2017 com o objetivo de agregar valor ao açaí produzido pelos moradores e ampliar o acesso a mercados. A geração a diesel disponível na comunidade, porém, era intermitente e insuficiente para manter os equipamentos em funcionamento.

Com o novo sistema, a unidade poderá produzir até 36 mil litros de açaí por ano. A expectativa é reduzir perdas de frutos, aumentar o volume processado localmente e ampliar a renda das famílias envolvidas na atividade.

Daniel Gama, morador de Bela Conquista e presidente do projeto da unidade de processamento, aponta a restrição de energia como um dos principais obstáculos para a operação do empreendimento: “O maior gargalo que enfrentávamos para colocar o empreendimento em funcionamento era a falta de energia confiável. Tivemos muitos problemas com a rede existente devido às condições da linha de distribuição, e a eletricidade que chegava à unidade não era suficiente para operar todas as máquinas.”

A nova infraestrutura deve permitir que a comunidade compre uma quantidade maior de frutos e processe uma parcela maior da produção local. Luciana Sena, moradora da comunidade e vice-secretária da unidade de beneficiamento de açaí, destaca o efeito esperado sobre a atividade econômica: “Agora vamos conseguir produzir mais açaí e não teremos mais as mesmas dificuldades com perdas da produção, porque teremos energia proveniente dos painéis solares. Poderemos comprar um volume maior de frutos, ter mais produto para processar na unidade e aumentar a renda das famílias.”

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Projeto testa novo modelo de universalização

A experiência em Bela Conquista ganha relevância para a política energética porque ocorre enquanto o governo federal avalia uma revisão do programa de universalização para incluir, pela primeira vez, os usos produtivos da energia. A proposta parte da premissa de que ampliar o acesso à eletricidade em áreas remotas pode atender não apenas necessidades residenciais e serviços públicos, mas também atividades capazes de gerar renda.

O projeto Luz na Floresta prevê a implantação de até 20 projetos-piloto nos próximos dois a três anos, alcançando até 25 comunidades. Entre as atividades econômicas consideradas estão produção de açaí, pesca, agricultura e processamento de frutas. Nas áreas atendidas, a iniciativa estima alcançar disponibilidade de energia de 80% e mais que triplicar a receita proveniente da produção de açaí.

Modelo prevê gestão pelas próprias comunidades

A proposta não se limita à instalação dos equipamentos. A parceria também contempla capacitação dos moradores para gestão, operação e manutenção dos sistemas de geração e armazenamento, com transferência gradual da responsabilidade pelos ativos para as próprias comunidades.

Thiago Carvalho, Líder de Projetos Renováveis da FAS, explica que a formação dos moradores foi incorporada à estrutura do projeto desde sua concepção: “Os comunitários receberão todas as atividades de capacitação e treinamento previstas desde a concepção do projeto. Eles serão responsáveis pela gestão, operação e manutenção dos ativos implementados em suas comunidades.”

Para Luisa Valentim, Diretora Brasil na Global Energy Alliance, a combinação entre energia e atividade econômica é parte central da estratégia de expansão do modelo: “Este é um projeto extraordinário, no qual buscamos utilizar a energia como vetor de prosperidade, criando condições para que as comunidades permaneçam nos territórios onde escolheram viver, com qualidade de vida e oportunidades de geração de renda, ao mesmo tempo em que contribuem para a conservação da Floresta Amazônica, um patrimônio de importância fundamental para todo o planeta.”

Solar reduz dependência de diesel

A expansão das minirredes também tem impacto sobre a matriz de atendimento energético de comunidades isoladas. Nos 20 projetos-piloto previstos, os sistemas solares com baterias poderão gerar até 1 GWh de energia por ano, evitando o consumo estimado de 255 mil litros de diesel e a emissão de 680 toneladas de CO₂.

O projeto parte de um cenário ainda marcado pela dificuldade de atendimento em áreas remotas da Amazônia. Segundo os dados apresentados pela iniciativa, quase 1 milhão de brasileiros ainda não têm acesso à eletricidade, dos quais mais de 95% estão na Amazônia. Outros 2 milhões dependem de sistemas de geração a diesel.

Na comunidade, a expectativa é que a eletrificação também ajude a fortalecer atividades extrativistas e reduza a pressão por alternativas econômicas associadas à abertura de novas áreas.

Luzia Pinto, uma das matriarcas de Bela Conquista, relaciona o aproveitamento econômico dos produtos da floresta à manutenção das atividades extrativistas: “Nossa expectativa é que as pessoas reduzam o desmatamento para plantio e criação e que possamos depender cada vez mais das atividades extrativistas, aproveitando da floresta aquilo que ela já nos oferece. Temos castanha-do-brasil e também o açaí, que hoje é nosso principal produto. Podemos colher da natureza sem desmatar e sem prejudicar nossa floresta.”

Expansão pode alcançar 600 famílias

Além de Bela Conquista, o Luz na Floresta prevê ações no Território Indígena Serra da Moça, em Boa Vista (RR); na comunidade Nossa Senhora do Livramento (Uixi), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, em Beruri (AM); na comunidade Tamaniquá, na região do Médio Solimões (AM); e nas comunidades Santa Maria do Boiaçu, Cachoeirinha e Caicubi, no Baixo Rio Branco (RR).

A iniciativa estima beneficiar mais de 600 famílias com soluções de energia e atividades produtivas. A estratégia também busca produzir referências para políticas públicas de expansão do acesso à eletricidade em territórios remotos.

Virgilio Viana, Superintendente-geral da FAS, considera a experiência de Bela Conquista uma referência para a ampliação desse modelo: “Bela Conquista é uma comunidade que serve de referência e merece ser conhecida por todos que sonham com uma Amazônia mais justa e sustentável. Ela mostra que é possível. O grande desafio é multiplicar exemplos como este e tantos outros que tivemos o privilégio de apoiar e fortalecer ao longo da nossa história.”

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