Parceria entre Crusoe e Araico prevê operação inicial em 2027 e expansão para 280 MW; campus de maior porte planejado no país reforça a competição regional por energia e infraestrutura digital
O Paraguai busca transformar a disponibilidade de energia hidrelétrica em vantagem para atrair investimentos em inteligência artificial (IA) e computação em nuvem. A americana Crusoe e a paraguaia Araico anunciaram uma parceria para instalar infraestrutura de processamento de alto desempenho abastecida por energia de Itaipu, com início de operação previsto para meados de 2027.
A fase inicial terá 106 MW de capacidade de tecnologia da informação (TI), segundo a Crusoe, que prevê possibilidade de expansão para aproximadamente 280 MW de capacidade total. O projeto atenderá clientes de computação em nuvem dos Estados Unidos e da América Latina. O valor do investimento não foi divulgado oficialmente.
O anúncio ocorre em meio à disputa internacional por instalações de grande porte para treinamento e execução de modelos de inteligência artificial. Nesse mercado, a disponibilidade de energia, o custo do suprimento e o prazo para conexão à rede influenciam a escolha dos locais de implantação.
Energia de Itaipu sustenta estratégia de atração de investimentos
A parceria foi anunciada durante visita ao Paraguai do vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, que incluiu uma agenda na usina binacional de Itaipu. O governo paraguaio busca ampliar investimentos em setores intensivos em energia e agregar valor econômico à sua disponibilidade hidrelétrica.
A Crusoe adota uma estratégia de instalar infraestrutura computacional próxima a fontes de energia abundantes. No Paraguai, a proximidade do empreendimento com uma subestação de Itaipu é parte da configuração anunciada para o projeto. A expansão, contudo, dependerá da execução dos investimentos e das condições de fornecimento e conexão elétrica. A capacidade anunciada para a parceria não representa, por si só, consumo já contratado ou carga integralmente conectada.
Em paralelo, a Araico planeja o campus Iguazi AI City, apresentado no release como um projeto de longo prazo com capacidade potencial de até 1,3 GW. Essa meta deve ser tratada separadamente da expansão prevista para a instalação da Crusoe, cujo horizonte divulgado é de aproximadamente 280 MW.
Paraguai e Brasil disputam investimentos em infraestrutura digital
A disponibilidade de energia hidrelétrica é um dos fatores usados pelo Paraguai para atrair grandes consumidores. O avanço dos data centers, porém, exige também redes de transmissão e distribuição capazes de atender cargas elevadas, além de estabilidade no fornecimento e previsibilidade regulatória.
No Brasil, a discussão sobre competitividade inclui incentivos fiscais e condições para implantação de novos centros de processamento. Em setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.504, que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), com benefícios tributários vinculados a contrapartidas, entre elas o uso de energia de fontes renováveis ou de baixa emissão.
O CEO da Scala Data Centers, Marcos Peigo, avalia que a política tributária pode influenciar a distribuição regional dos investimentos em infraestrutura digital: “O país poderá alcançar 1 GW de capacidade em data centers antes do Brasil caso o mercado brasileiro não avance na implementação de incentivos tributários estaduais para a indústria.”
A comparação, entretanto, depende de fatores além da tributação, como disponibilidade de energia, prazo de conexão, oferta de terrenos, acesso à infraestrutura de telecomunicações e condições de financiamento. A capacidade anunciada para projetos futuros também não equivale à capacidade efetivamente instalada e em operação.
Contratos e disponibilidade de energia são pontos de atenção
A expansão de grandes cargas no Paraguai abre uma discussão sobre o crescimento do consumo interno e a destinação da energia de Itaipu, empreendimento compartilhado com o Brasil. O país tem direito à metade da energia produzida pela usina, conforme o arranjo binacional, e a utilização dessa parcela por novos consumidores pode ganhar relevância à medida que a demanda doméstica aumenta.
Isso não significa, automaticamente, redução equivalente da energia disponível ao Brasil. Os efeitos dependem da energia efetivamente contratada, da evolução do consumo paraguaio e das regras aplicáveis à comercialização da produção de Itaipu. Também permanecem relevantes as condições comerciais do fornecimento. A imprensa paraguaia informou que os detalhes do contrato de energia para o projeto não constavam do anúncio oficial da parceria.
A execução dos empreendimentos e a estruturação do suprimento elétrico serão determinantes para dimensionar o impacto sobre o sistema paraguaio e as implicações para o mercado regional. Por enquanto, os anúncios indicam uma estratégia de atração de cargas intensivas em energia, mas não permitem concluir que haverá alteração imediata nos volumes destinados ao Brasil.


