Por Vinícius Curi, líder financeiro da Tecnogera
Por muito tempo, falar em segurança energética dentro das empresas significava pensar no que fazer depois que a energia faltasse. Buscava-se um gerador quando a emergência já estava instalada, a produção já havia parado e os prejuízos eram computados. Esse comportamento está mudando.
Os sucessivos episódios de interrupção no fornecimento em cidades como São Paulo ajudam a explicar essa transformação. Em novembro de 2023, mais de 2,1 milhões de consumidores foram afetados por um grande apagão. Em outubro de 2024, um novo evento provocado por fortes ventos atingiu mais de 2 milhões de clientes da distribuidora na região metropolitana. Em dezembro de 2025, outro evento climático deixou novamente mais de 2 milhões de consumidores sem energia.
O impacto vai muito além de ficar no escuro. Para uma indústria, significa linha de produção parada. Para o agronegócio e a indústria de alimentos, pode representar perda de produtos. No varejo, são vendas que deixam de acontecer. Em um data center, uma interrupção pode comprometer sistemas e serviços. Na construção, pode significar equipamentos parados e cronogramas comprometidos.
É diante desse cenário que a segurança energética começa a mudar de lugar dentro das empresas: de uma questão operacional para uma decisão de negócio. A pergunta deixa de ser apenas “o que faremos se faltar energia?” e passa a ser “quanto da nossa operação precisa continuar funcionando se a rede falhar e por quanto tempo?”.
Essa mudança também acompanha um cenário internacional mais complexo. Tensões geopolíticas, rupturas nas cadeias de suprimentos e a necessidade de conciliar segurança do abastecimento e transição energética colocaram a disponibilidade de energia novamente no centro das discussões estratégicas.
No Brasil, uma pesquisa da PoderData encomendada pela Eneva mostrou que 74% dos entrevistados consideram que o país deveria investir mais em segurança energética,enquanto 72% apontaram a diversificação da matriz como caminho para ampliar a segurança do fornecimento. Embora seja uma pesquisa com a população em geral, e não especificamente com executivos, o dado ajuda a demonstrar que o tema ultrapassou o universo técnico e ganhou espaço no debate econômico e social.
Na prática, essa nova mentalidade significa incorporar a possibilidade de interrupção ao planejamento. Geradores de energia, usinas temporárias, sistemas de baterias e outras soluções de contingência passam a ser avaliados não apenas como recursos para situações emergenciais, mas como instrumentos para preservar operações críticas, reduzir exposição a perdas e dar previsibilidade à continuidade dos negócios.
Isso não significa escolher entre sustentabilidade e segurança. Ao contrário: significa reconhecer que a transição energética precisa caminhar acompanhada de resiliência e disponibilidade. A estratégia pode combinar diferentes tecnologias e fontes de energia de acordo com o perfil, a criticidade e o período de operação de cada negócio.
A principal mudança, portanto, talvez não esteja na tecnologia, mas na forma de pensar. Esperar a emergência para buscar uma solução é uma estratégia reativa. Conhecer os riscos, dimensionar a demanda e definir previamente como a operação será mantida é estratégia de continuidade.
A segurança energética começa antes de a energia faltar. Para empresas que não podem parar, preparar-se para o imprevisto deixou de ser apenas uma precaução: passou a fazer parte da estratégia de negócio.



