Previsão de evento muito forte amplia necessidade de monitoramento de tempestades, ventos, raios e queimadas; Climatempo desenvolve hub de dados com empresas do setor e Defesa Civil
O avanço do El Niño para uma condição de forte intensidade está elevando a demanda do setor elétrico por ferramentas capazes de antecipar eventos meteorológicos e apoiar decisões operacionais. Transmissoras e distribuidoras ampliam o uso de estações meteorológicas, alertas georreferenciados e monitoramento em tempo real para reduzir a exposição de ativos e acelerar a resposta a ocorrências climáticas severas.
O cenário ganhou relevância adicional com as previsões mais recentes dos órgãos meteorológicos brasileiros. Boletim conjunto do INMET, INPE, ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e CENSIPAM aponta probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro de 2026.
Para o sistema elétrico, os efeitos do fenômeno não se limitam ao comportamento das chuvas. Mudanças nos regimes de precipitação e temperatura podem alterar as condições de operação e aumentar a exposição a tempestades, ventos intensos, descargas atmosféricas, calor extremo e queimadas, dependendo da região.
É nesse contexto que a Climatempo vem ampliando sua atuação junto a empresas de transmissão e distribuição, entre elas Argo Energia e ISA Energia, com soluções destinadas a transformar dados meteorológicos em informação operacional.
Dados climáticos entram na rotina dos centros de operação
A principal mudança está na integração das informações meteorológicas aos processos de planejamento e resposta das empresas. Em vez de utilizar a previsão apenas como referência, as ferramentas passam a indicar quais ativos ou trechos da rede podem estar mais expostos e quando uma condição adversa exige mobilização de equipes.
Para Vitor Hassan, Head de Negócios da Climatempo, a maior exposição das redes aos eventos extremos aumenta a importância da antecipação no planejamento das companhias. Ele destaca que a empresa está ampliando parcerias para fornecer informações meteorológicas hiperlocais e integradas às operações, com foco em planejamento, proteção de ativos e tomada de decisão.
“O setor elétrico está cada vez mais exposto aos impactos de eventos climáticos extremos. Com a possibilidade de um El Niño forte, a antecipação de riscos se torna ainda mais estratégica para o setor de energia”, afirma Vitor Hassan, Head de Negócios da Climatempo. “Nesse contexto, a Climatempo está intensificando parcerias com as empresas do setor e ampliando a oferta de serviços de inteligência climática confiável, hiperlocal e integrada às operações das empresas, para que elas possam planejar melhor, proteger seus ativos e tomar decisões com mais segurança.”
A aplicação é particularmente relevante em redes extensas, nas quais uma mesma ocorrência meteorológica pode atingir simultaneamente diferentes pontos de uma infraestrutura distribuída.
P&D cria hub colaborativo para transmissoras e Defesa Civil
Uma das iniciativas em desenvolvimento é um projeto de pesquisa e desenvolvimento regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que prevê a criação de um hub colaborativo de Inteligência Climática.
A proposta inicial é implantar uma rede no Estado de São Paulo para captar dados por meio de sensores meteorológicos e compartilhar informações calibradas, auditáveis e georreferenciadas entre empresas do setor elétrico e a Defesa Civil estadual.
A arquitetura busca criar uma base comum de informações para situações de emergência, permitindo que diferentes agentes tenham acesso a dados sobre as condições meteorológicas próximas às áreas de interesse operacional.
A expectativa é que o modelo possa posteriormente incorporar empresas de outras regiões e seja adaptado a setores com infraestrutura igualmente exposta ao clima, como transporte ferroviário e rodoviário.
Hassan aponta que a integração entre os diferentes agentes pode melhorar a preparação para eventos severos e ampliar a capacidade de resposta das empresas.
“O hub colaborativo de inteligência climática vai permitir a criação de planos de contingência mais efetivos frente aos efeitos do fenômeno El Niño, e a proposta inclui agregar empresas de outras regiões do País e pode, inclusive, evoluir para outros setores como ferrovias e rodovias”, explica Hassan.
