Inadimplência e modernização no setor de utilities: o impacto do Open Finance

Por Lenon Rodrigues, Diretor Executivo da Pagar

A transformação digital vem redefinindo a relação entre empresas, consumidores e serviços financeiros, criando oportunidades para tornar processos mais eficientes e acessíveis. No setor de utilities, especialmente na distribuição de energia elétrica, a inadimplência representa um desafio operacional e estratégico: compromete o fluxo de caixa, eleva os custos de cobrança e exige esforços contínuos de recuperação de crédito. Nesse contexto, a digitalização e o Open Finance podem contribuir para modernizar a arrecadação, facilitar a regularização de débitos e fortalecer a sustentabilidade financeira das empresas.

Historicamente, o relacionamento entre as empresas de utilities e seus clientes se concentrava na prestação do serviço e na emissão de faturas, com pagamentos realizados, muitas vezes, em canais físicos, como bancos e lotéricas. Esse modelo envolve custos e etapas adicionais que podem dificultar a quitação das contas. Com a evolução dos serviços financeiros digitais, tornou-se possível aproximar a cobrança dos hábitos dos consumidores e oferecer alternativas mais acessíveis.

A criação do Pix ampliou as possibilidades de pagamentos instantâneos, enquanto o Open Finance favoreceu a integração entre instituições financeiras e serviços de diferentes setores. Mediante autorização do cliente e conforme as regras aplicáveis, esse ecossistema permite compartilhar dados e conectar serviços financeiros, abrindo espaço para novas soluções de cobrança e pagamento.

- Advertisement -

Nesse cenário, as empresas de utilities podem integrar aplicativos, sites, e-mails, WhatsApp e SMS a diferentes meios de pagamento, como Pix, boletos e cartões. Essa conexão torna a regularização de débitos mais conveniente e pode reduzir os custos de arrecadação. Como referência, pagamentos em canais físicos podem custar até R$ 2,00 por transação, enquanto nos digitais o valor pode ficar abaixo de R$ 0,50, dependendo dos custos considerados. Além da economia operacional, a simplificação do processo ajuda a remover barreiras que dificultam o pagamento.

Open Finance na prática: da cobrança à confirmação do pagamento

Uma das principais aplicações do Open Finance é a iniciação de transações de pagamento. Por meio desse recurso, uma instituição autorizada pode iniciar uma operação a partir da conta do cliente mantida em outra instituição financeira, mediante consentimento e autenticação conforme os procedimentos de segurança exigidos. Na prática, o consumidor pode selecionar essa opção em um ambiente digital da empresa, autorizar a transação junto à instituição em que mantém sua conta e concluir o pagamento sem precisar preencher manualmente todos os dados da operação.

Essa funcionalidade pode ser incorporada aos canais de atendimento. Um lembrete enviado por e-mail ou WhatsApp, por exemplo, pode direcionar o cliente a um ambiente seguro para consultar a fatura e escolher como pagar. No aplicativo da distribuidora, ele pode verificar débitos pendentes, conferir valores atualizados e acessar condições de negociação. Se houver várias contas em atraso, o sistema pode reunir os valores e apresentar alternativas de regularização, incluindo parcelamentos quando previstos pela política da empresa.

- Advertisement -

A iniciação de pagamentos complementa métodos já conhecidos, em vez de substituí-los. Enquanto o Pix oferece rapidez na liquidação e o boleto atende quem prefere esse formato, o Open Finance permite integrar a autorização de uma transação bancária à experiência digital da empresa. A combinação dessas alternativas amplia as possibilidades de atendimento e permite que o consumidor escolha a opção mais adequada à sua realidade.

Os ganhos também se estendem à operação financeira. A integração entre sistemas de cobrança, pagamentos e conciliação permite automatizar tarefas, reduzir erros e agilizar a identificação dos valores recebidos. A conciliação consiste em relacionar os pagamentos às respectivas cobranças e atualizar os registros financeiros. Ao diminuir a necessidade de conferências manuais, as empresas podem direcionar suas equipes para situações que exigem análise individualizada, como negociações complexas e casos recorrentes de inadimplência.

Com informações mais organizadas sobre vencimentos, pagamentos e pendências, também é possível aprimorar a régua de cobrança, planejando comunicações específicas para cada etapa, desde lembretes preventivos até avisos de atraso e propostas de negociação. Indicadores como conversão de cobranças em pagamentos, custo por transação e tempo médio de regularização ajudam a avaliar os resultados e identificar oportunidades de melhoria.

Na distribuição de energia elétrica, esses avanços podem contribuir para reduzir despesas operacionais e melhorar o fluxo de recebimentos. É importante considerar, porém, que a tecnologia não elimina a inadimplência por si só, pois fatores como renda e capacidade de pagamento também influenciam o comportamento dos consumidores. Sua contribuição está em remover obstáculos operacionais e facilitar a regularização das contas sempre que houver condições para isso.

Para alcançar esses benefícios, é fundamental integrar os sistemas de cobrança, os canais digitais, o motor de pagamentos e as ferramentas de conciliação. Uma arquitetura baseada em microsserviços pode organizar funcionalidades como geração de cobranças, iniciação de transações e consulta do status dos pagamentos em componentes independentes. Essa estrutura favorece a escalabilidade e permite incorporar novas soluções gradualmente, sem exigir mudanças em toda a infraestrutura tecnológica.

A segurança deve acompanhar essa evolução. As operações no âmbito do Open Finance precisam respeitar as regras aplicáveis, incluindo consentimento, autenticação e atuação de instituições habilitadas. Por isso, as empresas de utilities precisam contar com soluções capazes de conectar os sistemas envolvidos e assegurar o tratamento adequado das informações financeiras.

A modernização do setor de utilities vai além da digitalização de faturas ou da oferta de novos canais eletrônicos. Ao combinar Open Finance, Pix, automação e integração de sistemas, as empresas podem tornar a arrecadação mais eficiente, reduzir custos e ampliar as alternativas de pagamento. O desafio é transformar essas possibilidades em resultados concretos, conciliando sustentabilidade financeira, segurança e uma relação mais simples e transparente com os consumidores.

Destaques da Semana

Vale, CSN e Gerdau compram gás da União em leilão inédito da PPSA

Mineradoras e siderúrgicas contrataram 320 mil m³/dia para entrega...

Eventos climáticos derrubam 191 torres de transmissão desde julho, diz ONS

Ocorrências atingiram linhas de 230 kV a 500 kV...

Paraguai atrai projeto de IA abastecido por Itaipu e amplia disputa por data centers

Parceria entre Crusoe e Araico prevê operação inicial em...

Artigos

Últimas Notícias