Dependência de combustíveis fósseis custa vidas e bilhões ao Brasil, aponta relatório da The Lancet

Estudo global revela que a poluição ligada ao carvão, petróleo e gás provoca 63 mil mortes anuais e perdas econômicas de R$ 268 bilhões; seca extrema e calor elevam pressão sobre a saúde e a produtividade

O Brasil paga um preço cada vez mais alto por sua dependência de combustíveis fósseis. Segundo o relatório The Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025, publicado pela prestigiada revista The Lancet, a poluição do ar relacionada à queima de carvão, petróleo e gás causa mais de 63 mil mortes prematuras por ano no país, além de gerar impactos econômicos estimados em R$ 268 bilhões, o equivalente a 2,4% do PIB nacional.

O documento, considerado um dos diagnósticos mais abrangentes sobre a interface entre clima e saúde, alerta que a crise climática já está custando vidas, empregos e recursos públicos, e que a falta de ação para reduzir o uso de combustíveis fósseis ameaça comprometer o futuro econômico e sanitário do país.

Poluição do ar e crise climática: uma dupla ameaça à saúde pública

De acordo com o levantamento, 24 mil das mortes anuais por poluição no Brasil estão diretamente ligadas à queima de combustíveis fósseis. A combinação de emissões tóxicas e aquecimento global tem ampliado o número de doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que pressiona o sistema de saúde.

- Advertisement -

Além das mortes, o relatório destaca o aumento expressivo da seca extrema, que se expandiu quase dez vezes desde a década de 1950. Hoje, 72% do território brasileiro enfrenta ao menos um mês de seca severa por ano. O fenômeno vem acompanhado da elevação do risco de incêndios florestais, que cresceu 10% na última década, e da exposição à fumaça de queimadas, responsável por 7.700 mortes anuais adicionais.

“O levantamento deste ano traça um retrato sombrio e inegável dos danos à saúde em todo o mundo — com recordes de calor, eventos extremos e fumaça de incêndios florestais ceifando milhões de vidas. A destruição de vidas e meios de subsistência continuará a crescer enquanto não superarmos nossa dependência dos combustíveis fósseis e acelerarmos a adaptação”, alertou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown na University College London.

O peso econômico do calor e das perdas de produtividade

Os efeitos econômicos da crise climática também se intensificam. Apenas em 2024, o Brasil perdeu 6,7 bilhões de horas potenciais de trabalho por conta do calor excessivo, especialmente nos setores de agricultura e construção civil. O prejuízo é estimado em R$ 91 bilhões (US$ 17,7 bilhões), quase 1% do PIB nacional.

O relatório mostra que o calor não é apenas um problema ambiental, mas um fator de estresse produtivo e financeiro, com impactos diretos na competitividade e na segurança alimentar. “A dependência de combustíveis fósseis agrava o aquecimento e perpetua um ciclo de vulnerabilidade econômica e social”, sintetiza o estudo.

- Advertisement -

Subsídios fósseis superam ganhos climáticos e atrasam a transição energética

Mesmo com avanços pontuais na matriz elétrica, uma das mais limpas do mundo, o relatório expõe a inércia na transição energética brasileira. Em 2023, o país teve uma receita líquida negativa de carbono, ao destinar R$ 24 bilhões (US$ 4,6 bilhões) em subsídios para combustíveis fósseis, montante superior à arrecadação de qualquer política nacional de precificação de carbono.

Entre 2016 e 2022, as emissões de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis caíram apenas 1,5%, e 77% da energia usada no transporte ainda vem de fontes fósseis. A eletrificação da frota avança de forma lenta, enquanto políticas de incentivo à mobilidade elétrica permanecem restritas.

“Já temos as soluções para evitar uma catástrofe climática, e comunidades e governos locais em todo o mundo estão provando que o progresso é possível. Mas precisamos manter o ritmo. Encerrar rapidamente o uso de combustíveis fósseis continua sendo a alavanca mais poderosa para desacelerar o aquecimento e proteger vidas”, reforçou Romanello.

Ela acrescenta que “o aumento da acessibilidade e da competitividade da energia limpa é uma oportunidade para reduzir os danos à saúde causados pelos combustíveis fósseis e redirecionar subsídios para um futuro mais saudável”.

Brasil vulnerável: secas, dengue e elevação do nível do mar

Os impactos climáticos se espalham por múltiplas frentes. O relatório mostra que o potencial de transmissão de dengue pelo mosquito Aedes aegypti aumentou 30% desde a década de 1950, impulsionado pelo aumento das temperaturas e da umidade.

Além disso, 1,08 milhão de brasileiros já vivem a menos de um metro acima do nível do mar, em regiões suscetíveis à elevação oceânica. A temperatura média da superfície do mar na costa brasileira subiu 0,65 °C em relação à média histórica de 1981–2010, ameaçando ecossistemas marinhos, cadeias pesqueiras e a segurança alimentar de comunidades litorâneas.

“Estamos vendo impactos múltiplos que se somam e geram uma cascata de danos que enfraquecem as bases sociais e econômicas da saúde. Esses prejuízos são o preço da omissão prolongada dos líderes globais — pago de forma mais severa por países vulneráveis que menos contribuíram para a crise”, ressaltou Stella Hartinger, diretora do Lancet Countdown Latin America.

Investir em energia limpa é investir em saúde e desenvolvimento

O relatório conclui que os custos humanos e econômicos da inação climática são cada vez mais evidentes, e que investimentos em energias renováveis, agricultura sustentável e adaptação urbana representam não apenas uma necessidade ambiental, mas uma estratégia de saúde pública e desenvolvimento econômico.

Para especialistas, a agenda climática precisa ser incorporada à política energética e industrial do país, redirecionando incentivos para a eletrificação do transporte, eficiência energética e fontes limpas. O desafio é alinhar crescimento econômico, justiça social e sustentabilidade, um tripé essencial para garantir qualidade de vida em um planeta em aquecimento.

Destaques da Semana

São Paulo mira economia de R$ 830 milhões com migração em massa para o Mercado Livre

Plano prevê levar 1,2 mil prédios públicos ao ACL...

ANEEL propõe endurecer regras da geração distribuída e abrir caminho para corte remoto de MMGD

Consulta pública amplia poder das distribuidoras, prevê auditorias obrigatórias...

CCEE enquadra Tradener em operação balanceada e reforça monitoramento no mercado de energia

Decisão amplia controle sobre contratos e exposição financeira do...

Artigos

Últimas Notícias