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Geopolítica acelera rerrefino no Brasil e setor já evita saída de US$ 300 milhões em importações

Geopolítica acelera rerrefino no Brasil e setor já evita saída de US$ 300 milhões em importações

Em meio à instabilidade no Oriente Médio, avanço da economia circular no downstream fortalece segurança de abastecimento de lubrificantes e reduz dependência externa do país

A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado global de petróleo e derivados, reacendendo preocupações sobre a vulnerabilidade do abastecimento industrial brasileiro. Em meio ao risco de gargalos logísticos, oscilações cambiais e aumento da volatilidade no downstream, o rerrefino de lubrificantes começa a ocupar posição estratégica na política de segurança energética do país.

A reciclagem de óleo lubrificante usado, tecnicamente conhecida como rerrefino de OLUC (Óleo Lubrificante Usado ou Contaminado), deixou de ser tratada apenas como solução ambiental e passou a integrar a agenda de resiliência industrial e substituição de importações. Dados consolidados pela AMBIOLUC (Associação Ambiental para coleta, gestão e rerrefino do OLUC) apontam que a atividade evita anualmente a evasão de aproximadamente US$ 300 milhões em divisas, reduzindo a necessidade de importação de óleos básicos refinados.

O movimento ganha relevância em um momento no qual o Brasil segue estruturalmente dependente de fornecedores internacionais para suprir sua demanda interna de lubrificantes. Informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a produção doméstica de óleos básicos alcançou cerca de 646 milhões de litros em 2024, volume insuficiente para atender o consumo nacional.

Com isso, o país permanece exposto à importação de derivados oriundos principalmente dos Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio, regiões diretamente impactadas pelas atuais tensões geopolíticas e pelas incertezas nas rotas globais de suprimento.

Rerrefino ganha status de ativo estratégico no downstream

A combinação entre instabilidade internacional e necessidade de segurança de abastecimento impulsionou uma mudança de percepção dentro do setor energético. O rerrefino passou a ser tratado como uma espécie de reserva estratégica industrial, capaz de reduzir a exposição externa do Brasil em um segmento crítico para transporte, indústria pesada e maquinário agrícola.

O modelo brasileiro é considerado um dos mais avançados do mundo em logística reversa de lubrificantes. A legislação nacional determina a obrigatoriedade de coleta e reaproveitamento do óleo lubrificante usado, convertendo um passivo ambiental em matéria-prima para novos ciclos industriais. Na prática, o processo permite regenerar o resíduo pós-consumo em óleo básico de alta performance, inclusive produtos do Grupo II, categoria de maior valor agregado cuja produção doméstica depende essencialmente da rota de rerrefino.

Ao analisar os impactos geopolíticos sobre a cadeia de suprimentos, a presidente da AMBIOLUC e head de relações institucionais da Lwart Soluções Ambientais, Aylla Kipper, destaca que a dependência externa amplia a vulnerabilidade operacional da indústria brasileira: “A dependência de insumos importados torna a indústria brasileira mais vulnerável a eventos externos, como conflitos e restrições logísticas. O rerrefino é uma solução estratégica que combina segurança de abastecimento com ganhos ambientais”

A executiva ressalta ainda que o país já possui infraestrutura operacional e capacidade técnica suficientes para ampliar o peso da economia circular dentro do mercado de lubrificantes: “Temos uma cadeia estruturada de logística reversa e capacidade tecnológica instalada”

Além da substituição de importações, o reaproveitamento do óleo usado reduz a necessidade de extração de petróleo virgem e diminui emissões de gases de efeito estufa associadas ao processo tradicional de refino.

Expansão industrial reforça produção nacional de óleos básicos

A busca por maior autonomia no abastecimento vem sendo acompanhada por novos investimentos industriais no setor de rerrefino. Um dos principais movimentos do mercado está sendo conduzido pela Lwart Soluções Ambientais, que executa um plano de expansão de sua planta industrial voltado ao aumento da produção de óleos básicos do Grupo II.

A ampliação da unidade deve ser concluída no segundo semestre deste ano e terá como principal objetivo elevar a capacidade de regeneração de lubrificantes em escala industrial. A estratégia busca reduzir estruturalmente a dependência do mercado brasileiro em relação às importações de derivados refinados.

Segundo o setor, o avanço da capacidade instalada poderá funcionar como um mecanismo de blindagem para a cadeia logística nacional diante de cenários internacionais mais adversos.

Ao detalhar os impactos do investimento para o downstream brasileiro, Aylla Kipper reforça o papel da expansão industrial como instrumento de estabilidade para o abastecimento interno: “Com a ampliação, a Lwart contribui para o fortalecimento da cadeia local de lubrificantes e para o aumento da segurança de abastecimento em um cenário internacional instável”

Economia circular ganha protagonismo na segurança energética

O avanço do rerrefino também reflete uma mudança estrutural na lógica do downstream energético brasileiro. Em vez de depender exclusivamente da ampliação do refino tradicional, o setor começa a incorporar soluções de economia circular como ferramenta de resiliência industrial e mitigação de riscos externos. Esse movimento ocorre em paralelo à crescente pressão global por cadeias produtivas mais sustentáveis, redução de emissões e eficiência no uso de recursos naturais.

No setor de óleo e gás, a tendência aponta para uma integração cada vez maior entre segurança energética, gestão de resíduos e descarbonização industrial. A reciclagem química avançada passa, assim, a ocupar espaço relevante dentro da estratégia nacional de abastecimento de derivados.

Com a persistência das incertezas geopolíticas e a pressão sobre cadeias internacionais de suprimento, analistas do setor avaliam que a ampliação da capacidade brasileira de rerrefino poderá ganhar relevância não apenas ambiental, mas também macroeconômica e estratégica para a indústria nacional.