Centro de pesquisas apresenta avanços no ANAREDE, simulações de redes com alta presença de inversores e estudos sobre sustentabilidade de usinas fotovoltaicas flutuantes
Pesquisadores do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) apresentam na CIGRE Paris Session 2026 uma série de soluções voltadas aos desafios de planejamento, operação e expansão do sistema elétrico diante do avanço da transição energética. O encontro, realizado no Palais des Congrès até 28 de agosto, reúne especialistas internacionais em engenharia elétrica e coloca em discussão temas como integração de fontes renováveis, digitalização das redes e crescimento de cargas de elevada demanda, entre elas data centers e futuras plantas de hidrogênio.
A participação brasileira concentra trabalhos que combinam desenvolvimento computacional, simulação de sistemas de potência, digitalização de subestações, sustentabilidade e desempenho da infraestrutura de transmissão. Entre os projetos apresentados está a evolução do ANAREDE, ferramenta utilizada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e por agentes do setor em estudos de fluxo de potência. O software recebeu funcionalidades para calcular a margem de carga do Sistema Interligado Nacional (SIN), permitindo avaliar quanto de demanda adicional pode ser absorvida pela rede antes da necessidade de novos reforços de transmissão.
ANAREDE busca dar resposta à expansão de cargas eletrointensivas
A capacidade de estimar a margem disponível da rede ganha relevância em um cenário de crescimento da demanda por eletricidade associado à expansão de data centers, especialmente aqueles destinados a aplicações de inteligência artificial. A mesma avaliação pode apoiar o planejamento de futuras instalações de produção de hidrogênio verde, que também exigem grandes volumes de energia.
A lógica é utilizar de forma mais eficiente a infraestrutura existente, identificando previamente os limites operacionais do sistema e reduzindo incertezas na conexão de novos empreendimentos. Com isso, estudos de fluxo de potência passam a ter papel ainda mais relevante na definição da capacidade de atendimento e na identificação de eventuais necessidades de reforços.
O diretor de Negócios do Cepel, Rodrigo Régis, ressaltou que os trabalhos apresentados em Paris foram desenvolvidos a partir de necessidades concretas enfrentadas pelo setor elétrico e refletem a atuação do centro na pesquisa aplicada: “A presença do Cepel no CIGRE reforça nossa atuação na fronteira técnica de temas que já impactam o planejamento e a operação dos sistemas elétricos. Levamos contribuições aplicadas, desenvolvidas a partir de demandas concretas do setor, para um ambiente internacional em que esses desafios são discutidos de forma colaborativa.”
Simulações avançam com maior presença de eletrônica de potência
Outro eixo da participação do Cepel é a evolução do ANAHDVC, ferramenta destinada a simulações eletromecânicas e eletromagnéticas. O aprimoramento busca representar sistemas elétricos com participação crescente de equipamentos baseados em eletrônica de potência, característica associada principalmente à expansão das fontes solar fotovoltaica e eólica.
A mudança na composição da matriz altera a dinâmica de operação das redes. Diferentemente de geradores síncronos convencionais, equipamentos conectados por inversores apresentam características específicas de resposta a perturbações, tornando mais complexa a avaliação da estabilidade do sistema.
Nesse contexto, a capacidade de realizar simulações mais detalhadas permite avaliar o comportamento da rede em cenários de elevada penetração de recursos baseados em inversores. O avanço é relevante para o planejamento de uma matriz elétrica com maior participação de fontes renováveis variáveis sem comprometer os requisitos de segurança operativa.
Pesquisa amplia foco para sustentabilidade da infraestrutura
A agenda apresentada pelo centro também inclui estudos que extrapolam os aspectos estritamente elétricos. Um dos trabalhos compara a pegada de carbono e a pegada hídrica de empreendimentos de geração solar fotovoltaica flutuante com instalações solares terrestres convencionais.
A pesquisa é acompanhada por um tutorial sobre a aplicação de conceitos de ecodesign à infraestrutura de potência, ampliando a análise dos projetos para aspectos ambientais ao longo de seu ciclo de vida.
O Cepel também apresenta resultados de um programa nacional de capacitação e pesquisa e desenvolvimento (P&D) voltado às subestações digitais. A iniciativa envolve universidades e empresas do setor e busca ampliar a capacitação brasileira em uma tecnologia associada à automação, digitalização e modernização dos sistemas de transmissão e distribuição.
Transmissão e digitalização completam agenda brasileira
A delegação do Cepel na CIGRE Paris Session 2026 reúne, além de Rodrigo Régis, os pesquisadores Renan Pinto Fernandes, Katia Cristina Garcia, Denise Ferreira, Iago Leal e Carlos Kleber, e o gerente de Produtos e P&D de Controle da Operação, Denys Lellys.
O portfólio levado ao evento inclui ainda pesquisas sobre mitigação do efeito coroa e otimização do desempenho de linhas aéreas de transmissão. Os trabalhos complementam a agenda de digitalização e modernização do setor ao tratar de aspectos físicos que afetam a eficiência e a capacidade de transporte da infraestrutura elétrica.
A participação ocorre em um momento em que a expansão das cargas digitais e a maior inserção de renováveis colocam novas exigências sobre o planejamento do Sistema Interligado Nacional. Nesse ambiente, ferramentas capazes de antecipar limites da rede, simular diferentes condições operativas e incorporar variáveis ambientais tornam-se elementos relevantes para orientar decisões de investimento e garantir a confiabilidade do sistema.


