Nota técnica propõe ferramentas como o “Valor em Risco da Espera” para subsidiar a tomada de decisão antecipada de agentes e governos diante do El Niño 2026/27.
A recorrência e a severidade de eventos climáticos extremos têm imposto desafios sem precedentes ao planejamento, à operação e à resiliência das redes de energia. Diante de um cenário em que a mera capacidade de previsão meteorológica já não basta para evitar prejuízos bilionários, o especialista em energia, transição energética e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza estruturou uma abordagem metodológica inédita orientada a converter projeções climáticas em ações preventivas estruturadas antes que os impactos físicos se materializem nas operações das concessionárias, geradoras e transmissoras.
O arcabouço conceitual e operacional é o tema central da nota técnica “El Niño 2026/27: do risco à decisão, para governos e empresas“, elaborada em coautoria com Sergio Botton Barcellos. Tomando as projeções climáticas para o biênio 2026/27 como cenário de referência, o trabalho desenvolve um modelo de governança para riscos físicos associados ao clima, aplicável à tomada de decisão regulatória, governamental e corporativa de forma preventiva.
A tese defendida pelos autores sustenta que o verdadeiro ganho de resiliência reside na diferenciação prática entre prever e antecipar-se aos cenários de estresse hidrológico ou térmico. Ao analisar a necessidade de superação das respostas reativas que historicamente caracterizam o gerenciamento de crises de infraestrutura, Eric Fernando Boeck Daza destaca a importância da parametrização de protocolos objetivos: “Hoje, o desafio não é apenas prever melhor os eventos climáticos. O verdadeiro desafio é transformar essa informação em decisões prontas para serem executadas. Quando um alerta é emitido, governos e empresas precisam saber quem decide, quais recursos serão mobilizados, quais critérios serão adotados e quais ações deverão ser implementadas. É essa estrutura que buscamos oferecer.”
Engenharia do risco: Gatilhos objetivos e a métrica do “Valor em Risco da Espera”
A metodologia organiza o fluxo de contingência por meio de um encadeamento lógico que vincula alertas científicos a decisões corporativas pré-aprovadas. Cada sinalização de risco é atrelada a uma fonte oficial de monitoramento, a um gatilho métrico predefinido, a gestores específicos pela execução das salvaguardas, aos recursos financeiros ou logísticos necessários e ao registro de evidências técnicas para conferir rastreabilidade regulatória às decisões.
Adicionalmente, o estudo introduz no ambiente de finanças e planejamento energético o conceito de Valor em Risco da Espera (Value at Risk of Delay). Trata-se de uma métrica desenhada para quantificar financeiramente a inação deliberada ou a procrastinação no acionamento de planos de emergência. A ferramenta permite que Diretorias e Conselhos de Administração avaliem a exposição patrimonial, regulatória e de reputação decorrente do diferimento de decisões mitigadoras antecipadas.
O Índice Meridian de Prontidão Antecipada
Para que os agentes setoriais e reguladores possam mapear suas vulnerabilidades antes de períodos de estresse na matriz elétrica, a nota técnica apresenta o Índice Meridian de Prontidão Antecipada. O indicador avalia a maturidade de governos e companhias sob nove dimensões integradas de governança corporativa e resiliência de ativos:
- Definição clara de fontes oficiais de monitoramento;
- Parametrização de gatilhos operacionais;
- Atribuição explícita de responsáveis;
- Disponibilização prévia de recursos orçamentários e logísticos;
- Produção e guarda de evidências técnicas de suporte;
- Fluxo transparente de comunicação institucional;
- Redundância e resiliência de engenharia operacional;
- Cobertura contratual adaptativa a eventos de força maior;
- Realização de testes e simulados periódicos de estresse.
A abordagem do modelo de mitigação antecipada foi concebida de forma multissetorial, apresentando diretrizes adaptáveis não apenas para as redes de energia e grandes consumidores industriais, mas também para frentes do agronegócio, administração pública, saneamento básico, logística de transportes e para o mercado financeiro de capitais.
Ao projetar os desafios inerentes à nova realidade climática planetária, o especialista reitera que o gerenciamento preventivo precisa ascender aos comitês de planejamento estratégico das corporações e dos tomadores de decisão governamentais: “Os eventos climáticos extremos deixaram de ser episódios isolados para se tornar um fator permanente de risco. Quanto antes incorporarmos a antecipação aos processos de gestão, maior será nossa capacidade de proteger pessoas, preservar serviços essenciais, reduzir perdas econômicas e aumentar a resiliência das organizações.”
Para as organizações inseridas no mercado de capitais e na cadeia de infraestrutura de alta complexidade, a aplicação das decisões estruturadas surge como um novo paradigma de gestão ESG e mitigação de risco de crédito, conforme resume o desenvolvedor da metodologia: “As organizações não conseguem evitar que um evento extremo aconteça, mas podem decidir, com antecedência, como irão enfrentá-lo. Essa é a principal proposta da metodologia: transformar o risco em decisão antes que ele se transforme em impacto.”



