CEO Reynaldo Passanezi critica distorções no modelo tarifário e defende revisão estrutural para destravar competitividade e atrair investimentos
O debate sobre o custo da energia elétrica no Brasil ganhou novos contornos nesta segunda-feira (23/03), após declarações do CEO da Cemig, Reynaldo Passanezi, durante o evento “Eloos: Cidades & Infraestrutura”. Em um diagnóstico direto sobre o setor, o executivo apontou que o país combina uma matriz de geração competitiva com tarifas elevadas ao consumidor final, pressionadas por encargos e subsídios.
A avaliação reforça uma crítica recorrente no setor elétrico: a desconexão entre o custo de geração e o preço efetivamente pago por consumidores residenciais e industriais, em um cenário de crescente complexidade regulatória e expansão de políticas públicas via tarifa.
“Impostos disfarçados de subsídios” pressionam tarifa
Ao abordar a composição da conta de luz, Passanezi destacou que parte relevante do valor pago pelo consumidor não está associada diretamente ao custo da energia, mas sim a encargos setoriais e subsídios cruzados.
Na leitura do executivo, esses mecanismos, muitas vezes utilizados como instrumentos de política pública, acabam elevando artificialmente a tarifa. Ao quantificar o impacto dessas distorções, o CEO da Cemig foi enfático: “Nosso preço médio é R$ 150. Sem esses subsídios, a tarifa seria até R$ 50 mais barata.”
A declaração explicita um dos principais dilemas do setor: como equilibrar políticas de incentivo, como subsídios a fontes renováveis ou programas sociais, sem comprometer a modicidade tarifária e a competitividade da economia.
Infraestrutura energética: gargalo para o crescimento
Além da questão tarifária, o executivo chamou atenção para o nível de investimento em infraestrutura elétrica no Brasil, que, segundo ele, permanece aquém do necessário para sustentar o crescimento econômico e a modernização do sistema.
Ao posicionar a energia elétrica como eixo estruturante do desenvolvimento, Passanezi ampliou o debate para além do setor energético: “A energia elétrica é a infraestrutura das infraestruturas. Sem ela, não há mobilidade, saneamento ou segurança. O Brasil está ficando para trás. O investimento médio do país em energia elétrica costuma ser de R$ 40 bilhões, enquanto outros países como China e Estados Unidos chegam a investir o dobro ou triplo disso.”
O argumento dialoga com uma agenda mais ampla de planejamento energético, que envolve expansão de redes, digitalização, resiliência climática e integração de novas tecnologias, como geração distribuída e armazenamento.
Minas Gerais como hub para economia digital
Apesar das críticas ao modelo tarifário, o CEO da Cemig sinalizou uma visão estratégica voltada à atração de novos investimentos, especialmente em setores eletrointensivos e de alta tecnologia, como data centers.
Segundo o executivo, Minas Gerais reúne condições estruturais favoráveis, incluindo disponibilidade de energia e robustez da rede elétrica. Ao reforçar o posicionamento comercial da companhia, Passanezi fez um convite direto ao mercado: “Pode vir que tem energia. Data-center que quiserem se estabelecer em Minas, podem vir.”
A sinalização ocorre em um momento de expansão acelerada da demanda por infraestrutura digital no Brasil, impulsionada por computação em nuvem, inteligência artificial e serviços digitais, todos altamente dependentes de fornecimento energético confiável e competitivo.
Tarifa, subsídios e competitividade: o debate estrutural
As declarações do CEO da Cemig recolocam no centro da agenda regulatória um tema sensível: o peso dos encargos setoriais na conta de luz.
No Brasil, componentes como subsídios a fontes incentivadas, programas sociais e custos de políticas públicas são frequentemente internalizados na tarifa, gerando um efeito distributivo complexo e, muitas vezes, regressivo.
Para agentes do setor, o desafio está em redesenhar esses mecanismos de forma mais transparente e eficiente, evitando distorções que comprometam a competitividade industrial e a atração de investimentos.
Ao mesmo tempo, o avanço de novas cargas, como veículos elétricos, hidrogênio verde e data centers, tende a intensificar a pressão sobre o sistema, exigindo planejamento integrado entre regulação, expansão de oferta e modernização da rede.
Perspectiva: revisão do modelo e atração de capital
O posicionamento da Cemig converge com uma percepção crescente no mercado: o Brasil possui vantagens estruturais na geração de energia, especialmente renovável, mas precisa avançar em reformas no modelo tarifário e regulatório para capturar plenamente esse potencial.
A revisão de subsídios, a ampliação de investimentos em infraestrutura e a criação de condições mais previsíveis para o capital privado aparecem como vetores centrais para o futuro do setor.
Nesse contexto, a fala de Passanezi não apenas critica o modelo atual, mas também aponta para uma agenda de transformação, na qual custo, segurança energética e competitividade caminham de forma integrada.



