Projeto de P&D Aneel desenvolve o primeiro STAEB do país utilizando módulos descartados de veículos elétricos; sistema móvel atuará no alívio de picos sazonais e como backup em manutenções.
O crescimento exponencial da frota de veículos elétricos no Brasil ao longo da última década, que saltou de 2.875 emplacamentos em 2015 para 613.389 unidades registradas, segundo dados da NeoCharge, traz consigo um desafio logístico e regulatório iminente: o descarte de componentes químicos complexos. Diante de estimativas internacionais que projetam um acúmulo global superior a 20 milhões de toneladas de baterias descartadas até 2040, o gerenciamento desse passivo ambiental começa a ser desenhado como um ativo estratégico para o setor de distribuição de energia.
Em Santa Catarina, estado que concentra mais de 40 mil veículos dessa frota, a Celesc estruturou uma resposta tecnológica a esse cenário por meio do projeto “Energia Celesc A Bordo”. Trata-se de uma iniciativa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D), regulada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que foca no reaproveitamento de baterias de íons de lítio automotivas em sua fase de “segunda vida”. Nessa etapa, embora os módulos não apresentem mais a densidade energética exigida pelo desempenho dinâmico de um veículo, eles ainda retêm entre 70% e 80% de sua capacidade nominal de armazenamento.
A viabilidade técnica do projeto baseia-se na conversão desse volume remanescente em uma ferramenta de flexibilidade operativa para a rede elétrica. Atualmente na fase de testes de desempenho, o sistema foi concebido para atuar diretamente na mitigação de picos de demanda sazonais e na sustentação do fornecimento em áreas críticas do Estado.
O dimensionamento do impacto do descarte e a necessidade de antecipação regulatória foram destacados pelo presidente da Celesc, Edson Moritz, que ressalta a urgência de soluções estruturadas para o segmento: “Estamos lidando com um desafio que tende a crescer rapidamente nos próximos anos. A destinação dessas baterias precisa ser tratada desde já”.
Engenharia do STAEB: Integração móvel em média e baixa tensão
O núcleo tecnológico do projeto consiste no desenvolvimento do Sistema Transportável de Armazenamento de Energia em Baterias (STAEB). A solução foi montada em uma arquitetura de semirreboque tracionado, transformando o banco de baterias em uma subestação móvel de resposta rápida. O arranjo técnico do caminhão integra módulos de primeira vida a um banco principal de segunda vida, composto por células que operaram previamente no sistema de transporte público, acumulando uma rodagem equivalente a três voltas completas ao redor do planeta.
Para viabilizar a conexão física com o sistema de distribuição, o STAEB conta com inversores e um transformador de acoplamento embarcado. Essa configuração permite que a unidade móvel injete energia tanto em redes de baixa tensão (220/380 V) quanto nos troncos de média tensão (13,8 kV) da concessionária. A engenharia embarcada do sistema foi desenvolvida em regime de parceria tecnológica com a WEG, enquanto a customização da estrutura mecânica do semirreboque ficou a cargo da Truckvan.
A coordenação científica e a validação metodológica da tecnologia são conduzidas pelo Laboratório Fotovoltaica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sob a liderança da professora Helena Flávia Naspolini e do engenheiro Leonardo Freire Pacheco, da Celesc, uma equipe multidisciplinar de 19 pesquisadores e cinco técnicos da distribuidora opera nos ensaios de comissionamento e na análise dos ciclos de carga e descarga das células reaproveitadas.
Os impactos econômicos e o ganho de eficiência sistêmica proporcionados pelo novo modelo de armazenamento foram analisados pelo Diretor de Planejamento da Celesc, Lino Henrique Pedroni Junior, ao apontar o ineditismo da aplicação comercial da tecnologia: “Estamos criando uma solução que combina sustentabilidade com eficiência energética. É uma resposta prática a um problema que ainda está se formando no país”.
A convergência entre a governança ambiental e o incremento dos índices de qualidade do serviço de distribuição também foi defendida pela gerente do Departamento de Gestão de Projetos Estratégicos da Celesc, Débora Simoni Ramlow: “Ao integrar sustentabilidade, planejamento de longo prazo e pesquisa, desenvolvimento e inovação, o projeto transforma um passivo ambiental emergente em uma solução concreta para a qualidade e a resiliência do sistema elétrico, gerando valor direto para a sociedade”.
Flexibilidade operativa: Operação de backup e suporte a picos de demanda
Na dinâmica de campo, o STAEB atuará em duas frentes principais de melhoria dos indicadores de continuidade da distribuidora (DEC e FEC). A primeira aplicação está focada nas manutenções programadas da rede de distribuição. Em vez de interromper o fornecimento aos consumidores locais para que as equipes técnicas trabalhem em segurança, o caminhão do projeto é acoplado à rede do circuito afetado, assumindo de forma isolada a carga do trecho enquanto a linha principal permanece desenergizada.
A segunda modalidade de uso direciona a unidade móvel para o atendimento emergencial de cargas críticas, como hospitais, postos de saúde e serviços de segurança pública, em contingências provocadas por eventos climáticos extremos. O sistema atua como uma reserva de potência temporária até que os trabalhos de reconstrução dos ativos de rede sejam concluídos. Adicionalmente, a inserção de armazenamento distribuído na periferia do sistema auxilia no controle de reativos e no suporte de tensão durante os horários de ponta.
A quebra de paradigma na cadeia de suprimentos de ativos de rede foi detalhada pelo gerente do projeto na Celesc, Leonardo Pacheco, que conceitua o novo ciclo de valor do equipamento: “A bateria não deixa de ser útil quando sai do veículo. Ela passa a ter uma nova função dentro da infraestrutura energética”.
Já Roberto Kinceler, gerente da Divisão de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Celesc, explica o papel estratégico da inovação aberta no ecossistema de infraestrutura nacional: “Esse projeto mostra como a inovação pode antecipar desafios futuros, transformando possíveis passivos ambientais em uma solução concreta para aumentar a sustentabilidade e a resiliência do sistema elétrico”.
Produção acadêmica e validação internacional
O desenvolvimento do projeto “Energia Celesc A Bordo” também gerou dividendos para a formação de capital intelectual técnico no setor elétrico. O arranjo com a UFSC resultou, até o momento, na estruturação de quatro dissertações de mestrado concluídas, além do desenvolvimento em curso de duas teses de doutorado e uma dissertação adicional. No âmbito científico, foram publicados nove artigos em congressos nacionais e internacionais, com submissões direcionadas a periódicos internacionais de alto fator de impacto e ao Congresso Brasileiro de Energia Solar (CBENS 2026).
Antes mesmo de sua conclusão definitiva, o projeto obteve reconhecimento de mercado. A solução figurou como finalista brasileira no Prêmio CIER de Inovação em 2024 e no Prêmio O Setor Elétrico em 2025. Atualmente, os dados consolidados da operação do STAEB subsidiam uma nova candidatura da concessionária catarinense ao Prêmio CIER de Inovação 2027, posicionando o modelo de negócios de “segunda vida” como referência para a transição energética das distribuidoras do país.



