Tribunal aponta R$ 2,5 bilhões em gastos com a usina paralisada entre 2024 e meados de 2026 e déficit de R$ 400 milhões para concluir a extensão da vida útil de Angra 1. Crise financeira da Eletronuclear também afeta a cadeia de combustível nuclear.
O Tribunal de Contas da União (TCU) estabeleceu um prazo de até 240 dias para que o governo federal conclua a análise sobre o futuro de Angra 3. A decisão prevê duas etapas de 120 dias: a primeira para consolidar os estudos técnicos e econômicos e encaminhá-los ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE); a segunda para que o colegiado delibere sobre a retomada ou o abandono programado do empreendimento.
A determinação ocorre em meio à deterioração financeira da Eletronuclear. Entre 2024 e meados de 2026, a manutenção do canteiro de obras paralisado e o serviço da dívida consumiram R$ 2,5 bilhões. Paralelamente, a estatal ainda precisa viabilizar R$ 400 milhões para concluir as intervenções de extensão da vida útil de Angra 1.
O quadro amplia a pressão sobre o planejamento da geração nuclear brasileira, com reflexos sobre a capacidade de investimento da operadora e a sustentabilidade financeira de empresas que integram a cadeia do combustível nuclear.
Angra 3 concentra passivos e pressiona a Eletronuclear
A paralisação de Angra 3 mantém custos anuais próximos de R$ 1 bilhão, mesmo sem avanço efetivo das obras. A despesa compromete o caixa da Eletronuclear e reduz a margem financeira para atender a outros compromissos operacionais e de investimento.
Em 2025, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 142 milhões e índice de liquidez corrente de 0,76, indicador que aponta insuficiência de ativos circulantes para cobrir integralmente as obrigações de curto prazo.
O peso de Angra 3 também aparece na estrutura de endividamento da estatal. De acordo com o relator do processo no TCU, ministro Benjamin Zymler, mais de 90% dos empréstimos e financiamentos de longo prazo da empresa, em montante superior a R$ 5,7 bilhões, estão associados ao empreendimento.
A definição sobre a usina é, portanto, uma decisão com consequências financeiras que vão além do custo de conclusão das obras. A continuidade da paralisação também exige recursos para manter a estrutura e administrar o passivo acumulado.
Angra 1 ainda precisa de R$ 400 milhões
A situação de Angra 1 teve um alívio parcial com a capitalização da Eletronuclear. Em agosto de 2026, a Axia Energia integralizou R$ 1,5 bilhão em debêntures conversíveis em ações, vinculadas ao acordo de conciliação entre a União e a companhia no âmbito da ADI 7.385.
A operação reforçou a disponibilidade de recursos da estatal, mas não cobriu integralmente as necessidades financeiras do programa de extensão da vida útil da usina. Segundo os dados apresentados no processo, ainda faltam R$ 400 milhões para concluir as intervenções previstas.
O déficit mantém a necessidade de novas soluções de financiamento para assegurar a continuidade do projeto, enquanto a Eletronuclear enfrenta os custos associados a Angra 3 e às demais obrigações de sua operação.
Crise financeira alcança a cadeia do combustível nuclear
Os efeitos da situação financeira da Eletronuclear também atingem as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), responsável por etapas estratégicas do ciclo do combustível nuclear. Cerca de 99% das receitas da INB dependem da relação comercial com a geradora. Em 2025, os atrasos nos pagamentos da Eletronuclear ultrapassaram R$ 400 milhões, contribuindo para um prejuízo líquido de R$ 156 milhões na fornecedora.
A inadimplência também pressionou os compromissos com fornecedores internacionais de matéria-prima. Diante do risco para a continuidade das atividades, a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar), controladora da Eletronuclear e da INB, precisou realizar aportes financeiros para preservar operações estratégicas do ciclo do combustível.
O caso evidencia que a indefinição sobre Angra 3 e as restrições de caixa da geradora não se limitam à execução de um empreendimento. A situação afeta o fluxo financeiro entre empresas públicas que desempenham funções complementares no setor nuclear.
Prazo do TCU envolve MME, BNDES, Aneel e EPE
O cronograma fixado pelo TCU distribui as responsabilidades entre os órgãos envolvidos na avaliação do projeto. Na primeira etapa, o Ministério de Minas e Energia (MME), em conjunto com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a Eletronuclear e a ENBPar, terá até 120 dias para atualizar e disponibilizar ao CNPE os estudos técnicos e econômicos necessários à decisão.
Concluída essa fase, o conselho terá mais 120 dias para deliberar sobre o futuro da usina. A decisão deverá definir se o empreendimento será retomado ou se será adotado um plano de abandono. O prazo estabelece um horizonte para encerrar a indefinição sobre Angra 3, mas a decisão final terá de considerar os custos de cada alternativa, o passivo financeiro acumulado e os recursos necessários para viabilizar a escolha do governo.



