El Niño na primavera: chuvas no Sul e seca no Norte exigem atenção à segurança energética para 2027

Previsão da Tempo OK aponta fortes contrastes regionais na estação que começa nesta segunda-feira (21). Enquanto o Sul e parte do Sudeste lidam com excesso de chuvas e risco de cheias, bacias estratégicas do SIN podem enfrentar recuperação limitada dos reservatórios.

A chegada da primavera, marcada para esta segunda-feira (21) às 21h05 (horário de Brasília), consolida um cenário de fortes contrastes hidrometeorológicos em todo o território nacional. Sob a influência de um fenômeno El Niño classificado como muito forte, a estação combinará volumes expressivos de precipitação no Sul com uma severa estiagem no Norte, Nordeste e em faixas do Centro-Oeste, impondo desafios logísticos e operacionais, com reflexos diretos sobre a segurança energética do país para o próximo ano.

De acordo com o prognóstico da Tempo OK, o país viverá uma dualidade climática acentuada. O meteorologista Celso Oliveira aponta a gravidade desse descompasso ao detalhar os extremos previstos para os próximos 90 dias: “Podemos dividir o Brasil em dois cenários opostos durante a primavera: de um lado, regiões sob risco de enchentes e transtornos provocados pelo excesso de chuva; de outro, áreas sujeitas a estiagem grave e maior risco de queimadas.”

Excesso de chuvas no Sul e impacto em bacias de regulação

Na Região Sul, em São Paulo, no Mato Grosso do Sul e em porções de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, os volumes de precipitação deverão superar as médias históricas. O prognóstico indica que municípios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul poderão acumular patamares superiores a 1.000 milímetros ao longo da estação, volume que quase duplica a média histórica de referência, fixada em 650 milímetros.

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Esse corredor úmido eleva significativamente os riscos hidrológicos e geotécnicos, intensificando a probabilidade de cheias, erosões, deslizamentos de encostas e interdições em malhas rodoviárias, além de eventos severos associados a vendavais e quedas de granizo. Em contrapartida, as temperaturas nessas praças deverão permanecer próximas ou abaixo da média em função da persistência da nebulosidade e de incursões de frentes frias, com episódios de frio pontual previstos ainda para outubro e novembro em São Paulo e no Paraná.

Estiagem severa e risco hidrológico na Região Norte

Em direção oposta, toda a Região Norte, o Nordeste, o Mato Grosso, Goiás, o Espírito Santo e as porções norte de Minas Gerais e do Rio de Janeiro enfrentarão um regime de chuvas deficitário. O quadro mais crítico concentra-se nos estados do Amazonas e do Pará, onde capitais como Manaus projetam acumulados inferiores a 100 milímetros para toda a estação, menos da metade da média esperada para o período.

A escassez hídrica aliada à baixa nebulosidade impulsionará as temperaturas na porção centro-norte, com anomalias que podem alcançar picos de até 5°C acima da média histórica. Celso Oliveira adverte sobre o agravamento sistêmico provocado por esse padrão climático: “Essas áreas já enfrentam períodos de estiagem e temperaturas elevadas nas últimas primaveras, e a influência do El Niño pode agravar esse cenário. A demora na regularização das chuvas na Amazônia reduz ainda mais o nível dos rios, prejudica o transporte de pessoas e cargas e aumenta o risco de queimadas, além de atrasar o plantio.”

Reflexos para a operação do SIN e segurança energética em 2027

No âmbito do setor elétrico, a distribuição desigual das precipitações molda um panorama misto para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e para o planejamento da expansão e operação da geração centralizada. Embora o acúmulo de chuvas no Sul favoreça o regime hidrológico local e o despacho de usinas de base como Itaipu, o comportamento das bacias que abrigam os principais reservatórios de regulação plurianual do Sistema Interligado Nacional (SIN) inspira cautela.

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Com exceção da bacia do rio Grande, as previsões pluviométricas indicam que os volumes de água aportados aos reservatórios podem ser insuficientes para promover uma recuperação robusta dos níveis de armazenamento antes do encerramento do período úmido tradicional. O cenário acende um alerta para o planejamento energético de médio prazo, conforme ressalta Celso Oliveira: “Esse cenário pode trazer impactos para a segurança energética em 2027, uma vez que parte relevante dos reservatórios poderá iniciar o próximo ano com níveis inferiores aos registrados em 2026.”

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