Relatório da Agência Internacional de Energia aponta crescimento anual próximo de 4% no consumo mundial de eletricidade, enquanto fontes renováveis devem ultrapassar o carvão como principal matriz de geração já em 2026
A demanda global por eletricidade continuará em trajetória de forte crescimento nos próximos anos, impulsionada pela eletrificação da economia, pela expansão dos data centers, pela digitalização da indústria e pelo aumento do consumo associado à mobilidade elétrica e à refrigeração. A avaliação é da Agência Internacional de Energia (IEA), que projeta uma aceleração do consumo mundial de energia elétrica até 2027, mesmo em um cenário marcado por volatilidade nos mercados energéticos e tensões geopolíticas.
Segundo a atualização semestral das perspectivas para o setor elétrico divulgada pela agência, a demanda global deverá crescer 3,6% em 2026 e 3,8% em 2027, superando a expansão estimada de 3% registrada em 2025. Em termos absolutos, o consumo mundial de eletricidade deverá saltar de 28.600 terawatts-hora (TWh) em 2025 para 30.700 TWh em 2027.
O crescimento é sustentado, principalmente, pela expansão das atividades industriais, do uso de aparelhos de ar-condicionado, da recarga de veículos elétricos e do aumento da capacidade computacional exigida pelos data centers, que se consolidam como uma das principais novas fontes de demanda energética no mundo.
Crise do gás natural testa a resiliência dos sistemas elétricos
As projeções da IEA foram divulgadas em um contexto de instabilidade no mercado internacional de gás natural liquefeito (GNL), agravado pelas interrupções no fluxo da commodity pelo Estreito de Ormuz. A situação elevou os preços do gás natural na Europa e na Ásia aos maiores níveis desde a crise energética observada entre 2022 e 2023, pressionando os custos de geração elétrica em diversas economias.
Em alguns mercados, as altas nos preços do combustível levaram governos e agentes do setor a adotarem medidas emergenciais para restringir o consumo energético. Ainda assim, os sistemas elétricos demonstraram resiliência, apoiados pelo aumento da oferta de GNL, sobretudo proveniente da América do Norte.
Os impactos econômicos também provocaram um movimento temporário de substituição do gás natural pelo carvão em países asiáticos e europeus. Paralelamente, a ampliação da geração renovável contribuiu para mitigar parte dos efeitos do choque energético, reforçando a segurança do suprimento elétrico.
O relatório destaca que a diversificação da matriz elétrica continuará sendo um dos principais instrumentos para reduzir a exposição dos países às oscilações dos mercados internacionais de combustíveis fósseis.
Renováveis devem superar o carvão já em 2026
Um dos principais marcos apontados pela Agência Internacional de Energia é a expectativa de que as fontes renováveis se tornem a maior fonte global de geração de eletricidade em 2026, ultrapassando o carvão após atingirem praticamente a mesma participação em 2025.
A geração renovável deverá crescer mais de 8% em 2026, elevando sua participação na matriz elétrica mundial de 33% para 37% até 2027. Entre as tecnologias renováveis, a energia solar fotovoltaica continuará liderando a expansão global da oferta de eletricidade. A expectativa é que a fonte ultrapasse a geração eólica já em 2026, consolidando-se como a segunda maior fonte renovável do mundo, atrás apenas da geração hidrelétrica.
A produção global de energia solar deverá crescer cerca de 600 TWh em 2026, repetindo o recorde registrado em 2025, com expansão semelhante prevista para o ano seguinte. O avanço da fonte reforça sua importância não apenas para a descarbonização da matriz elétrica, mas também para a segurança energética dos países. Ao mesmo tempo, a energia nuclear deverá contribuir significativamente para conter o crescimento das emissões do setor elétrico nos próximos anos.
China, Índia e economias avançadas puxam crescimento da demanda
A expansão do consumo de eletricidade deverá ser liderada pelas maiores economias do planeta. Na China, a demanda elétrica deverá crescer 5,5% em 2026, impulsionada pela atividade industrial e pelo aumento da infraestrutura de recarga de veículos elétricos. Na Índia, a previsão é de crescimento de 7%, após um desempenho mais fraco em 2025 influenciado por fatores climáticos.
Já nas economias avançadas, a expansão permanece consistente. Estados Unidos e União Europeia deverão registrar crescimento próximo de 2% no consumo de eletricidade, refletindo o avanço da eletrificação, dos investimentos em data centers e do aumento da demanda associado às novas tecnologias digitais.
Em contrapartida, países altamente dependentes da importação de GNL e mais sensíveis às oscilações de preços, como Paquistão e Bangladesh, poderão enfrentar restrições adicionais ao consumo de energia diante do aumento dos custos do combustível.
Flexibilidade do sistema elétrico ganha protagonismo
A expansão acelerada das fontes renováveis também tem provocado transformações relevantes nos mercados de energia. Um dos fenômenos observados pela IEA é o aumento da ocorrência de preços negativos da eletricidade em mercados atacadistas, reflexo da insuficiente flexibilidade operacional dos sistemas elétricos.
Esse cenário evidencia a crescente necessidade de investimentos em soluções capazes de aumentar a capacidade de resposta das redes elétricas, como sistemas de armazenamento em baterias, mecanismos de resposta da demanda e modernização regulatória dos mercados de energia.
As oscilações intradiárias dos preços da eletricidade tendem a se tornar mais frequentes à medida que a participação das renováveis cresce, reforçando a importância da flexibilidade como elemento central para garantir confiabilidade operacional e eficiência econômica.
Clima e emissões continuam no radar do setor elétrico
O relatório também alerta para a influência crescente dos fenômenos climáticos sobre as projeções do setor elétrico global. Um eventual fortalecimento do fenômeno El Niño em 2026 poderá ampliar a demanda por eletricidade em diversas regiões do mundo, principalmente em função do maior consumo de energia para refrigeração. Ao mesmo tempo, condições climáticas adversas podem reduzir a geração hidrelétrica e eólica em determinados mercados, elevando a necessidade de despacho de outras fontes de geração.
Em relação às emissões, a Agência Internacional de Energia estima que o setor elétrico registrará um aumento próximo de 1% nas emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) em 2026, reflexo do maior uso do carvão em alguns mercados após a alta do gás natural. Contudo, o crescimento contínuo das fontes renováveis e da geração nuclear deverá contribuir para estabilizar as emissões em 2027.
As projeções reforçam que o processo de eletrificação da economia global seguirá acelerado nos próximos anos. Nesse cenário, o equilíbrio entre expansão da oferta, segurança energética, flexibilidade operacional e descarbonização será determinante para a evolução dos sistemas elétricos em escala mundial.



