Infraestrutura azul e eólica offshore entram no radar de investimentos da transição energética

Estudo do iCS lançado na Brazil Climate Investment Week cobra integração de ativos costeiros, portos verdes e hidrogênio na lógica econômica do país

A pressão internacional por metas climáticas mais ambiciosas e a necessidade de acelerar a transição energética colocaram os oceanos e as zonas costeiras no centro de um debate estratégico para o desenvolvimento da infraestrutura brasileira. Em meio à expansão dos projetos de energia eólica offshore, hidrogênio de baixo carbono e modernização dos complexos portuários, especialistas e investidores defendem que o país incorpore definitivamente os ativos da chamada “economia azul” à estruturação de investimentos de longo prazo.

O cenário foi o núcleo dos debates do evento “Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações”, realizado em São Paulo durante a Brazil Climate Investment Week 2026. O encontro foi marcado pelo lançamento de um estudo inédito do Instituto Clima e Sociedade (iCS), que alerta para a baixa prioridade conferida pelo Brasil ao planejamento econômico do seu litoral, a despeito do vasto potencial energético e logístico da costa nacional.

O diagnóstico aponta que o país abriga aproximadamente 990 mil hectares de manguezais, a segunda maior área contínua do planeta, que atuam como ativos naturais reguladores de risco físico e vetores de captura de carbono. Contudo, a governança dessas regiões e o desenvolvimento de infraestruturas resilientes contra os efeitos de eventos climáticos extremos ainda ocupam espaço periférico nas decisões macroeconômicas.

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A diretora executiva do iCS, Maria Netto, pontuou que o ambiente costeiro precisa ser dissociado de uma visão puramente conservacionista e integrado às cadeias de valor da indústria e da energia: “O Brasil possui uma dependência enorme da zona costeira para atividades como turismo, pesca, transporte marítimo e energia. Só no Nordeste, os recifes de coral têm um potencial de mais de R$ 7 bilhões por ano em turismo e recreação. O objetivo do estudo é trazer o tema para a ‘economia real’, visto que o oceano é um motor econômico vital, e o litoral brasileiro reúne cerca de 18% da população nacional.”

Logística portuária e eólica offshore ancoram a economia azul

O redesenho da infraestrutura oceânica ganha urgência no momento em que o mercado global atrela o fluxo de capital ao desenvolvimento de portos verdes, rotas marítimas descarbonizadas e Soluções Baseadas na Natureza (SbN). No Brasil, o avanço regulatório do mercado de eólica offshore e os memorandos de entendimento para o hidrogênio verde posicionam o litoral como o principal hub de atração de capital climático nas próximas décadas.

Para mitigar os gargalos de governança e atenuar o que analistas classificam como “isolamento científico” da pauta, o debate setorial indica que o bioma marinho deve receber a mesma relevância técnica dedicada a outras fronteiras ecológicas do país. A capacidade do oceano de atuar na absorção de emissões antropogênicas confere à costa brasileira um valor comercial estratégico no mercado global de ativos ambientais.

O diretor executivo da Conservation International, Sebastian Troeng, ressaltou a janela de oportunidade que se abre para o posicionamento do Brasil na liderança deste ecossistema institucional: “Às vésperas de importantes conferências internacionais, o Brasil atravessa um momento decisivo para consolidar sua posição como referência global em sustentabilidade oceânica. A liderança brasileira se tornou uma agenda imediata, e nós trabalhamos para reforçar a compreensão de que o oceano é parte central do patrimônio nacional e um dos principais motores ambientais e econômicos do país.”

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Déficit de US$ 165 bilhões anuais restringe projetos globais

O financiamento estruturado continua sendo o principal gargalo para a consolidação da economia oceânica. Dados do World Economic Forum indicam que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), voltado à conservação e uso sustentável dos oceanos, permanece como a agenda com menor nível de captação financeira dentro do arcabouço global da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os cálculos apontam a necessidade de mobilizar US$ 175 bilhões anuais até 2030 para o cumprimento das metas globais conectadas ao mar. No entanto, no recorte de monitoramento mais recente, apenas US$ 10 bilhões foram efetivamente alocados por mecanismos multilaterais e privados, revelando uma lacuna de financiamento de US$ 165 bilhões por ano.

A coordenadora do programa Oceanos Sustentáveis para Todos da OCDE, Piera Tortora, enfatizou que o desafio do setor reside na modelagem de projetos financeiramente estruturados, bancáveis (bankable) e tecnicamente rastreáveis: “Observamos que o ODS 14 é o objetivo com menor financiamento, mas é encorajador constatar que tem havido muito interesse, embora nenhum desses mecanismos, isoladamente, seja suficiente. Há uma ampla gama de oportunidades, mas precisamos focar em como promover uma melhor governança, como fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências, como realmente avançar no aumento da resiliência, ampliar o acesso ao financiamento e, por último, mas não menos importante, como continuar os esforços em torno da cooperação global. Isso porque, como sabemos, os desafios dos oceanos são uma responsabilidade compartilhada, e há uma grande necessidade de garantir que o bom progresso que fizemos na governança internacional e nas agendas relacionadas aos oceanos continue.”

Mitigação de riscos físicos e resiliência de ativos industriais

A pauta de adaptação climática na costa também envolve a proteção física de ativos críticos como complexos industriais, terminais de regaseificação, portos e redes logísticas de escoamento de commodities. Eventos extremos, elevação do nível do mar e intrusão salina são monitorados por seguradoras e investidores devido ao potencial de interrupção operacional de curto prazo nas infraestruturas de energia e transportes.

Nesse contexto, ferramentas de planejamento territorial integrado, mapeamento de riscos físicos, seguros climáticos customizados e a restauração de barreiras ecológicas (como manguezais e restingas) deixam de ser tópicos voluntários e passam a figurar como estratégias de preservação de capital e mitigação de passivos regulatórios.

A escritora e velejadora Tamara Klink participou do fórum destacando o desafio sociocultural de conectar o público à realidade econômica dos oceanos: “É difícil ter empatia pelo oceano quando a gente conhece tão pouco. Muita gente ainda vê o mar só como água, como paisagem. O que quase não aparece é que, em cada gota de água do mar, existem milhões de seres vivos, e sem eles a vida no planeta não existiria.”

Com a aproximação da Conferência da Década do Oceano da ONU, agendada para ocorrer no Rio de Janeiro em 2027, o avanço da agenda oceânica deve ditar o ritmo das discussões sobre financiamento e transição de matriz energética no país. O desafio para o mercado brasileiro será converter esse patrimônio ecológico costeiro em uma estratégia econômica de infraestrutura estruturada de alta previsibilidade e retorno de longo prazo.

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