Transmissão ganha monitoramento de corredores de linhas
Nas transmissoras, a inteligência climática pode ser aplicada diretamente ao acompanhamento dos corredores de linhas de transmissão. A combinação de dados meteorológicos e informações geográficas permite identificar áreas com maior exposição a determinadas condições adversas e apoiar a priorização de inspeções e ações preventivas.
Outro uso está na análise posterior de ocorrências. Dados sobre raios, ventos, temperatura, umidade ou queimadas podem ser correlacionados com falhas registradas na rede, ajudando a determinar as condições meteorológicas associadas a uma interrupção.
A ISA Energia já utiliza essa abordagem em São Paulo. A companhia firmou parceria com a Climatempo para implantar uma rede de estações meteorológicas em seu parque de ativos no Estado, com foco no acompanhamento de eventos extremos e no aumento da resiliência das linhas.
A Argo Energia também adotou estações meteorológicas para monitorar trechos de linhas de transmissão, incluindo ativos em Rondônia. Nesse caso, os dados são utilizados na correlação entre condições climáticas e ocorrências na infraestrutura.
Distribuidoras usam previsão para mobilizar equipes
Nas redes de distribuição, o ganho está principalmente na preparação para eventos de curta duração e alto impacto, como tempestades e vendavais.
A antecipação permite estimar áreas potencialmente afetadas e organizar previamente equipes, veículos e recursos necessários para atendimento. Quando a ocorrência efetivamente acontece, as informações podem ajudar a direcionar os recursos para os pontos de maior probabilidade de impacto.
O objetivo operacional é reduzir o intervalo entre a identificação de uma falha e o início do atendimento, contribuindo para a continuidade do fornecimento e para a recomposição mais rápida da rede quando houver interrupções.
A lógica também reduz a dependência de uma resposta exclusivamente reativa. Em um cenário de eventos meteorológicos mais severos, saber com antecedência onde e quando determinada condição pode atingir a infraestrutura passa a integrar o planejamento operacional das distribuidoras.
Monitoramento combina previsão, sensores e dados históricos
A Climatempo oferece ao setor elétrico um conjunto de ferramentas que combina monitoramento em tempo real e análise histórica. Entre elas está o SMAC, Sistema de Monitoramento e Alerta Climatempo, que acompanha variáveis como chuva, vento, raios, temperatura, umidade, pressão atmosférica e queimadas.
A plataforma também contempla alertas geolocalizados, integração de estações meteorológicas instaladas em campo, APIs para centros de operação, laudos meteorológicos para finalidades técnicas e regulatórias e estudos climáticos de curto, médio e longo prazo.
Essa combinação amplia o uso dos dados para além da resposta a emergências. Séries históricas e modelagens podem subsidiar protocolos operacionais, planejamento de manutenção, projetos de expansão e iniciativas de inovação e pesquisa e desenvolvimento.
Comitê de eventos extremos reforça resposta preventiva
Outra frente criada pela empresa é o Comitê de Eventos Meteorológicos Extremos, formado por profissionais de meteorologia, operações e comunicação.
A estrutura atua diante de situações classificadas nos níveis de alerta, perigo e perigo extremo, com a função de avaliar cenários críticos e organizar a comunicação das informações meteorológicas para os usuários.
Para o setor elétrico, a velocidade de transmissão da informação é relevante porque uma previsão só produz ganho operacional quando chega aos responsáveis pela tomada de decisão em tempo suficiente para permitir uma ação preventiva.
A combinação de previsão meteorológica, dados observados em campo e comunicação operacional cria, assim, uma camada adicional de gestão de risco para empresas que administram ativos críticos e redes espalhadas por grandes extensões territoriais.
O avanço do El Niño reforça essa necessidade. Com o fenômeno projetado para permanecer influente nos próximos meses, a capacidade de transformar informação climática em decisão operacional tende a ganhar espaço nas estratégias de resiliência das empresas de energia.


