El Niño forte pressiona setor elétrico e eleva risco de atraso das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste

Fenômeno climático confirmado para o segundo semestre pode elevar a demanda por energia, reduzir a previsibilidade hidrológica e aumentar a dependência de usinas térmicas no Sistema Interligado Nacional

A confirmação de um evento de El Niño de forte a muito forte acendeu um sinal de alerta para o setor elétrico brasileiro. As projeções da Climatempo indicam que o fenômeno deve intensificar seus efeitos sobre o país entre a primavera e o verão, reproduzindo características observadas no ciclo de 2023, marcado por temperaturas recordes, irregularidade das chuvas e impactos relevantes sobre a operação do sistema energético.

Para os agentes do Sistema Interligado Nacional (SIN), o cenário representa um desafio adicional em um momento de expansão acelerada das fontes renováveis intermitentes e crescente demanda por eletricidade. O risco de atraso do período úmido nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis pela maior parte do armazenamento hídrico do país, pode alterar as estratégias de operação, elevar custos e aumentar a volatilidade no mercado de energia.

El Niño amplia incertezas sobre o regime de chuvas

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, fenômeno que modifica os padrões de circulação atmosférica e altera a distribuição das chuvas em diversas regiões do planeta. No Brasil, os efeitos previstos incluem precipitações acima da média na Região Sul, estiagem prolongada no Norte e Nordeste e temperaturas persistentemente elevadas no Centro-Oeste e Sudeste.

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A CEO da Climatempo, Patricia Madeira, destaca que o fenômeno exige uma mudança de postura na gestão de riscos climáticos: “A confirmação do El Niño muda o patamar de atenção para as empresas, governos e sociedade, já que não se trata apenas de acompanhar se vai chover mais ou menos ou fazer calor, mas de entender como a redistribuição das chuvas e o aumento das temperaturas podem afetar a vida das pessoas e cadeias produtivas inteiras.”

Setor elétrico enfrenta pressão simultânea sobre demanda e oferta

Os impactos do El Niño sobre o sistema elétrico ocorrem em duas frentes. A primeira está relacionada ao aumento da carga. Temperaturas acima da média tendem a impulsionar o consumo de energia em residências, comércios e indústrias, especialmente pelo uso intensivo de sistemas de refrigeração e climatização.

A segunda envolve a redução da previsibilidade hidrológica. O atraso das chuvas nas bacias hidrográficas do Sudeste e Centro-Oeste, região conhecida como a “caixa d’água” do sistema elétrico, pode comprometer a recuperação dos reservatórios e pressionar o planejamento da operação.

As bacias localizadas nessas regiões concentram cerca de 70% da capacidade de armazenamento hidrelétrico do país, tornando-se determinantes para a segurança energética nacional.

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Nesse contexto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) poderá ser levado a ampliar o despacho de usinas termelétricas para garantir o equilíbrio entre oferta e demanda, elevando o Custo Marginal de Operação (CMO) e aumentando a exposição dos consumidores aos encargos do sistema.

Logística, indústria e saneamento também entram no radar

Os efeitos do El Niño vão além do setor elétrico e podem provocar impactos relevantes sobre a infraestrutura e a atividade econômica.

Na Região Sul, a previsão de chuvas intensas eleva o risco de enchentes e deslizamentos, afetando rodovias, ferrovias e o escoamento de produtos agrícolas. Já no Norte do país, a perspectiva de estiagem prolongada pode comprometer a navegação fluvial e criar gargalos logísticos para o abastecimento da Zona Franca de Manaus, um dos principais polos industriais do país.

A escassez hídrica também pode pressionar setores intensivos em água, como mineração, construção civil e indústria de transformação, além de exigir maior atenção das companhias de saneamento na gestão de reservatórios e sistemas de abastecimento.

Inteligência climática ganha protagonismo na gestão de riscos

Diante de um ambiente de maior volatilidade climática, o uso de ferramentas preditivas e modelos meteorológicos avançados tende a se tornar um diferencial competitivo para empresas e gestores públicos.

O Head de Operações da Climatempo, Pedro Regoto, recomenda a revisão dos protocolos de gestão de riscos e dos planos de contingência: “A recomendação é que empresas e gestores públicos revisem planos de contingência, reforcem o acompanhamento de previsões de médio e longo prazo, avaliem vulnerabilidades regionais e integrem informações de inteligência climática às decisões operacionais.”

O especialista ressalta que, apesar das semelhanças com o evento de 2023, os impactos do fenômeno não devem ser interpretados de forma linear: “O El Niño aumenta o potencial para eventos mais severos, mas não é possível adiantar com tanta antecedência, sendo necessário o acompanhamento das previsões no curto prazo.”

Para o mercado de energia, a atualização contínua dos modelos de operação e a incorporação de dados meteorológicos de alta resolução serão fundamentais para calibrar estratégias comerciais, reduzir riscos de exposição e garantir maior previsibilidade em um cenário de elevada incerteza climática.

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