Estudo da Universidade das Nações Unidas aponta intensidade de uso de água 191% acima da média global e reforça pressões por regulamentação técnica em data centers.
O avanço da inteligência artificial (IA) e a consequente expansão da infraestrutura de data centers impõem desafios críticos à gestão ambiental e energética no Brasil. Relatório do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) revela que a matriz elétrica brasileira apresenta uma intensidade de uso de água 191% superior à média mundial.
O indicador ganha relevância diante da pegada hídrica e computacional do setor. Dados globais compilados no estudo mostram que os centros de processamento de dados consumiram aproximadamente 448 TWh de eletricidade em 2025, com projeções que apontam para 945 TWh até 2030. Paralelamente, a demanda anual de água associada ao processamento de dados e ao resfriamento de infraestruturas pode atingir 9,3 trilhões de litros globalmente.
Dependência hidrelétrica e pegada de água
Apesar do perfil de geração predominantemente renovável do país, a expressiva fatia da fonte hidrelétrica faz com que a pegada hídrica indireta do setor elétrico seja um fator sensível na atração de data centers. O documento da UNU-INWEH alerta que avaliar a sustentabilidade da IA estritamente sob a ótica das emissões de carbono mascara pressões significativas sobre os recursos hídricos locais e regionais.
Nesse cenário, a Associação Brasileira de Infraestrutura da Qualidade (ABRIQ) defende a urgência na formulação de diretrizes técnicas e regulatórias para balizar a expansão dos empreendimentos no mercado nacional.
Critérios regulatórios e normas de gestão
A implementação de padrões operacionais rígidos é vista pela entidade como premissa para mitigar os impactos da demanda de carga decorrente dos sistemas computacionais avançados. O vice-presidente de ESG da ABRIQ, Alexandre Xavier, enfatiza a necessidade de integrar métricas hídricas ao planejamento do setor: “A expansão da inteligência artificial precisa ser acompanhada por uma visão mais ampla de sustentabilidade. Além do consumo de energia e das emissões de carbono, é fundamental estabelecer parâmetros que permitam mensurar o uso da água, avaliar a eficiência dos sistemas e acompanhar seus impactos sobre os recursos naturais.”
A padronização das operações pode ser estruturada por meio de referenciais normativos consolidados, como as certidões ISO 14001 (Sistema de Gestão Ambiental) e ISO 50001 (Sistema de Gestão de Energia). A aplicação dessas diretrizes viabiliza o controle contínuo sobre o consumo específico e a melhoria dos indicadores de eficiência energética e hídrica.
Ao detalhar a aplicação prática dessas normas operacionais para grandes consumidores de energia e processadores de dados, Xavier ressalta: “A adoção de sistemas de gestão ambiental e energética pode ajudar empresas de tecnologia e operadores de data centers a estabelecer indicadores, acompanhar seu desempenho e identificar oportunidades concretas para reduzir impactos ambientais. Isso é especialmente importante em um setor que cresce rapidamente e exige uma gestão cada vez mais eficiente de seus recursos.”
O papel da Infraestrutura da Qualidade
A estruturação de um ambiente regulatório previsível depende de ferramentas como normalização, certificação, acreditação e metrologia técnica. Para a ABRIQ, a aferição precisa do desempenho dos data centers permitirá alinhar o desenvolvimento da economia digital à preservação das bacias hidrográficas do país.
Ao projetar as oportunidades institucionais para o alinhamento entre a transição energética e o avanço da computação de alta performance, o executivo conclui: “O Brasil tem a oportunidade de aproveitar o crescimento da inteligência artificial sem abrir mão da proteção de seus recursos naturais. Para isso, precisamos de regras claras, indicadores confiáveis e mecanismos de verificação que permitam acompanhar os impactos do setor e estimular soluções mais eficientes e sustentáveis.”



