No Brazil Windpower 2026, executivos e representantes do setor apontam gargalos para integrar a geração renovável à demanda, atender novas cargas industriais e conciliar parques eólicos com comunidades locais
A expansão da geração renovável, a insuficiência da infraestrutura de transmissão e a necessidade de maior previsibilidade regulatória concentraram os debates do segundo dia do Brazil Windpower 2026, realizado nesta quarta-feira (28), no São Paulo Expo. Os participantes também discutiram a eletrificação da indústria, a conexão de cargas intensivas em energia, como data centers, e os critérios ambientais para avaliar o impacto acústico de parques eólicos.
O desafio central é ampliar a capacidade de escoamento da energia produzida, aproximar a geração dos centros de consumo e criar condições para novos investimentos. Na agenda socioambiental, a discussão se concentrou na adequação dos critérios de avaliação de ruído às características de cada empreendimento e na participação das comunidades afetadas.
Transmissão limita aproveitamento da geração renovável
A diferença entre o crescimento da capacidade instalada de geração e a expansão das redes foi apontada como um dos principais entraves à integração das fontes renováveis ao Sistema Interligado Nacional (SIN). De acordo com os dados apresentados no evento, a capacidade instalada renovável cresceu 40% em seis anos, ampliando a pressão sobre a infraestrutura necessária para transportar a energia até os centros de carga.
Para Glauco Freitas, diretor-geral no Brasil e diretor para a América Latina (Cone Sul) da Hitachi, a expansão das redes e a eletrificação são fundamentais para aproveitar a disponibilidade de energia renovável: “Hoje, temos uma matriz energética majoritariamente renovável, que cresceu 40% em seis anos. No entanto, existe uma grande lacuna: ainda não é possível garantir que a energia, barata, abundante e renovável, chegue aonde é necessária. A transmissão e a eletrificação são os principais viabilizadores da transição energética.”
Além da infraestrutura física, o debate destacou a importância dos sinais econômicos para orientar a localização de novos investimentos e aproximar a oferta da demanda. Rodrigo Borges, Market Lead Brasil da Aurora Research, defendeu maior clareza na precificação e a incorporação de novas tecnologias ao planejamento do setor: “Os investimentos em infraestrutura têm papel fundamental na orientação e na expansão do setor. É necessário planejamento, considerando o papel da transmissão, e trazer novas tecnologias para o Brasil, além de estabelecer um sinal econômico mais claro que reduza os custos e aproxime a demanda dos locais de geração.”
Na perspectiva do planejamento energético de longo prazo, Thiago Ivanoviski, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), associou a expansão da transmissão à segurança energética do país: “Não é possível fazer a transição energética sem transmissão, que conecta a geração à carga. É preciso começar a tratar essa agenda como uma estratégia nacional de soberania, amparada por investimentos contínuos e segurança regulatória.”
Eletrificação e data centers ampliam pressão sobre o sistema
A eletrificação da indústria e dos transportes foi apontada como uma oportunidade para transformar a oferta renovável em atividade econômica. Ao mesmo tempo, a entrada de novas cargas de grande porte, como data centers voltados à inteligência artificial, aumenta a necessidade de coordenação entre planejamento, infraestrutura e regulação.
Para Elbia Gannoum, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), a transição energética precisa ser tratada também sob a ótica econômica e estratégica, além dos compromissos climáticos: “Não basta o mundo saber que o planeta está aquecendo e passando por mudanças climáticas, pois a humanidade só se move por questões econômicas, principalmente os governos e os governantes. Não se trata mais apenas de clima, mas também de segurança e soberania energética.”
A capacidade de atender às novas demandas depende, entre outros fatores, de condições regulatórias compatíveis com a velocidade das transformações tecnológicas. Vitor Caram, diretor de Expansão LATAM da ODATA, destacou a necessidade de conciliar a estrutura técnica do setor elétrico brasileiro com a agilidade exigida por novos projetos: “O desafio do país é combinar a maturidade técnica e regulatória do setor elétrico brasileiro com a agilidade necessária para incorporar novas tecnologias e direcionar investimentos.”
Ruído de aerogeradores exige avaliações específicas
Os critérios para avaliar o impacto acústico dos parques eólicos também estiveram entre os temas do evento. A discussão abordou as limitações de estabelecer distâncias fixas entre aerogeradores e áreas habitadas, uma vez que a propagação do som varia conforme fatores como relevo, condições de vento e características dos equipamentos. Jarbas Amaro, especialista da Auren, sintetizou a questão ao destacar a complexidade da avaliação acústica: “O som não respeita raios fixos.”
O debate apontou a necessidade de considerar as particularidades de cada local na análise dos impactos, em vez de adotar apenas parâmetros uniformes de distanciamento. A avaliação técnica individualizada foi discutida em conjunto com a transparência dos estudos e o envolvimento das populações próximas aos empreendimentos.
Participação das comunidades entra na agenda ambiental
Além dos critérios técnicos, representantes da área ambiental ressaltaram a importância de aproximar as discussões sobre implantação de parques eólicos das comunidades potencialmente afetadas. Adroilzo Fonseca, secretário de Meio Ambiente da Paraíba, defendeu que o debate seja acessível à população local: “Essa discussão precisa chegar às pessoas; as comunidades precisam entender o que está sendo discutido.”
Já José Anchieta, presidente da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH/PE), também destacou a relação entre aceitação social e desenvolvimento dos projetos: “O melhor empreendimento é aquele de que a comunidade se apropria.”
As manifestações reforçaram a dimensão social do licenciamento ambiental, ao lado da avaliação dos impactos e da definição de medidas adequadas a cada empreendimento.
Previsibilidade regulatória é condição para investimentos
Os debates do segundo dia do Brazil Windpower convergiram para a necessidade de articulação entre governo, reguladores, operadores e agentes privados. A expansão da transmissão, a definição de sinais econômicos, a adaptação das regras às novas cargas e o aperfeiçoamento dos critérios socioambientais foram apontados como frentes relacionadas à viabilização de investimentos de longo prazo.
O encontro, contudo, não apresentou medidas regulatórias específicas aprovadas nem cronogramas de implantação para as soluções discutidas. Os pontos levantados representam desafios e propostas debatidos pelos participantes para ampliar a integração da geração renovável, atrair capital e compatibilizar o desenvolvimento dos empreendimentos com as demandas das comunidades.



