Estimativas mais baixas para chuva e afluências pressionam planejamento energético e reforçam atenção para condições hidrológicas nos primeiros meses do próximo ano
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) revisou para baixo, nesta sexta-feira, as perspectivas para o nível dos principais reservatórios do país no fechamento de dezembro. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável por cerca de 70% da capacidade de armazenamento do Brasil e eixo central da segurança hídrica do Sistema Interligado Nacional (SIN), deve terminar o mês com apenas 45,3% de capacidade útil, ante os 46,3% previstos na semana anterior.
A revisão ocorre em um momento em que o setor acompanha de perto a evolução do período úmido, considerado determinante para a formação dos estoques que garantem a operação do sistema durante o verão e o início do inverno de 2026. A queda nas projeções amplia a atenção de agentes, consultorias e formuladores de políticas públicas sobre o ritmo das chuvas e o comportamento das afluências nas próximas semanas, variáveis que tradicionalmente carregam forte volatilidade nesta época do ano.
Chuvas abaixo da expectativa pressionam estimativas de armazenamento
Segundo o boletim mais recente divulgado pelo ONS, houve piora nas condições hidrometeorológicas que sustentam o cálculo para dezembro. As previsões de chuva foram ajustadas para baixo e, com isso, o operador também revisou as estimativas de energia natural afluente (ENA), indicador que mede a água disponível para geração nas hidrelétricas.
Para o Sudeste/Centro-Oeste, o ONS agora projeta ENA equivalente a 81% da média histórica, contra 89% estimados na semana anterior. No Sul, a ENA foi revista para 82% (ante 78%); no Norte, caiu para 79% (ante 82%); e no Nordeste, houve a redução mais significativa, para apenas 41%, frente aos 50% calculados anteriormente.
A deterioração da ENA no Sudeste/Centro-Oeste é particularmente relevante. Esse subsistema concentra as maiores hidrelétricas de regularização do país e é o principal responsável por estabilizar a operação do SIN em cenários de hidrologia adversa. Com afluências mais fracas, os reservatórios tendem a recuperar menos água ao longo do período úmido, reduzindo a margem de segurança para o restante do ano seguinte.
Setor monitora evolução do período úmido e possíveis impactos no planejamento
Embora o nível projetado de 45,3% esteja longe de uma situação crítica, o comportamento do período úmido ainda desperta atenção. Depois de anos consecutivos de condições hidrológicas favoráveis, 2024 e 2025 apresentaram maior variabilidade climática, influenciada por fenômenos como El Niño e La Niña, além de oscilações regionais de precipitação.
Especialistas do setor estimam que a combinação entre chuvas irregulares e consumo crescente pode exigir maior flexibilidade de despacho térmico e uso de outras fontes para garantir a segurança energética, sobretudo se o primeiro trimestre de 2026 mantiver um padrão abaixo do esperado.
Mesmo com a redução na previsão de armazenamento, o ONS reforça que a operação do sistema permanece estável. Não há, no momento, sinalização de risco estrutural de suprimento, em razão da diversificação da matriz elétrica, do avanço das fontes renováveis não hídricas e do aumento da capacidade instalada em parques solares e eólicos.
Demanda segue em alta e confirma tendência de crescimento
Apesar da piora das condições hidrológicas, a previsão de carga para dezembro foi mantida pelo ONS, refletindo o comportamento consistente do consumo no país. A expectativa é de que a demanda média atinja 83.890 MWmed, alta de 4,8% em relação ao mesmo mês de 2023, o mesmo percentual projetado na semana passada.
O crescimento da carga está associado à retomada da atividade industrial, às temperaturas elevadas e à expansão das cargas residenciais e comerciais, que mantiveram ritmo acelerado ao longo de 2024 e 2025.



