Com 29 usinas em operação, setor avança para o MATOPIBA, diversifica matérias-primas para mitigar riscos climáticos e consolida o modelo de biorrefinaria.
A expansão do etanol de cereais começa a redesenhar a geografia da produção de biocombustíveis no Brasil. Concentrado inicialmente em regiões de forte oferta de milho, especialmente no Mato Grosso, o segmento avança para novas fronteiras agrícolas e passa a incorporar o sorgo como alternativa ao cereal. O movimento combina disponibilidade regional de matéria-prima, redução de custos logísticos e possibilidade de instalação de unidades mais flexíveis, capazes de adaptar o processamento às condições de mercado e clima.
Atualmente, o país conta com 29 usinas de etanol de milho em operação, com capacidade para processar cerca de 20,9 milhões de toneladas de milho por ano e produzir aproximadamente 10,6 bilhões de litros de etanol. A expansão deve ganhar escala nos próximos anos: levantamentos setoriais de 2026 indicam 27 novos projetos em desenvolvimento. O avanço ocorre em paralelo à transformação do modelo industrial, que deixa de depender exclusivamente do milho e passa a explorar outros cereais com potencial para produção de etanol e coprodutos.
Milho transformou excedente em combustível
A origem da indústria de etanol de milho está associada à busca por alternativas para agregar valor à produção regional e reduzir o impacto do transporte do grão até os mercados consumidores. O modelo ganhou escala em Mato Grosso, onde a produção da segunda safra criou disponibilidade de matéria-prima para as usinas.
O engenheiro agrônomo e consultor de mercado da Céleres, Enilson Nogueira, explica que a estratégia permitiu transformar parte do milho produzido localmente em combustível, em vez de depender exclusivamente da comercialização do cereal in natura: “O etanol de milho surgiu como uma estratégia de agregação de valor ao cereal produzido localmente. Em vez de simplesmente exportar o grão, passou-se a transformá-lo em etanol, fortalecendo as cadeias produtivas internas e criando novas oportunidades econômicas na própria região.”
A instalação das primeiras grandes unidades no interior de Mato Grosso e, posteriormente, ao longo do eixo da BR-163, aproximou a indústria dos polos produtores. Além de reduzir deslocamentos do milho, o modelo criou oferta de etanol em regiões que anteriormente dependiam de combustíveis provenientes de outros estados.
A proximidade também alterou a dinâmica de competição entre as diferentes rotas de produção. O combustível produzido a partir do milho em Mato Grosso passou a disputar mercados tradicionalmente abastecidos pelo etanol de cana-de-açúcar. “O ganho de eficiência industrial ampliou ainda mais a competitividade. Atualmente, o etanol produzido em Mato Grosso chega, por exemplo, ao mercado paulista e disputa espaço diretamente com o combustível produzido a partir da cana-de-açúcar”, destacou o consultor.
MATOPIBA entra no radar
A próxima etapa de expansão leva a indústria para áreas com potencial de crescimento na produção de grãos, mas que apresentam condições agrícolas distintas das encontradas no Centro-Oeste. O MATOPIBA, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, aparece como uma das principais novas fronteiras para o etanol de cereais.
A Bahia já possui uma usina em operação, enquanto o Maranhão também passou a integrar o movimento de expansão. Nessa região, entretanto, a estratégia de produção precisa considerar maior exposição ao risco climático e limitações relacionadas à janela de plantio.
Em determinadas áreas, a dependência do milho de segunda safra pode aumentar o risco de produção quando as condições de clima dificultam o estabelecimento da lavoura dentro do período adequado. É nesse ponto que o sorgo ganha relevância como matéria-prima potencial. “O MATOPIBA reúne dois fatores importantes: demanda industrial e um calendário produtivo mais arriscado. Nesse cenário, o sorgo se encaixa muito bem”, afirma.
O cereal apresenta maior tolerância a períodos de déficit hídrico e temperaturas elevadas e pode ser processado em estruturas industriais semelhantes às utilizadas para o milho. Estudos e discussões técnicas do setor indicam potencial para rendimento de etanol próximo ao obtido com o milho, mediante ajustes no processo.
A alternativa também pode ser relevante no Vale do Araguaia, no leste de Mato Grosso, especialmente entre Água Boa e Querência. Enquanto municípios como Campo Novo do Parecis, Lucas do Rio Verde, Sinop e Sorriso já possuem uma cadeia de milho consolidada, outras áreas do estado apresentam características mais próximas das novas fronteiras agrícolas.
Coprodutos ampliam receita das usinas
A competitividade do etanol de cereais não está restrita à produção do biocombustível. O processamento do milho gera DDG (grãos secos de destilaria), coproduto utilizado principalmente na alimentação animal e que passou a representar uma parcela relevante da economia das usinas.
Dependendo do modelo de negócio, os coprodutos podem responder por 20% a 30% da receita das unidades. O DDG é destinado à alimentação de bovinos, aves e suínos, criando uma conexão direta entre a indústria de biocombustíveis e as cadeias pecuária e de produção de proteínas.
Nogueira aponta que essa integração modifica a lógica econômica das plantas, que passam a atuar como elos de diferentes cadeias produtivas: “O DDG passou a integrar de forma muito direta outras cadeias do agronegócio. A usina compra o milho, produz etanol e DDG, e esse coproduto é utilizado na alimentação de bovinos, aves e suínos da própria região. Criou-se uma verdadeira engrenagem de economia circular, que fortalece a economia regional e agrega valor ao milho produzido localmente.”
O efeito econômico tende a extrapolar os limites da planta industrial. A criação de um mercado consumidor local para os grãos pode estimular a produção agrícola, melhorar estruturas de comercialização e ampliar a oferta de insumos para a pecuária regional.
Usinas caminham para modelo de biorrefinaria
A evolução tecnológica também amplia o conceito da indústria. Como o processo utiliza o amido presente nos cereais, diferentes matérias-primas podem ser incorporadas, desde que apresentem características adequadas ao processamento industrial.
Essa flexibilidade permite que as unidades ajustem o mix de matérias-primas conforme preço, disponibilidade, produtividade agrícola, condições climáticas e logística. O resultado é uma possível transição das atuais usinas de etanol de milho para biorrefinarias de cereais, com maior capacidade de adaptação às condições de cada região.
“O mais adequado hoje é falar em etanol de cereais. Seja milho, trigo ou sorgo, todos possuem amido e podem ser utilizados para a produção de etanol e de coprodutos. A indústria ganha flexibilidade e pode adaptar sua matéria-prima às características de cada região”, ressalta o consultor.
Nesse cenário, o sorgo deixa de ser apenas uma alternativa complementar e passa a integrar a estratégia de expansão do setor, especialmente em áreas nas quais o milho enfrenta maior risco climático ou apresenta custo de produção e logística menos competitivo.
“Hoje, o sorgo reúne dois fatores importantes: produtividade e margem. Para a indústria, é uma matéria-prima competitiva, principalmente em regiões onde seu preço tende a ser inferior ao do milho. E, para o produtor, pode representar uma alternativa interessante justamente onde o risco de estabelecer uma segunda safra de milho é maior”, conclui Nogueira.
A combinação entre novas fronteiras agrícolas, diversificação de matérias-primas e valorização dos coprodutos indica que a próxima fase do etanol de cereais no Brasil poderá ser marcada menos pela expansão isolada das usinas de milho e mais pela formação de complexos industriais integrados às cadeias regionais de grãos e proteína animal.



