Descompasso entre geração e transmissão, cortes de energia limpa na China e barreiras comerciais ameaçam interromper cinco anos de recordes de capacidade instalada
A expansão global da capacidade de energia renovável deve desacelerar em 2026, após cinco anos consecutivos de recordes. O principal entrave é a dificuldade das redes de transmissão e distribuição para acompanhar a entrada de novos parques eólicos e solares, problema agravado por barreiras comerciais e incertezas nas cadeias de suprimento.
A previsão foi apontada pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), Francesco La Camera, em entrevista à Reuters nesta terça-feira (27). O avanço de outros mercados não deve compensar a desaceleração chinesa, e a agência não apresentou uma estimativa numérica para as adições globais de 2026.
Em 2025, o mundo adicionou um recorde de 692 gigawatts (GW) de capacidade renovável, alta de 15,5% em relação ao ano anterior. O total instalado chegou a 5.149 GW, equivalente a cerca de 49% da capacidade global de geração elétrica, segundo dados da Irena.
China concentra o principal gargalo
A China, maior mercado de energia renovável, está no centro da desaceleração. A expansão da geração tem esbarrado na capacidade de escoamento da rede, levando ao curtailment, corte de produção de usinas que poderiam gerar energia, mas enfrentam restrições operativas ou de transmissão.
No primeiro semestre de 2026, o volume de energia renovável que deixou de ser aproveitado na China por limitações da rede foi equivalente ao consumo anual do México, de acordo com informações reportadas pela Reuters. O cenário evidencia que a instalação de novos parques, por si só, não garante o aproveitamento da energia produzida.
Dificuldades de conexão e integração também afetam mercados como Austrália e Japão. Nesses países, a expansão de projetos renováveis pressiona redes cuja ampliação pode levar mais tempo do que a implantação das usinas.
Transmissão e flexibilidade ganham peso
O descompasso entre geração e rede expõe uma questão estrutural da transição energética: a infraestrutura precisa avançar em conjunto com a capacidade instalada. Sem reforços na transmissão e distribuição, parte da energia disponível pode ser cortada, enquanto novos projetos enfrentam atrasos para obter conexão.
A ampliação da rede não é a única resposta possível. Armazenamento, maior flexibilidade operativa e uso mais eficiente da infraestrutura existente também podem ajudar a integrar fontes variáveis, como solar e eólica. A Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que mais de 2.500 GW em projetos de geração renovável, armazenamento e grandes cargas estavam em filas de conexão em todo o mundo, evidenciando a dimensão do desafio.
Segurança energética enfrenta limites de infraestrutura
A instabilidade nos mercados de petróleo e gás reforça o interesse dos países em fontes domésticas de energia, incluindo renováveis. No entanto, a capacidade de acelerar essa substituição depende também de redes capazes de transportar a eletricidade até os centros de consumo.
A desaceleração prevista para 2026 ocorre em um momento de pressão por cortes mais rápidos nas emissões globais. Para sustentar a expansão renovável, será necessário combinar novos projetos de geração com investimentos em transmissão, distribuição e armazenamento, além de reduzir entraves de conexão e fornecimento de equipamentos.



