Boletim da EPE revela queda na demanda industrial e comercial, enquanto o Ambiente de Contratação Livre (ACL) já abocanha 45,1% do consumo nacional.
O balanço do último trimestre de 2025 consolidou um cenário de transformações estruturais na demanda por eletricidade no Brasil. De acordo com a 24ª edição do Boletim Trimestral do Consumo de Eletricidade, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo nacional manteve-se estável em comparação ao mesmo período de 2024. O dado surge em um momento de descompasso entre os setores econômicos, onde a resiliência do consumo residencial contrastou com retrações nos segmentos produtivos.
Embora o Produto Interno Bruto (PIB) tenha registrado expansão de 1,8% no período, impulsionado por um desempenho robusto da agropecuária (+12,1%), o reflexo no setor elétrico foi heterogêneo. O mercado viu o consumo residencial crescer 1,4%, ainda que em ritmo de desaceleração, enquanto as classes comercial e industrial amargaram quedas de 1,5% e 0,9%, respectivamente.
Desempenho Setorial e Conjuntura Econômica
A retração na classe comercial marca a continuidade de uma trajetória descendente observada ao longo de todo o ano de 2025. Apesar da queda, o ritmo foi menos severo do que o registrado nos trimestres anteriores, sinalizando uma possível busca por equilíbrio no setor de serviços, que cresceu 2% no PIB, mas não converteu integralmente esse ganho em demanda elétrica regulada.
No setor secundário, a indústria registrou seu segundo trimestre consecutivo de recuo. O decréscimo de 0,9% na demanda de eletricidade ocorre a despeito de um leve crescimento de 0,6% na produção industrial medida pelo PIB, sugerindo ganhos de eficiência energética ou uma mudança no perfil de carga das unidades fabris. Pelo lado da demanda macroeconômica, o boletim destaca que o suporte ao crescimento veio das exportações, que saltaram 14,2%, e do consumo do governo (+3,6%).
A Força do Mercado Livre e a Retração do ACR
O dado mais emblemático do relatório reside na segmentação por ambiente de contratação. O Ambiente de Contratação Livre (ACL) apresentou uma expansão de 4,5% no consumo, consolidando sua relevância estratégica ao atingir uma fatia de 45,1% do mercado total brasileiro. Esse movimento é o espelho oposto do Ambiente de Contratação Regulada (ACR), que registrou uma retração significativa de 3,5%.
Atualmente, as distribuidoras (ACR) respondem por 54,9% do consumo nacional. Essa dinâmica de vasos comunicantes reflete o processo contínuo de migração de consumidores, especialmente de média e alta tensão, para o mercado livre, em busca de gestão ativa de custos e flexibilidade contratual.
Análise Técnica e Disseminação de Dados
O Boletim Trimestral da EPE funciona como um instrumento de análise profunda que complementa a Resenha Mensal, permitindo que agentes do setor compreendam as nuances regionais e econômicas que moldam a carga. Ao disponibilizar esses dados, a estatal busca oferecer previsibilidade para o planejamento da expansão e para a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).
A integração entre os dados de consumo e a conjuntura econômica verificada no período é fundamental para que geradoras, comercializadoras e grandes consumidores ajustem suas estratégias de hedge e contratação para os anos subsequentes, especialmente em um cenário onde a agropecuária dita o ritmo do crescimento econômico nacional, mas o mercado livre dita as regras da demanda.



