Estudo da Nottus aponta transição climática acelerada no Pacífico, com riscos de ondas de calor no Sudeste/Centro-Oeste e pressão hidrológica nas bacias do Norte e Nordeste.
O planejamento operacional do Sistema Interligado Nacional (SIN) ganha um novo e complexo componente para o segundo semestre. A possibilidade de formação do fenômeno El Niño trouxe um ponto de atenção para o setor elétrico brasileiro. Um estudo recente publicado pela Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios, aponta que o fenômeno pode elevar o risco de extremos climáticos e pressionar o sistema elétrico nos próximos meses.
A mudança no cenário meteorológico ocorre após o encerramento do episódio de La Niña no primeiro trimestre. De acordo com a análise, as condições do Oceano Pacífico Equatorial evoluem rapidamente para neutralidade, com elevada probabilidade de transição para El Niño entre maio e julho, tomando como base as previsões da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Embora ainda haja incerteza sobre a intensidade definitiva do fenômeno, a Nottus destaca que mesmo um evento de fraca ou moderada intensidade pode produzir impactos significativos em um planeta mais quente. Para o setor elétrico, o cenário exige atenção para planejamento operacional, gestão de carga e monitoramento hidrológico.
O fator aquecimento global e os novos patamares de consumo
Diferente de décadas passadas, o comportamento do El Niño agora interage com bases de temperatura global historicamente mais elevadas. Essa sinergia altera a percepção de risco dos agentes de mercado, que precisam calibrar seus modelos de previsão de carga e de Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) considerando picos de consumo atípicos.
O sócio-diretor e meteorologista da Nottus, Alexandre Nascimento, faz uma ponderação estrutural sobre essa nova dinâmica atmosférica: “O principal ponto não é discutir se teremos um El Niño forte ou muito forte, mas entender que eventos climáticos hoje acontecem em um contexto de aquecimento global, o que potencializa extremos meteorológicos e traz consequências em diversos setores como infraestrutura, consumo e energia”.
Assimetria regional: Pressão na carga e na geração hidrelétrica
Os impactos projetados pelo levantamento da Nottus desenham um cenário de dupla pressão sobre o SIN, afetando simultaneamente a oferta e a demanda de energia em diferentes submercados:
- Sudeste e Centro-Oeste: Pelo levantamento, as regiões Centro-Oeste e Sudeste podem registrar temperaturas acima da média no segundo semestre, com maior frequência de ondas de calor e aumento da demanda por refrigeração e consumo de energia elétrica.
- Norte e Nordeste: A tendência de redução das chuvas pode gerar pressão sobre recursos hídricos e afetar a geração hidrelétrica, reduzindo as vazões de importantes bacias e exigindo maior atenção com o nível dos reservatórios.
A análise do estudo destaca ainda que eventos recentes demonstram como extremos climáticos já impactam diretamente o setor elétrico brasileiro. Durante o último episódio de El Niño, entre 2023 e 2024, o país registrou recordes de demanda de energia associados às ondas de calor intensas e prolongadas, servindo como um recall importante para os tomadores de decisão da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Clima como ativo estratégico na tomada de decisão
A volatilidade climática consolida a meteorologia de precisão não mais como um insumo secundário, mas como uma ferramenta central de governança corporativa e de gerenciamento de riscos para geradoras, transmissoras, distribuidoras e comercializadoras.
Ao projetar os desafios de governança para o setor, Alexandre Nascimento reforça a necessidade de resiliência ativa por parte dos players do mercado: “A antecipação será decisiva para mitigar riscos e ampliar a resiliência do sistema elétrico diante de um cenário climático cada vez mais volátil. O clima deixou de ser só uma variável ambiental e passou a ser uma questão estratégica para diversos setores da economia, especialmente para o elétrico, que depende diretamente do comportamento hidrológico e das oscilações de temperatura”.
O levantamento da Nottus reúne análises sobre os cenários climáticos projetados para o período, critérios de monitoramento do El Niño e possíveis impactos econômicos e setoriais no Brasil, servindo de subsídio para as estratégias de hedge e operação energética no país.



