El Niño eleva risco de interrupções e pressiona resiliência das redes elétricas

Abradee alerta para aumento de eventos climáticos extremos a partir de outubro; distribuidoras preveem R$ 260 bilhões em investimentos até 2030, com R$ 104 bilhões destinados à modernização e robustez da infraestrutura

As distribuidoras de energia elétrica brasileiras deverão enfrentar maior pressão operacional a partir de outubro, com a intensificação dos efeitos do El Niño e a expectativa de aumento de eventos climáticos extremos. Tempestades, vendavais, enchentes, secas e queimadas podem elevar a frequência de ocorrências e prolongar o tempo necessário para recomposição do fornecimento, segundo alerta da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee).

O risco é ampliado pela configuração da infraestrutura brasileira: mais de 99% das redes de distribuição são aéreas, deixando postes, cabos e demais equipamentos diretamente expostos às condições meteorológicas. O cenário climático também já é acompanhado pelos órgãos federais. O Painel El Niño 2026-2027 confirmou a configuração do fenômeno em junho e indicou alta probabilidade de permanência até o início de 2027.

O boletim aponta ainda possibilidade de intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. Para o setor elétrico, o impacto tende a variar de acordo com a região e com o tipo de evento predominante.

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Sul e Sudeste enfrentam tempestades e enchentes

No Sul e Sudeste, a principal preocupação está relacionada à ocorrência de tempestades severas, vendavais e chuvas intensas, capazes de provocar danos físicos à infraestrutura. A experiência recente do Rio Grande do Sul evidenciou a extensão desse risco. Durante os eventos de inundação no estado, estruturas de distribuição foram afetadas, incluindo instalações subterrâneas em Porto Alegre.

A ocorrência de múltiplos danos simultâneos é especialmente crítica para as concessionárias. Mesmo quando os sistemas de proteção identificam automaticamente uma falha e isolam o trecho afetado, a recomposição completa depende da localização do dano, das condições de acesso e da disponibilidade de equipes e equipamentos.

No Norte e Nordeste, a combinação esperada de estiagem, altas temperaturas e baixa umidade aumenta a preocupação com queimadas. Além do risco direto para a infraestrutura elétrica, a redução dos níveis dos rios pode comprometer a logística de combustíveis utilizados na geração termelétrica de sistemas isolados.

A fumaça e as partículas provenientes dos incêndios também podem provocar ocorrências em equipamentos e linhas, adicionando uma variável operacional ao planejamento das distribuidoras.

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Distribuidoras projetam R$ 260 bilhões até 2030

A necessidade de aumentar a capacidade de resposta aos eventos extremos está inserida em um ciclo de investimentos de grande porte. As distribuidoras projetam R$ 260 bilhões em aportes entre 2026 e 2030, dos quais R$ 104 bilhões serão direcionados à modernização, digitalização, expansão e aumento da resiliência das redes.

Os investimentos incluem automação e modernização de equipamentos, além de soluções destinadas a reduzir o impacto das interrupções e acelerar a recomposição do serviço.

A automação permite identificar falhas, isolar segmentos e restabelecer o fornecimento em partes da rede sem depender imediatamente da intervenção presencial. A tecnologia, entretanto, não elimina a necessidade de equipes de campo quando há destruição ou obstrução física da infraestrutura.

Automação tem limite diante de danos físicos

A queda de árvores de grande porte sobre a rede é um exemplo de ocorrência em que a tecnologia de proteção não consegue resolver sozinha o problema. Quando cabos, postes ou equipamentos são atingidos, a concessionária precisa enviar equipes para localizar a ocorrência, remover obstáculos e reconstruir os trechos comprometidos.

Para o diretor de Regulação da Abradee, Ricardo Brandão, esse limite reforça a necessidade de combinar digitalização com medidas preventivas e capacidade operacional. A automação reduz o alcance e a duração de determinadas interrupções, mas não substitui a atuação física necessária depois de eventos de maior severidade.

A questão ganha importância em tempestades de grande escala, nas quais centenas de ocorrências podem ser registradas em diferentes pontos de uma mesma área de concessão. Nessas situações, a capacidade de mobilização de equipes, veículos, materiais e equipamentos torna-se determinante para o tempo de restabelecimento.

Arborização urbana entra na estratégia de resiliência

A gestão da arborização urbana é apontada pela Abradee como uma das frentes preventivas capazes de reduzir a exposição das redes. A entidade defende a adoção de critérios de planejamento que considerem a proximidade das árvores com a infraestrutura elétrica. A proposta inclui a substituição gradual de espécies de grande porte, com alturas entre 25 e 30 metros, por vegetação de menor crescimento, na faixa de 3 a 5 metros.

A medida pode diminuir a probabilidade de tombamentos sobre cabos e equipamentos e facilitar o trabalho das equipes durante ocorrências. A implementação, contudo, exige articulação entre distribuidoras, prefeituras e órgãos responsáveis pela gestão ambiental e urbanística.

Experiências observadas em missões técnicas no Japão e nos Estados Unidos são utilizadas pela associação como referência para políticas de convivência entre vegetação e infraestrutura elétrica.

Impacto climático ultrapassa a operação da rede

Os efeitos de eventos climáticos extremos não se limitam ao custo de reparação dos ativos. Interrupções prolongadas podem afetar atividades industriais, comércio, serviços, telecomunicações e consumidores residenciais, além de pressionar os indicadores de qualidade do fornecimento.

Dados apresentados pela Abradee apontam que o número de desastres climáticos com impacto sobre a rede elétrica brasileira mais que dobrou na última década. A entidade também cita estudos econômicos segundo os quais as variações extremas associadas ao El Niño podem provocar uma retração acumulada de até 12% no Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul até 2050. O impacto efetivo, porém, depende da intensidade dos eventos, da exposição de cada região e da capacidade de adaptação das infraestruturas.

Para as distribuidoras, o desafio passa a ser combinar investimentos em ativos e tecnologia com planejamento preventivo. Automação, reforço de equipamentos, manejo da vegetação e capacidade de mobilização precisam operar de forma integrada para reduzir o tempo de interrupção quando eventos extremos atingirem as redes.

A preparação para um ambiente climático mais volátil, portanto, deixa de ser apenas uma questão de resposta emergencial e passa a integrar o planejamento de longo prazo das concessionárias e das políticas de infraestrutura urbana.

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