El Niño muito forte amplia extremos hidrológicos e pressiona reservatórios do SIN

Anomalia de +2,0°C no Pacífico Equatorial intensifica chuvas no Sul e Sudeste, enquanto estiagem prolongada afeta bacias amazônicas e mantém pressão sobre estoques de água para geração

O avanço de um episódio de El Niño de intensidade muito forte está acentuando os contrastes hidrológicos no Brasil. Com a anomalia de temperatura do Pacífico Equatorial chegando a +2,0°C, o padrão climático combina chuvas excepcionais no Sul e Sudeste com estiagem prolongada no Norte, enquanto os níveis de armazenamento dos reservatórios permanecem sob atenção no Sistema Interligado Nacional (SIN).

O comportamento aumenta a complexidade da gestão hídrica do setor elétrico, especialmente porque a distribuição das precipitações não ocorre de forma homogênea entre os subsistemas. Enquanto algumas bacias recebem volumes elevados de chuva, outras permanecem com déficit hídrico e menor perspectiva de recuperação no curto prazo.

Chuvas extremas atingem Sul e Sudeste

Em São Paulo, setembro registrou o maior volume de chuva para o mês desde o início da série histórica, em 1943, segundo as medições citadas no levantamento. O Mirante de Santana acumulou 253,8 mm em duas semanas, aproximadamente três vezes a média climatológica prevista para todo o mês.

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Outras estações meteorológicas do estado também registraram volumes excepcionais, com recordes mensais em municípios como Bragança Paulista, Registro e Iguape. O excesso de precipitação veio acompanhado de temporais e ventos fortes, com impactos sobre a infraestrutura e a população. No Paraná, balanços preliminares das Defesas Civis apontaram mais de 21 mil pessoas afetadas em 76 municípios.

A perspectiva é de manutenção do padrão chuvoso no Sul e Sudeste até novembro. Projeções do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) indicam precipitações acima da média para essas regiões no período.

Amazônia enfrenta estiagem prolongada

O quadro é oposto na Região Norte, onde a redução das chuvas mantém rios amazônicos em níveis críticos. Em Boa Vista (RR), o rio Branco permanece abaixo das mínimas históricas, cenário que levou o governo estadual a decretar situação de emergência por 180 dias.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta baixa probabilidade de recuperação hidrometeorológica no curto prazo. Em julho e agosto, as chuvas na bacia do rio Branco corresponderam a apenas 45% do volume esperado.

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A vazante também avança em outros importantes rios amazônicos, entre eles Purus, Solimões e Negro. Além dos impactos sobre o transporte e o abastecimento, a persistência da estiagem mantém sob pressão as condições hidrológicas de uma região relevante para o sistema elétrico brasileiro.

Reservatórios do SIN têm recuperação limitada

No setor elétrico, o subsistema Sudeste/Centro-Oeste apresentou uma recuperação marginal no armazenamento agregado, de 57,1% para 57,4%. Apesar da alta, o patamar permanece em faixa de atenção após uma sequência de quedas semanais.

A recuperação mais consistente dos reservatórios depende da regularização das chuvas associadas ao período úmido. A expectativa indicada no cenário apresentado é de estabelecimento desse padrão principalmente entre novembro e dezembro.

O comportamento hidrológico do Sudeste/Centro-Oeste é particularmente relevante para o SIN devido à concentração de capacidade de armazenamento e geração hidrelétrica no subsistema. Por isso, mudanças persistentes nas afluências podem alterar as condições de operação e a necessidade de acionamento de outras fontes de geração.

Nordeste mantém pressão sobre armazenamento

No Nordeste, a situação hidrológica permanece mais restritiva. O armazenamento agregado dos reservatórios recuou para 47,9%, com Pernambuco apresentando o menor nível entre os estados citados no levantamento. A Bahia também registrou uma das quedas semanais mais expressivas no período analisado, reforçando a heterogeneidade do cenário entre as regiões brasileiras.

O quadro evidencia que o impacto do El Niño sobre o setor elétrico não se traduz em uma única tendência nacional. A combinação entre excesso de chuva em determinadas bacias e déficit hídrico em outras exige acompanhamento regionalizado das afluências, dos níveis dos reservatórios e das condições meteorológicas ao longo da transição para o período úmido.

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