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Rio Grande do Sul mira cadeia de alto valor das terras raras e tenta se posicionar na transição energética global

Rio Grande do Sul mira cadeia de alto valor das terras raras e tenta se posicionar na transição energética global

Especialista avalia que vantagem competitiva do estado está na indústria, engenharia e processamento tecnológico, e não apenas na mineração de minerais estratégicos

A corrida global por minerais críticos entrou definitivamente na agenda industrial brasileira, e o Rio Grande do Sul tenta ocupar um espaço estratégico nessa disputa sem depender exclusivamente da abertura de grandes projetos de mineração. Em meio à crescente demanda internacional por terras raras, insumos essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos de defesa, o estado começa a ser enxergado como potencial elo tecnológico e industrial da cadeia global de valor da transição energética.

A avaliação é do especialista em energia e mudanças climáticas Eric Daza, que aponta uma mudança estrutural no eixo econômico do setor. Para ele, o valor agregado do mercado de terras raras está migrando da simples extração mineral para atividades de processamento químico, manufatura avançada e desenvolvimento tecnológico, áreas nas quais o Rio Grande do Sul reúne vantagens competitivas relevantes.

O debate ganha dimensão estratégica em um cenário de crescente preocupação internacional com segurança energética, soberania industrial e redução da dependência asiática no fornecimento de materiais críticos. Hoje, a China concentra a maior parte da capacidade global de refino e transformação de terras raras, etapa considerada o verdadeiro gargalo da cadeia produtiva mundial.

O valor está no processamento, e não apenas na mina

Embora o Brasil possua potencial geológico para minerais estratégicos, especialistas do setor alertam que a simples presença de reservas não garante protagonismo econômico na nova indústria da transição energética. O principal diferencial competitivo passou a ser a capacidade industrial de transformar esses elementos em componentes de alto desempenho.

Ao analisar essa mudança de paradigma, Eric Daza destaca que a lógica global do mercado deixou de premiar apenas os países exportadores de commodities minerais: “A mina é apenas o começo da cadeia. O verdadeiro valor está na capacidade industrial, tecnológica e de engenharia para transformar esses minerais em produtos de alto desempenho”

O especialista ressalta que o domínio chinês sobre o mercado internacional foi construído ao longo de décadas por meio de investimentos coordenados em infraestrutura química, metalurgia avançada e ciência dos materiais, e não exclusivamente pela presença de reservas naturais: “O mundo disputa hoje não apenas quem possui reservas minerais, mas quem consegue processar, transformar e fabricar componentes avançados. A China lidera porque construiu, durante décadas, capacidade industrial, química e tecnológica”

Essa concentração industrial passou a preocupar governos ocidentais diante do crescimento acelerado da demanda por equipamentos ligados à descarbonização, eletrificação da mobilidade e expansão das energias renováveis.

Rio Grande do Sul aposta na indústria e na engenharia

Dentro desse novo desenho geopolítico, o Rio Grande do Sul aparece como potencial plataforma industrial para segmentos associados às terras raras e aos minerais críticos. A avaliação do mercado é que o estado possui uma combinação relevante de ativos industriais, centros acadêmicos e demanda tecnológica capaz de atrair investimentos voltados à manufatura de componentes estratégicos.

A estrutura industrial gaúcha já concentra polos metalmecânicos, indústria química consolidada, universidades com tradição em engenharia e pesquisa aplicada, além de uma cadeia crescente ligada à energia renovável e à eletrificação industrial.

Na avaliação de Daza, o avanço de setores como hidrogênio verde, energia eólica e mobilidade elétrica tende a ampliar a demanda regional por componentes sofisticados produzidos a partir desses minerais: “O estado já está inserido nessa cadeia pela demanda. A expansão da energia eólica, do hidrogênio verde e da eletrificação da indústria automotiva aumenta a necessidade de motores, componentes eletrônicos e materiais avançados. Isso pode se transformar em oportunidade industrial”

Esse movimento ocorre paralelamente ao avanço de políticas públicas federais voltadas à estruturação da cadeia de minerais estratégicos no Brasil. Nos últimos meses, o BNDES e a Finep selecionaram dezenas de projetos ligados ao setor, enquanto a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos avança no Congresso Nacional como uma tentativa de criar segurança regulatória e estímulos para novos investimentos.

Ciência dos materiais ganha protagonismo na transição energética

Apesar da existência de estudos geológicos em regiões como Caçapava do Sul, especialistas avaliam que concentrar toda a estratégia regional apenas na mineração seria insuficiente para inserir o estado nos segmentos mais lucrativos da cadeia global. A tendência internacional aponta para uma valorização crescente da ciência dos materiais, da engenharia de precisão e da manufatura tecnológica como elementos centrais da competitividade industrial.

Ao abordar essa transformação, Eric Daza reforça que a nova economia energética será decidida principalmente na capacidade de inovação industrial: “Não se trata de ser contra a mineração. Trata-se de entender que o futuro dessa cadeia será decidido muito mais nos laboratórios, nas fábricas e na engenharia do que apenas no subsolo”

A mudança também amplia a dimensão geopolítica do tema. O debate sobre terras raras deixou de se restringir à agenda mineral ou ambiental e passou a integrar estratégias de defesa, autonomia industrial e segurança energética em economias avançadas: “O debate deixou de ser apenas ambiental ou mineral. Hoje envolve soberania industrial, defesa e segurança energética”

Transição energética amplia disputa por minerais estratégicos

A expansão acelerada da mobilidade elétrica, dos sistemas de armazenamento por baterias e da geração renovável está pressionando cadeias globais de suprimento e elevando a importância econômica dos minerais críticos.

Ímãs permanentes utilizados em turbinas eólicas e motores elétricos, por exemplo, dependem diretamente de elementos de terras raras processados com alto grau de pureza química. O mesmo ocorre em equipamentos eletrônicos, robótica industrial e sistemas militares avançados.

Nesse contexto, estados com capacidade industrial consolidada tendem a ganhar relevância mesmo sem liderança mineral absoluta. Para o especialista, o Rio Grande do Sul precisa aproveitar o atual momento de reorganização das cadeias globais para ocupar espaços de maior valor agregado: “A pergunta certa não é se o estado terá uma mina. A pergunta certa é como o Rio Grande do Sul pode participar dos elos da cadeia onde está o maior valor agregado”

Com a crescente corrida internacional por autonomia tecnológica e descarbonização, o mercado avalia que a disputa pelos minerais estratégicos tende a redefinir fluxos industriais, investimentos em inovação e políticas energéticas ao longo da próxima década.