Mercado comercial e industrial pode responder por 45% da capacidade nacional de armazenamento até 2034, impulsionado pela busca por confiabilidade e integração de fontes renováveis
Os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) começam a assumir uma função mais estratégica nas operações industriais e comerciais brasileiras. Além da arbitragem de preços no horário de ponta e do fornecimento emergencial, a tecnologia passa a ser utilizada para reduzir o impacto financeiro de interrupções, melhorar a confiabilidade elétrica e integrar geração renovável às cargas corporativas.
Projeções da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) indicam que o segmento comercial e industrial poderá representar cerca de 45% da capacidade instalada de BESS no Brasil até 2034. O mercado total de armazenamento deve avançar de aproximadamente 19 GWh em 2032 para 32 GWh em 2034.
Custo da interrupção muda decisão de investimento
Para consumidores com processos produtivos sensíveis, a confiabilidade do fornecimento passou a ser uma variável econômica da operação. Interrupções de curta duração podem provocar paralisação de linhas, perdas de produção e impactos sobre cadeias logísticas, tornando o armazenamento uma alternativa para reduzir a exposição a esses eventos.
A dimensão financeira desse risco aparece na avaliação de projetos realizada pela GreenYellow Brasil. O especialista em BESS da companhia, Leonardo Sartori, cita um caso em que uma interrupção relativamente curta teria impacto significativo sobre a operação: “Em um dos projetos analisados, por exemplo, identificamos que uma interrupção de 30 minutos poderia representar uma perda de aproximadamente R$ 250 mil para a operação.”
O cálculo do custo potencial das interrupções altera a lógica de avaliação do investimento. Em vez de considerar a bateria apenas pela economia obtida na conta de energia, empresas passam a incorporar ao projeto o valor associado à continuidade operacional.
O diretor comercial da GreenYellow Brasil, Fernando Oliveira, aponta essa mudança como um dos principais vetores de expansão do mercado corporativo de armazenamento: “O BESS deixou de ser uma solução pensada apenas para arbitragem de preços no horário de ponta ou como um sistema tradicional de backup. Hoje, o principal motivador é a segurança energética e a confiabilidade operacional.”
Baterias acompanham expansão das renováveis
A mudança de perfil também está relacionada à transformação da matriz elétrica brasileira. A participação elevada de fontes renováveis, especialmente eólica e solar fotovoltaica, amplia a necessidade de recursos capazes de oferecer flexibilidade ao sistema e às instalações dos consumidores.
Nesse ambiente, o BESS pode atuar em diferentes frentes. Entre as aplicações estão o peak shaving, para reduzir a demanda nos períodos de maior consumo, o load shifting, que desloca o uso da energia para outros horários, e o controle de oscilações de tensão.
A combinação de baterias com geração solar fotovoltaica também permite aumentar o aproveitamento da geração local, armazenando excedentes para utilização posterior. Para consumidores industriais e comerciais, esse arranjo pode associar redução de custos, maior previsibilidade operacional e menor exposição a interrupções.
Energy as a Service reduz barreira de Capex
A expansão do armazenamento corporativo também vem acompanhada de novos modelos de contratação. Um deles é o Energy as a Service (EaaS), no qual a empresa fornecedora realiza o investimento inicial no sistema e estabelece a remuneração a partir do desempenho ou da operação do ativo.
O modelo reduz a necessidade de desembolso imediato por parte do consumidor e pode acelerar a adoção do BESS em instalações nas quais o investimento inicial seria uma barreira. A avaliação econômica passa, assim, a considerar o custo total da solução e os ganhos proporcionados pela disponibilidade do sistema.
A GreenYellow destaca justamente a redução da necessidade de imobilização de capital como um dos fatores capazes de ampliar a contratação de baterias por empresas: “Esse modelo reduz uma das principais barreiras para a adoção do armazenamento, permitindo que as empresas tenham acesso à tecnologia sem a necessidade de imobilizar capital em ativos energéticos.”
Com o avanço dos projetos híbridos e dos serviços associados à confiabilidade elétrica, o BESS deixa de ser tratado apenas como equipamento complementar à geração ou como reserva emergencial e passa a integrar a estratégia de gestão energética de consumidores comerciais e industriais.



