Por Juan Collado, Country Manager da Redinter no Brasil
O avanço das projeções de um episódio de El Niño de forte intensidade voltou a colocar as condições climáticas no centro dos debates sobre a segurança energética no Brasil. O fenômeno já está estabelecido no Pacífico equatorial e, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), há uma probabilidade superior a 90% de que o episódio seja classificado como muito forte durante o trimestre de setembro-outubro-novembro.
O setor elétrico já vem se preparando para esse cenário. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) adotou medidas preventivas para reforçar a segurança do suprimento diante dos possíveis impactos do fenômeno. Entre elas, destaca-se a antecipação de contratos de reserva de capacidade que adicionaram 1,8 GW de energia termelétrica ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Essas medidas demonstram que os efeitos de um fenômeno como o El Niño não podem ser analisados unicamente sob a perspectiva da geração. Em um sistema de dimensões continentais como o brasileiro, a capacidade de transportar energia entre regiões é parte fundamental da resposta às distintas condições hidrológicas e climáticas.
O SIN atende a mais de 99% da demanda elétrica do país e conecta regiões com características diferentes em relação a geração, consumo e disponibilidade de recursos. Essa configuração permite que o sistema aproveite a diversidade do território brasileiro e compense, por meio da transmissão, eventuais desequilíbrios regionais.
O El Niño evidencia a importância dessa característica. Seus efeitos sobre as precipitações e as temperaturas não são uniformes em todo o país. Enquanto algumas áreas podem registrar condições mais favoráveis para a geração, outras podem enfrentar redução das chuvas, temperaturas mais elevadas ou maior pressão sobre a demanda.
Nesse contexto, uma rede de transmissão robusta permite que a energia disponível em uma região seja utilizada em outra, aumentando a flexibilidade do sistema. A capacidade de intercâmbio entre diferentes áreas torna-se, portanto, uma ferramenta essencial para lidar com a variabilidade climática.
Essa característica ganha ainda mais relevância diante da transformação da matriz elétrica brasileira. Cerca de 85% da capacidade instalada de geração é renovável, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), e fontes como eólica e solar vêm ampliando sua participação, especialmente na região Nordeste.
Ao mesmo tempo, grande parte do consumo de eletricidade continua concentrada nas regiões Sul e Sudeste. A expansão das linhas de transmissão é o que permite conectar esses diferentes pontos do sistema e transportar a energia produzida nas áreas de maior disponibilidade até os centros de consumo.
Contudo, o debate sobre os efeitos do clima não se encerra na disponibilidade de energia. Fenômenos extremos também podem atingir diretamente a própria infraestrutura de transmissão.
Períodos de estiagem podem elevar o risco de queimadas e incêndios próximos às faixas de servidão das linhas, enquanto as ondas de calor elevam a demanda por eletricidade e submetem as instalações a um estresse operacional maior. Chuvas intensas, ventos fortes e descargas atmosféricas também demandam capacidade de monitoramento e resposta cada vez mais ágeis.
Por isso, a resiliência das redes precisa ser considerada desde o planejamento até a operação dos ativos. O monitoramento remoto, a digitalização, os sistemas de alerta e o acompanhamento das condições meteorológicas são ferramentas que auxiliam as companhias a antecipar riscos e reduzir impactos sobre a infraestrutura.
O desafio consiste em combinar essa capacidade de resposta a uma visão de longo prazo, que esteja na vanguarda tecnológica e seja financeiramente sustentável. A transformação da matriz elétrica e a maior frequência de eventos climáticos extremos tornam necessária a estruturação de uma infraestrutura capaz de operar sob as mais diversas condições de geração e demanda.
O El Niño reforça uma mudança importante na maneira de compreender a transmissão de energia. Linhas e subestações não são apenas o elo físico entre as usinas geradoras e os consumidores. Elas funcionam como uma infraestrutura de flexibilidade e resiliência, capaz de interligar diferentes regiões e permitir que o sistema responda a cenários adversos.
Em um país de dimensões continentais, com recursos energéticos distribuídos de maneira heterogênea e uma matriz cada vez mais renovável, essa capacidade ganha valor estratégico. A segurança do sistema não depende unicamente de quanta energia é possível gerar, mas também da capacidade de transportá-la de forma eficiente até onde ela é necessária.
O avanço do El Niño torna esse debate ainda mais urgente. Preparar o setor elétrico para enfrentar eventos climáticos extremos implica olhar para a geração, a operação e o consumo, mas também para a infraestrutura que interliga todo o sistema.
Investir em redes robustas, monitoradas e preparadas para as mais diversas condições climáticas é, portanto, parte indissociável da própria estratégia de segurança energética do país.



