Evento em Natal reúne mais de 500 participantes e formaliza Carta de Natal para defender segurança jurídica e atrair investimentos em infraestrutura digital; Rio Grande do Norte tem nove projetos de armazenamento em licenciamento ambiental
O armazenamento de energia por baterias e a instalação de data centers estão no centro das discussões sobre como aproveitar a expansão das fontes renováveis no Nordeste e reduzir perdas associadas às restrições de geração. Essa agenda marcou o Energy Storage Brasil e a primeira Data Center Conference, realizados pelo Grupo FRG entre 21 e 23 de outubro, em Natal (RN), com mais de 500 participantes.
Os debates reuniram representantes do setor elétrico, investidores, empresas de tecnologia e agentes públicos em torno de dois desafios: ampliar a flexibilidade operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN) e atrair cargas intensivas em eletricidade para regiões com oferta de geração renovável. O encontro também resultou na assinatura da Carta de Natal, iniciativa voltada ao aprimoramento do ambiente regulatório e à atração de investimentos em infraestrutura digital.
Nove projetos de baterias estão em licenciamento no RN
No segmento de armazenamento, a agenda abordou modelos de financiamento, regulamentação e licenciamento de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS). A tecnologia pode contribuir para deslocar energia no tempo, prestar serviços de flexibilidade e reduzir o desperdício de geração eólica e solar quando há restrições para escoamento ou atendimento da demanda.
O Rio Grande do Norte já tem nove projetos de armazenamento em baterias em fase de licenciamento ambiental, segundo as informações apresentadas no evento. O dado sinaliza o interesse em desenvolver a tecnologia no estado, embora não represente, por si só, garantia de implantação ou de entrada em operação dos empreendimentos.
A viabilidade dos projetos depende de fatores como regras de contratação e remuneração, custos dos equipamentos, conexão à rede e definição dos serviços que poderão ser prestados ao sistema elétrico.
Carta de Natal busca atrair investimentos em data centers
Na frente digital, a Carta de Natal foi articulada pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN), com apoio de entidades empresariais. O documento estabelece um compromisso multissetorial para aperfeiçoar o ambiente regulatório, ampliar a segurança jurídica e estimular o capital privado destinado à infraestrutura de data centers.
A disponibilidade de energia renovável é um dos atributos do estado para disputar investimentos em centros de processamento de dados e aplicações de inteligência artificial. A atração desses empreendimentos, contudo, também exige capacidade de conexão, fornecimento confiável, infraestrutura de telecomunicações e previsibilidade regulatória.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Luís Tossi, destacou a combinação entre recursos energéticos e articulação institucional como fator de atração de negócios: “O Brasil vive um momento estratégico para o desenvolvimento da infraestrutura digital, com a oportunidade de atrair grandes investimentos internacionais e ampliar sua participação na economia digital. Eventos como o Data Center Conference são fundamentais para aproximar empresas, investidores, fornecedores e poder público, permitindo identificar desafios e construir soluções conjuntas para um crescimento sólido e sustentável do setor. O estado do Rio Grande do Norte reúne vantagens competitivas importantes, especialmente pela disponibilidade de energia renovável e vem se preparando com políticas públicas e coordenadas com os stakeholders locais para a atração dos investimentos para o estado. Iniciativas como essa ajudam a transformar esse potencial em oportunidades concretas de investimento e desenvolvimento econômico para a região e para o Brasil.”
Integração entre baterias e cargas digitais
A combinação de geração renovável, armazenamento e consumo de data centers foi apontada no encontro como uma oportunidade de ampliar o aproveitamento local da energia produzida no Nordeste. Baterias podem ajudar a administrar diferenças entre os horários de geração e consumo, enquanto novas cargas podem criar demanda para parte da eletricidade disponível. Essa integração, porém, não elimina automaticamente o curtailment. O efeito depende da localização dos projetos, da capacidade de conexão e transmissão, do perfil de operação das baterias e da demanda efetiva dos centros de dados.
O CEO do Grupo FRG e presidente do Conselho da World Carbon Association (WCA), Tiago Fraga, resumiu a proposta de aproximação entre os dois segmentos: “A integração entre o armazenamento de energia por baterias e a nova infraestrutura de data centers representa um divisor de águas.”
Para a indústria local, o desafio é converter a disponibilidade de geração em atividade econômica, com investimentos produtivos e empregos. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), Roberto Serquiz, defendeu esse avanço: “Somos um estado de energia verde e precisamos dar o próximo passo, que é transformar energia em indústria, tecnologia, investimentos, empregos e desenvolvimento.”
Próxima edição está prevista para maio de 2027
O Grupo FRG confirmou a segunda edição da Data Center Conference para 19 e 20 de maio de 2027, novamente na sede da FIERN, em Natal. O encontro deverá acompanhar a evolução das discussões regulatórias e dos investimentos em infraestrutura digital.
A agenda de armazenamento também dependerá dos avanços regulatórios e da estruturação de modelos de negócio que permitam remunerar os serviços prestados pelas baterias. Para o Nordeste, a convergência entre esses segmentos abre uma frente de desenvolvimento, mas sua materialização dependerá da conexão entre projetos, demanda, rede elétrica e condições econômicas.



